Ibovespa - Sobe e desce!Artigo escrito por Gustavo Cerbasi*

O mês de agosto brindou o mercado de capitais brasileiro com um tremendo solavanco, decorrente da onda de pânico que surgiu do colapso parcial do sistema de crédito imobiliário norte-americano. Para quem não entendeu o que aconteceu, uma breve explicação: os norte-americanos perceberam que a euforia imobiliária (bolha imobiliária, para os íntimos) elevou os preços artificialmente, a coisa ultrapassou os limites razoáveis e os preços finalmente começaram a descer; muita gente havia se endividado para comprar imóveis e lucrar com eles, e diante da impossibilidade de lucros não estão conseguindo pagar suas dívidas. “Muita gente” refere-se a pessoas físicas e grandes fundos de investimento, sendo que estes começaram um forte movimento de venda de outros ativos de risco, como ações de empresas, para equilibrar as perdas de suas carteiras de investimento.

Basicamente, o que aconteceu foi uma grande liquidação de preços de ações, em parte porque acredita-se que muitas empresas não irão lucrar tanto quanto se previa (muitos americanos quebrando = menos consumo = menos lucro), em parte porque, lucrando ou não, investidores decidiram vender papéis de risco e, para vender rapidamente, apelaram pela redução de preços.

Para muitos especuladores, foi motivo de pânico. Para investidores com visão de longo prazo, nem tanto. Se você está entre os que não sabem o que fazer durante uma crise, siga minha receita. Quando ouço uma má notícia sobre o mercado e as bolsas de valores, minha primeira reação não é ouvir a opinião de analistas de mercado, mas sim de analistas de empresas. Meus sites favoritos são os de relações com investidores (RIs) das empresas em que invisto. Ao invés de dar atenção a caçadores de suportes e resistências, prefiro ler sobre as projeções de lucros de minhas empresas, sobre o impacto da suposta crise nos negócios dos quais possuo ações.

Foi essa atitude que me trouxe uma informação riquíssima: cerca de 80% dos negócios das empresas brasileiras dependem exclusivamente do mercado interno, ou seja, pouco importa se os consumidores americanos irão consumir mais ou menos. O que importa é se o brasileiro vai continuar seguindo seu ritmo crescente de consumo.

Crises como a que estamos passando – sim, ela não acabou – servem principalmente para nos lembrar o que é risco. Estive muito incomodado com o longo período de alta na Bolsa de São Paulo, por duas razões: 1) quanto mais sobe o Ibovespa, mais caras estão as ações que eu quero comprar; e 2) desde que comecei a investir em ações, sempre ganhei muito ao comprar papéis durante crises, raramente obtive grandes lucros durante períodos de calmaria. Isso se deve principalmente pelo fato de eu preferir ações de grande volume de negociação, as quais apresentam menor volatilidade em períodos de otimismo.

Posso dizer que, quanto mais dinheiro disponível tenho para aplicar, mais ansiosamente fico esperando por uma crise, pois nas crises eu compro ações a preços mais baixos. Você pode perguntar: “mas nas crises você não perde dinheiro com a baixa no preço de suas ações?”. Minha resposta a essa pergunta é: NÃO.

A quantidade de ações que eu comprei continua a mesma. Os resultados projetados de minhas empresas e seus conseqüentes dividendos continuam praticamente os mesmos. Uma queda no preço das ações diz pura e simplesmente que eu perderei dinheiro se vender as ações nesse momento, e não que eu perdi. Quem não vende não perde, continua desfrutando do crescimento da empresa.

Para quem tem dúvidas sobre o que fazer durante períodos de turbulência, minha sugestão é que comemore. Os juros continuam em queda no Brasil, o que significa muito mais do que menor rendimento nas aplicações de renda fixa; significa que o ambiente está cada vez mais favorável para que empreendedores empreendam e para que empresários invistam. O ambiente está cada vez melhor para que o consumidor busque crédito e consuma mais. O Brasil está crescendo. Para aproveitar esse movimento, você deve pensar em investir em ações. E, para começar, nada como esperar um dia de muito sol e muita queda na Bolsa – esses dias têm sido bastante comuns hoje em dia…

* Gustavo Cerbasi (www.maisdinheiro.com.br) é consultor financeiro pessoal e autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos e Dinheiro – Os Segredos de Quem Tem.

Nota: Este artigo foi publicado com total e expressa anuência do autor, cujas colaborações serão freqüentes no Dinheirama. Gustavo, registro aqui nosso muito obrigado pelo apoio ao blog. Sucesso!

Conrado Navarro
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Comentários

  • Ter o Cerbasi com artigos no Dinheirama é um prazer a mais, acrescenta muito no debate.
    Quanto ao risco, acredito que ele sempre existiu. Foi assim, nas crises asiaticas (quando ocorreram as adulterações em balanços de empresas), foi assim na Crise da Russia, na Moratória Argentina, no México etc. Aliás, quanto maior o risco, mais o retorno!
    O que eu vejo com certo pessimismo quanto ao que se projeta é a questão da queda de juros e no que isso pode causar no país, se pararem de cair os juros.
    A questão de que as empresas brasileiras ainda são focadas no mercado interno, é sem dúvida um dado alarmante sobre tudo por que, está muito barato comprar serviços e produtos brasileiros, e se ainda assim não conseguimos fazer presença no mercado internacional, quer dizer que não estamos sendo competitivos ou que o empresariado brasileiro não esta investindo e acreditando no crescimento sustentável da econômia. Mas, em se tratando da crise e analisando sob o ponto de vista do Cerbasi até que poderiamos dizer: “são males que vêm pra bem”. Será ?
    Eu tenho a ousadia de discordar, e vou tentar imaginar o seguinte cenário:
    A economia norte americana desaquece, o risco cresce qual é a principal medida dos investidores, principalmente os especuladores que ainda representam papel importante nos chamados países emergentes? Buscam, o Tesouro norte americano. Aí começa de novo a velha história fuga de dinheiro. Na prática esse dinheiro nunca esteve aqui, porque não era com intenção de investir, mas sim especular com as ainda expressivas taxas de juros etc. Aí, acontece, a falta de dolares no país consequentemente o dolar começa a subir, o banco Central pressionado, pela fuga de capitais interrompe a queda dos juros, até porque a subida do dolar é um componente a mais para subida de inflação, e o monetarismo exarcebado do BC não suportaria uma inflação anual acima da meta de inflação.
    Aí, meus amigos a palavra da vez seria recessão, falta de emprego, e o país não cresceria.
    Felizmente, o FED cortou a taxa básica de juros na tentativa de aquecer o mercado norte-americano em 0,5%. O que nos dará alento por algum tempo, até que novos dados possam guiar o mercado.
    Bom gente, é um papo meio técnico e chato demais, mas na essência, o risco existe, mas ele é calculado. Aproveitem as baixas, e vendam na alta … esse é o lema.

  • rafael luis ferreira

    Olá Cerbasi !

    Gostaria de colocar meu ponto de vista. Acredito que 80% das empresas brasileiras precisam sim de creditos ou investimentos internacionais, pois se vier uma crise maior americana os investidores irão procurar outro lugar melhor para colocar o dinheiro.
    As grandes empresas brasileiras ja estão fazendo isto, abrindo fabricas e filiais na china. E se o mercado americano der sinais de recessão por mais de 3 trimestres, o que será que acontece ??

    Particularmente falando, acho que o Brasil gasta mal os recursos dos impostos, o governo tem mais sorte do que juizo, hoje estamos melhores por causa do plano real e do crescimento da china que começa a dar sinais de inflação, se os chineses não tiverem para quem exportar seus produtos no caso de uma recessão americana, eles vão parar de produzir e assim o Brasil não terá para quem exportar matéria-prima primaria que é o que está dando sustentação a balança comercial, etc… De qualquer forma, agradeço ao Navarro por abrir espaço para discussões sadias que só agregam valor ao nosso cotidiano, grande abraço a todos !
    Rafael Ferreira

  • Arthur Gouveia

    Uau Cerbasi! Lendo o seu artigo me parecia estar lendo minhas próprias palavras! Parabéns, estamos com o pensamento em linha. Minha primeira compra de ações foi no dia 30/07 e alguns dias depois a casa cai. Confesso que me preocupei um pouco pois segundo a filosofia dos “caçadores de suportes e resistências” devemos ter um stop sempre! Bem, quase que meu stop foi atingido! Quase saio do mercado com perda de 8% em alguns dias! Quase…

    Hoje já não sei o que vou fazer já que a crise está acabando. Tenho um pouquinho de dinheiro e estou querendo comprar mais PETR4, mas a danada da ação não cai ao nível que estou disposto a pagar!!!

    Não que eu queira que a crise seja eterna, concordo com os dois colegas acima que dizem que uma crise duradoura pode atrapalhar nossa vida por aqui. Mas uma crisezinha de vem em quando, até que vai bem. Quem não gosta de liquidação?

    Hoje quase morro de alegria quando os traders entram em pânico. É uma derrubada de preços que não dá pra resistir! Compro o que posso. E daqui a uns dez anos vamos fazer as contas dos lucros…

    Muito obrigado pelas palavras. Achei que eu estava ficando louco ao querer que a bolsa despenque…

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  • Crise e oportunidade são grafadas da mesma maneira em japonês, e isso não é sem motivo. Da mesma maneira que podemos perder dinheiro com a queda, podemos nos beneficiar de alguns repiques ou até boas perpectivas providas pelo milagroso FED. Dependemos de medidas e da intervenção sobre a economia como a queda de juros, caso contrário, viva o nosso mercado interno.
    Muito interessante o post e gostaria que criticasse meus comentários sobre alguns livros, muitos deles indicados aqui.

    http://www.dicasdecarreira.blogspot.com/

    Quem sabe não podemos ser parceiros em breve?

    Desde já agradeço.