Subprime: a zica continua!
Publicado por Conrado Navarro em 16.08.2007 na seção Economia Geral
Tenho recebido muitas perguntas e dúvidas sobre a crise do subprime, iniciada nos EUA há pouco mais de uma semana. Todo esse rebuliço faz parte de nossa natureza e é absolutamente natural. Mas cuidado com as decisões em momentos de forte emoção. Elas podem traí-lo e(ou) decepcioná-lo. Tenho como missão ajudá-los a melhor entender o que vem acontecendo e como tudo isso pode afetá-lo, mas dizer o que deve ou não ser feito seria irresponsabilidade de minha parte.
Vou aproveitar este artigo para responder alguns questionamentos, na esperança de poder colaborar para a formação de uma opinião concreta diante da crise. Costumo dizer que perigo maior que enfrentar a crise é não saber que ela está acontecendo e qual sua razão de ser. “Eu não invisto em ações ou algo assim tão arriscado, portanto estou tranquilo quanto ao rumo da crise” foi um dos comentários que recebi recentemente. Isso é atitude de quem quer se esconder.
O fluxo de capital
A crise traz reflexos “interessantes” no giro de dinheiro pelo mundo. A crise aconteceu nos EUA, mas todo o mundo foi afetado. Como? Peço licença aos professores de economia e(ou) especialistas em mercado internacional para resumir o problema em dois aspectos:
- Bancos pelo mundo aplicam em produtos de bancos americanos. A globalização colabora para a facilidade na troca de recursos financeiros e esquenta a busca por melhores rentabilidades. Com isso, produtos bancários dos EUA são também parte da carteira de diversos fundos e bancos pelo mundo. O problema de liquidez de alguns bancos europeus surgiu por esse motivo.
- Tendência natural de fugir do risco gera a tendência de baixa nos mercados de ações e derivativos. O investidor comum não é um player muito importante neste cenário, mas os grandes fundos passam a querer manter sua rentabilidade e procuram alternativas melhores. Países emergentes sofrem mais porque são os primeiros lugares de onde estes grandes players tiram seu dinheiro. Se você fosse eles, faria a mesma coisa.
Fui simplista em minha análise, talvez até um pouco leviano. Mas meu objetivo é tornar a crise algo compreensível para todos e, infelizmente, não há como fazer isso usando só a linguagem econômica. Proponho um debate mais profundo através de perguntas enviadas por leitores. Vejamos…
Guilherme escreveu: “Com a crise no setor imobiliário americano, não seria este um bom momento, para investidores pequenos como eu, de aproveitar a desvalorização da Bovespa e comprar mais ações de empresas sólidas no mercado como Petrobrás e Vale”?
Guilherme, sua análise é correta, mas a resposta para sua pergunta não é tão simples. Existem muitos papéis em “liquidação”, não tenha dúvida, mas a crise não parece estar próxima do fim, o que deve levar os preços dos papéis para níveis ainda inferiores. São 14:20h agora e a Bovespa registra queda de 8,44%, estando a 45.124 pontos. Ela despencou. Muitos divergem sobre seu patamar mais baixo, mas eu continuo mais olhando que participando. Costumo deixar uma frase aos investidores menos experientes: se você está na dúvida se entra ou não, não se mexa.
No Brasil, inúmeros grandes investidores começaram a migrar suas aplicações da Bolsa para compra de dólar e recomposição de caixa. A saída do capital da Bolsa gera baixa nos preços dos ativos. Em um país de moeda lastrada pelo dólar, é natural que haja um enfraquecimento do papel. O dólar sobe, como podemos ver, e se torna uma excelente aplicação.
Lembre-se que há pouco mais de uma semana o dólar estava cotado a R$ 1,95 e agora é negociado a R$ 2,13, uma alta próxima de 10%. Uma aplicação com retorno de 10% em uma semana? Repare que, com isso, quero dizer que a queda da Bovespa não ocorre devido somente ao elevado risco dos papéis ou do país, mas também por causa da necessidade dos bancos e fundos de manter sua liquidez.
Ricardo comenta: “Navarro, em momentos críticos como este alguns produtos passam a ser mais interessantes que outros. Que análise podemos fazer neste sentido aqui no Brasil”?
Ricardo, isso realmente acontece. Crises são sempre oportunidades. Para entender o que pode ou não melhorar, é preciso que façamos uma breve relação entre macroeconomia, indústria e o cidadão comum. Vamos ilustrar isso melhor através de alguns tópicos:
- O Risco Brasil: com a volatilidade dos mercados, a desvalorização do real e a fuga do capital estrangeiro, é natural que o risco país suba. Quando um país negocia títulos públicos (Tesouro), ele dá garantias de pagamento através de juros, pagos anualmente. Pois bem, quanto maior o risco, maior o retorno. Se o risco país está crescendo, o Brasil terá que pagar mais juros para alguém se interessar por seus papéis. O Tesouro Direto pode ser uma opção muito interessante nestes momentos. No entanto, perceba que o governo decidiu cancelar os leilões de hoje. Ele tem esse direito, embora isso não seja comum.
- Importações e exportações: o dólar caro é bom para quem exporta e ruim para quem importa. A inversão nos papéis gera muito movimento nas indústrias e isso pode afetar a produção e o consumo de seus produtos dentro de nosso país. Para ficar num exemplo simples, grandes empresas cancelaram a importação de novos equipamentos e com isso sua produtividade pode cair.
- Falta de informações: quem está fora do mercado financeiro (ou mesmo quem está dentro) não possui muita informação concreta para tomar suas decisões. Especula-se muito, ganha-se pouco. Isso gera a necessidade de mais cautela e faz com que produtos mais seguros sejam novamente procurados. Durante os primeiros dias da crise, muitos investidores migraram parte do dinheiro de seus fundos de ações para fundos DI ou de renda fixa. Não há nada de errado nisso. No entanto, o reflexo na Bovespa é tão direto quanto inevitável.
Ouça o podcast sobre o tema:
[display_podcast]
.
Don’t panic!
Depois de tanta informação, relaxe. Respire. Meu objetivo foi envolvê-lo com mais aspectos da crise, especialmente no que se refere ao Brasil. Temos uma situação econômica muito melhor que a de outras crises, isso é fato. A extensão do problema é desconhecida e qualquer especialista que falar o contrário estará apenas especulando. Fique de olho nos indicadores, demonstre interesse pelo tema e procure disseminar o conhecimento sobre os fatores influenciadores da crise.
Numa hora dessas, só seu conhecimento e sua consciência podem armá-lo de coragem para continuar se interessando pela suas finanças. Não desista. Mesmo quando tudo vai mal ainda existe a possibilidade de piorar. Otimismo, fé e um pouco de Dinheirama são fundamentais (risos).
Artigos relacionados
Assine os feeds
19 comentários
Deixe um comentário
Os comentários e o teor das palavras aqui colocadas são de total responsabilidade de seus autores. Serão sumariamente excluidos os comentários publicados com e-mail anônimo (ou falso), de cunho preconceituoso ou racista ou que não estejam de acordo com o mínimo bom senso. Se quiser criticar, deixar sua mensagem de descontentamento ou desprezo faça-o usando seu nome e e-mails verdadeiros. O Dinheirama reserva o direito de publicar e(ou) apagar qualquer comentário que julgar inoportuno. Participe com decência da discussão! Obrigado.






















Subprime: a zica continua…
A crise continua e est ainda mais forte por aqui. Que reflexos vemos na Bovespa? E o dlar, um bom negcio neste momento? Qual a previso para o fim da crise? D sua opinio, contribua para a formao de cidados mais informados. Boa leitura….
Navarro parabéns,
desculpe a intimidade, mas como “te busco” praticamente todos os dias me sinto livre para isso. Foi com você que consegui conhecer e entender sobre economia, e vou continuar, devido a forma simples e direta com que você escreve.
È muito bom lêr em português sobre tudo que vem acontecendo no mundo.
Beijo grande,
Sandra
Olá meu amor.
Adorei o texto! Super bem explicado. Resolvi que não vou me mexer mesmo por estes dias. Fiquei traumatizada com a Bolsa bem quando resolvi me arriscar nela. Rsrs.
Beijos. Te amo!
Paulinha
É complicada a situação. Quando a queda começou, resolvi esperar. Duas semanas atrás decidi diminuir minha parcela de investimentos em fundos de ações (não invisto direto na bolsa ainda, e acho que fiz bem por não ter começado agora, ia ser difícil). Tinha 35% dos meus investimentos em fundos de ações e reduzi para 15%. Não tive prejuízo, ainda salvei algum rendimento, pois tinha aplicações desde março. Migrei para o CDB (aliás obrigado Navarro, sua dica foi fundamental para eu tomar essa decião, consegui uma taxa de 96,5% do CDI e meu CDB vai render bem mais que os fundos Di ou renda fixa que eu estava aplicando antes). Os 15% que ficaram em fundos de ações, por enquanto não vou mexer, vou aguardar e confio que haverá recuperação, nem que seja no LP (hoje pela primeira vez meu $ diminuiu, tenho menos do que apliquei lá 5 meses atrás). Coloquei aqui minha experiência com a crise, espero poder ajudar alguém que esteja em dúdidas com seus investimentos, como eu estava quando a baixa começou (ainda tenho dúvidas, é claro, mas pelo menos não estou mais perdidão sem saber o que fazer). Grande abraço a todos.
Não sei por que, mas eu queria estar participando dessa crise. Queria muito sentir essa emoção. Hehehe!!!
Brincadeiras à parte, eu nunca passei tanto tempo tão envolvido com economia, cara. Tudo isso graças a você. Muito legal isso!
To torcendo aqui de fora pra que tudo passe logo.
Abs!
Ainda bem que tirei uma parte da merreca de posição a tempo. Vou ficar brincando com CDB enquanto os “players” se matam lá.
Muito obrigado pela dica Navarro!
Abraço a todos.
Conras,
Eu também resolvi que não vou me mexer…rsrs .. e enquanto não me torno uma investidora, resolvi dar uma olhada no assunto hoje. E adivinha onde fui buscar informações? Aqui é claro! Concordo com o Cadu, eu também queria estar participando da crise..rsrs.
Grande abraço,
Claudinha
Navarro,
eu lí uma coluna do Gustavo Franco, dizendo que o principal problema é que quem provocou a bolha são “Hedge Funds”, e pelo que entendi operam em alto risco, e teoricamente para players que podem perder dinheiro. (Na coluna ele inclusive diz que foi um deles que gerou a “crise da Rússia”)
A bronca estaria no fato de que bancos emprestaram dinheiro que foi usado para investir nesses fundos, tornando muito difícil saber o tamanho do problema.
Quando você acha que essa crise chega ao ápice, ou seja, quais os sinais que mostrarão que de onde ela está não passa? O que devemos observar, fora o óbvio (bolsas), que deêm indicativo da situação?
Abraços,
Gilberto
Sandra, fico contente que o Dinheirama seja útil e conte sempre comigo. Sinta-se em casa.
Paulinha, princesa. Obrigado pela força, pela paciência e pela dedicação. Também te amo muito! Muitos beijos.
Marcelo, obrigado pela visita e pelo comentário. Sua mensagem é clara e muito inteligente. Parabéns pela atitude. Que outros possam seguir seu exemplo de serenidade e inteligência financeira. Fico feliz em poder colaborar.
Cadu, que bom que está se envolvendo com economia, isso faz um bem danado (eu acho). Valeu pela força de sempre.
Guilherme, é um prazer poder ajudar. Espero que possa sempre nos visitar e deixar seus comentários.
Claudinha, que legal ver seu comentário por aqui, isso me deixa muito feliz. Fortes emoções ainda vêm por ai (risos). Agora que frequenta o Dinheirama pense em aplicar seu dinheiro e trate de discutir o assunto com o “bem”, certo?
Gilberto, muito obrigado pela consideração. Parabéns pelo Uêba e por todo o seu sucesso. Recebi seu e-mail e um artigo para os que simplesmente assistem TV é uma ótima idéia. Os hedge funds trabalham com derivativos e aplicações muito alavancadas (mais aplicações que dinheiro) e isso está causando o problema de liquidez. O sinal mais óbvio que devemos observar é a reação do Fed diante do problema. Além disso, observar o movimento das empresas do ramo imobiliário também dá uma idéia do tamanho da crise. Algumas quebraram, outras estão por quebrar. Mas o sinal mais óbvio de seu ápice é mesmo o reflexo na liquidez dos fundos. Diferente de crises anteriores, os BCs estão agindo de forma coordenada e parece que injetando dinheiro na medida certa. Daqui do Brasil é muito difícil observar fatores que ditem o fim da crise. Estou de olho nos indicadores e dados dos EUA e assim que tiver mais novidades posto aqui. Grande abraço.
Achei esta notícia bem esclaredora, muito interessante o info-gráfico que explica a crise.
Harlley, realmente muito interessante o infográfico, ficou bem fácil entender a crise. Agora meu post ficou sem graça (risos). Excelente contribuição. Grande abraço.
Conrado, o podcast ficou muito bom !
Parabéns !
Abs
Navarro e outros, como eu, leitores fiéis do Dinheirama. Há alguns meses comecei a estudar o mercado financeiro, especialmente ações pensando no longo prazo. Simulei algumas carteiras, ia investindo aos poucos em fundos DI, renda fixa, multimercados e finalmente fundos de ações. Quando acumulei um pouquinho (bem pouquinho mesmo) entrei na Bovespa. Essa entrada aconteceu a cerca de 20 dias. Tudo ia bem até então. Comprei Sadia e Itaúsa. Montei um stop relativamente curto e estava feliz da vida vendo um rendimento de 4% em alguns dias. De repente (ou não) a casa cai. As minhas ações caiam lenta e persistentemente. Se atingissem meu stop e fossem vendidas eu ia perder 8% do que apliquei e eu ia contrariar minha posição original. Resultado: Me desesperei! Consultei diversos fóruns, blogs, sites de notícias e noticiários na TV. Resultado: fiquei ainda mais confuso! Impressionante como nesses momentos de crise as opiniões divergem. O que eu fiz então foi consultar minha esposa. Ela me disse que ninguém gosta de perder dinheiro (duh!) e que o dinheiro que está aplicado em ações não será necessário tão cedo. Ou seja, larguei meu dinheiro lá. Deixei a bolsa cair e relaxei! Hoje as minhas ações estão valorizando. Ainda não recuperei o prejuízo, acho que nos próximos dias volta a cair mas sei que, no longo prazo, vou me sair vitorioso! Só não invisto ainda mais na bolsa por que preciso comprar alguns móveis pra minha casa.
CHRistian, obrigado pelo elogio. Espero que todos os leitores apreciem o formato de áudio para alguns temas e perguntas.
Arthur, você agiu de forma sensata e correta. Ao final do podcast eu faço a mesma observação. Se as aplicações em ações são para o longo prazo, fique calmo e deixe a grana lá. Quem quer operar no mercado financeiro tem que ter outras preocupações. A rentabilidade média dos últimos 20 anos no Brasil está próxima de 18% ao ano, com as crises passadas e tudo mais. Easy man! Parabéns. Grande abraço.
Desculpem pelo meu longo comentário anterior. Mas me esqueci de algo importante. Aos pequenos investidores como eu, cuidado nesse momento. Muitos analistas falam em migrar para posições mais seguras, mas é necessário avaliar questões como impostos, taxas de administração e corretagem. Se você sair da bovespa e migrar para um fundo DI e retornar daqui a uns vinte dias, pode se dar muito mal pagando a maior taxa de IR, IOF, taxas e etc. Como o Navarro disse no podcast, se você, como eu, entrou a pouco na bolsa e tem uma visão de longo prazo, deixe estar. Logo as coisas se normalizam.
E aí, é hora de ir às compras…
Perfeito Arthur! Quando quer começar a escrever para o Dinheirama? Show de bola, mandou muito bem. Abraços.
Hahahahaha,
Navarro seria uma honra colocar a visão do cidadão comum em um blog tão badalado quanto o Dinheirama! Mas como se diz aqui em Minas Gerais: tenho que comer muito feijão pra chegar lá! Forte abraço.
Os mercados realmente estavam precisando dar uma realizada, eu na minha opnião ainda acho bolsa uma otima opção de investimento acredito que ela venha crescer de 10 a 15 % nesse ano a mas do que ela ja cresceu, brasil vai testar com certeza esses 60 mil pontos até o final do ano. e Vimos tambem que o Down Jones tem uma resistencia muito boa nos 13 mil pontos, passando setembro os mercados devem ficar menos volatil.
gostaria de esclarecer uma dúvida que possuo quanto ao mercado financeiro americano, seria ela.: o governo americano ou o fed, não regulamenta este mercado, pois fui informado que somente os bancos normais sofrem uma fiscalização mais rígida e que apartir deste desastre do sub-prime, começariam fiscalizar mais.