Enfiou o pé na jaca? E agora?
Publicado por Conrado Navarro em 07.5.2007 na seção Educação Financeira, Negociação, Orçamento
Recebo muitos e-mails de pessoas procurando ajuda para sair de uma crise financeira. É o clássico "pé na jaca" como bem definiu uma delas. E você? Está neste grupo? Se não, seguramente conhece alguém nesta situação. Costumo dizer que uma crise financeira só traz boas notícias. Como assim? Ora, se você está nesta situação é porque a culpa é sua. Só sua. Não é uma boa notícia? Sair, ou não, desta situação é uma decisão que só depende de você. Não é outra excelente notícia? "Mas Navarro, estar devendo é uma péssima notícia". Deve ser. Agora, se você deve é porque, entre dever ou não, preferiu dever. Me desculpe, mas o "poder escolher" é a melhor coisa que pode nos acontecer. Enfim, outra boa notícia. Viva o livre arbítrio.
Costumo receber um caminhão de críticas por abordar o "problema" desta forma. "Navarro, se estas pessoas são vítimas de um problema financeiro, trate-as como tal". Vítimas? Ora bolas, eu devo estar ficando maluco. Concorde ou não, você moveu cada pedra que compõe esta gigante montanha de contas e dívidas atrasadas. A primeira coisa que você tem que fazer, e fazer agora, é parar de lamentar-se e admitir sua culpa. Pare de acreditar que uma solução cairá do céu ou que há algo mais que o force a permanecer inerte e ainda endividado. Assuma seu verdadeiro lugar, pare de julgar a tudo e a todos e permita-se um momento de fraqueza. Engula o orgulho. Vítimas? Será que sou o carrasco da história?
Pare imediatamente de fugir das pessoas, lojas ou instituições a que deve dinheiro. Você não é mais uma criança. O problema não irá desaparecer só porque você se recusa a atender o telefone ou porque você costuma rasgar suas correspondências. Se você ainda faz isso, volte ao parágrafo anterior. Se preferir, pare de ler o artigo. Você pode e deve decidir cada passo de sua vida. Decidiu entrar nesta maré de contas? Que tal decidir sair? Que tal atender estes chamados e procurar agir com honestidade e sinceridade? Antes, mais algumas dicas são importantes.
Você já controla seu fluxo de caixa mensalmente? Sabe o que é orçamento? Não? Sua indisciplina para gastar o trouxe até aqui, portanto comece a pensar de forma inteligente daqui pra frente. Combinado? Você vai precisar de uma calculadora e de um pequeno pedaço de papel. Os moderninhos poderão usar uma planilha eletrônica. Vasculhe suas contas, seus registros e construa uma tabela que contenha: o nome do credor, quantia devida, juros cobrados e vencimentos. Organize a tabela de forma a priorizar as divídas com juros maiores. Estas serão as dívidas que exigirão maior esforço de sua parte e que deverão ser negociadas primeiro.
Faça uma pausa e procure trabalhar seu orçamento por algumas horas. Beba uma água, respire. Defina exatamente a quantia disponível livre no final do mês e as possíveis oportunidades de entrada de um dinheiro extra. Considere a possibilidade de usar o bônus da empresa, comissões, férias e a venda de alguns de seus bens. Lembre-se que se você está numa crise deste tipo é porque vive um padrão de vida completamente fora de sua realidade. Livre-se dele. Como resultado desta análise, crie uma nova tabela com as fontes disponíveis de dinheiro.
Olhe para as duas tabelas criadas até aqui, contemple-as por alguns minutos. A resposta para o seu problema de dinheiro está ali, você só precisa aprender a encontrá-la. É fácil, com o que consta na tabela de fontes disponíveis de dinheiro, você poderá pagar o que aparece na tabela de dívidas (Dãh). Óbvio, eu sei. Acredite, é só isso. Pode ser que ainda falte dinheiro? Claro.
Agora você sabe o que deve e o que já tem, e terá, para resolver essa situação. O passo seguinte é partir para a ação. Você terá que arregaçar as mangas, sair do conforto de seu sofá (que ainda não foi totalmente pago) e partir para a mesa do gerente. Mas deixe o orgulho em casa. Lembre de sentar-se com a cabeça erguida, com a dignidade e humildade de quem é honesto e correto. Você é assim, certo? Por favor, você não é vítima de nada. Aja com determinação. Peça um extrato detalhado do que deve e passe a argumentar. Você precisa resolver o problema. Já.
Tente diminuir a taxa de juros. Procure e explore a possibilidade de diminuir os valores das parcelas, lutando por um montante que caiba em seu orçamento (agora você sabe o que é isso, certo?). Você consegue vender aquele carro e pagar uma das dívidas à vista? Ótimo. Negocie o valor, peça desconto e se houver esta possibilidade, abraçe-a. Por último, leve em consideração a possibilidade de usar o crédito consignado caso as taxas de juros da dívida sejam maiores que a do empréstimo (lembre-se de levar a calculadora).
Como sempre, meus textos são simples, diretos e rápidos. Não devo, portanto não temo. Dever sem poder pagar, é permitir que seu nome seja associado à uma lista de maus pagadores. Deixando a matemática de lado, fica a pergunta: é melhor ter ou ser? Vale ter tudo o que você acha que pode ter, ainda que você represente mal seu nome? Ou será melhor honrar seu nome e através dele construir a vida que merece ter? A tal lista sempre vai existir. Seu nome vai constar nela? Isso, só sua atitude poderá responder. Eu? Tô fora!
Conrado Navarro
Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro
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Quem quer ostentar algo vai ter que ,literalmente, pagar por isso.
Navarro, duas coisas:
- às vezes os problemas metem-se na nossa frente involuntariamente. pode ser uma doença cara, um acidente, um problema sério no mercado, sei lá.
- acho que pessoas muito endividadas não são o teu público aqui :). Só acho, não conheço as buscas mas eu sei que estou o contrário de "endividado" atualmente (viva a Bovespa).
Conrado,
queria ter conhecido você na minha adolescência. Isso certamente teria me poupado de muito enrosco - rs!
Como seria importante que tivéssemos esse tipo de orientação "no berço"! Ou na escola... na tv, na vida.
Espero que seu trabalho tenha o maior alcance possível - as pessoas precisam muito de educação financeira! O mundo precisa!
Grande abraço!
aproveitando o topico veja uma pesquisa feita noS EUA, Inteligência vs. dinheiro:
http://www.cartacapital.com.br/edicoes/2007/maio/443/inteligencia-vs-dinheiro
Amigos, obrigado pelos comentários. São sempre muito bem vindos.
Bender, você tem toda razão. Pode ser que o endividamente venha por uma outra causa, mas aqui neste artigo tratei apenas de casos deliberados. Faltou mencionar isso, obrigado. Sobre o público alvo, confesso que o artigo surgiu por pedido de alguns leitores. Felizmente, eles não são maioria e agora poderão usufruir destas simples dicas.
Wagner, obrigado pelo apoio, sinceridade e força de sempre. Estou trabalhando para que estas dicas, informações possam ter este alcance. Sou uma formiguinha e com a ajuda de pessoas como você seguramente terei esta oportunidade. Meu objetivo é poder compartilhar, porque com isso posso aprender cada vez mais.
Charles, obrigado pelo link. Ótima reportagem.
Grande abraço a todos.
Navarro,
Reproduzi este post no Acerto de Contas. Parabéns pelo blog, está cada dia melhor. Abs
Marco Bahe
Fiquei apavorada com o resultado de uma pesquisa que acabei de assistri no Jornal da trade da Globo.
A pergunta era: Entre pagar uma dívida ou comprar um presente para sua mãe, o que você faria?
Venceu como resposta a segunda opção.
Se acontecesse isso comigo, como mãe, eu fiacaria com a sensação de não ter passado os verdadeiros valores para meus filhos.
Tomara que todos os filhos que tenham dívidas leiam este artigo antes do dia das mães e dêem de presente para ela o comprovante do pagamento.
Que mãe ia querer coisa melhor?
[...] A primeira atitude a tomar, é admitir que você é o responsável por essa situação. De acordo com o especialista Conrado Navarro, concorde ou não, você moveu cada pedra que compõe esta gigante montanha de contas e dívidas atra.... [...]
estou devendo muito dinheiro a dois bancos, cheque especial, giros, empréstimos, cartões de crédito, não consigo pagar, consultei um gerente amigo e disse o mesmo, não vai conseguir pagar, seu nome vai para o Serasa e não vai ter mais crédito...Chorei, ainda choro, não comuniquei aos bancos que não vou poder pagar, morro de vergonha e de tristeza, o que posso fazer? Não tenho dinheiro para devolver aquilo que pedi!
[...] e montar um plano de ação para eliminá-las de sua vida. Nesse contexto, vale a pena ler o artigo “Enfiou o Pé na Jaca? E agora?”, do Conrado Navarro, com dicas sobre como sair de uma crise financeira, bem como ouvir o podcast [...]
Navarro! O que fazer se a pessoa está falida? Não me refiro a falência de uma empresa mas a falência pessoal. Coloque o tópico sobre isso.