Juros altos! Culpa de quem?
Publicado por Ricardo Pereira em 26.9.2007 na seção Economia Geral
Juros, juros e mais juros. Começo o texto pelo básico, buscando uma definição para o juro. Vou me valer do que está escrito no dicionário "Melhoramentos da Língua Portuguesa", que o define como "a remuneração que uma pessoa recebe pela aplicação do seu capital; rendimento de dinheiro aplicado”. Dessa maneira, e pensando em uma aspecto temporal, tudo que traz prazo tem, de uma forma ou de outra, juros envolvidos. Sempre alguém paga juros e sempre alguém recebe juros.
Por que os Juros no Brasil são tão altos?
Minha intenção era chegar a essa definição no final, mas é através da explicação dos juros altos que chegaremos, juntos, naquilo que é o mais lógico e visível em se tratando de Brasil: as conseqüências dos altos juros. Primeiro, precisamos entender que as instituições financeiras (bancos) dos outros países também lucram (muito) ao emprestar dinheiro aos seus clientes, ainda que usando taxas de juros bem mais baixas que as praticadas por nossas instituições. Dito isso, não cabe somente aos bancos a culpa pelas altas taxas praticadas. Vejamos um pouco mais sobre a tal "culpa".
O Governo. Desde que me conheço por gente, o Brasil sempre possuiu grandes problemas no campo econômico. Vivenciei o período de hiperinflação que, com o advento do Plano Real, acabou sendo superado. Entretanto, essa época foi marcada, entre outras coisas, por uma moratória da dívida externa. Isso você já sabia, certo? Qual a relação com os juros? Ora, coloque-se no lugar do FMI e de outros credores que tiveram seus débitos encerrados, unilateralmente, do dia para a noite. Dílson Funaro resolveu dar um calote com "C" maiúsculo.
Hoje em dia, uma atitude como essa acabaria resultando numa crise de maiores proporções, graças à chamada Globalização. Voltando ao X da questão, com o calote o Brasil passou por uma crise de confiabilidade. Ainda assim, o Brasil continuou precisando de dinheiro e, com a maior cara-de-pau, recorreu aos organismos internacionais de crédito para solicitar novos empréstimos. Esse ciclo criou no país uma deficiência muito grande de capital interno, com pouca entrada de dinheiro, e falta de investimentos. Calma, o economês vai acabar já já.
A falta de dinheiro, sobretudo de investimentos internacionais, foi um dos responsáveis pela hiperinflação. Todos sabem que os Bancos Centrais tem como missão o combate à inflação, e durante todo esse tempo as altas taxas de juros foram as principais armas utilizadas para tentar combater esse crescente poder inflacionário. Viu? Os juros altos têm explicaçao sim. Vale lembrar que o governo ostenta um gigantesco déficit público e usa das altas taxas de juros dos empréstimos para arrecadar fundos para cobrir os empréstimos tomados lá fora. Ops, chega de economês!
O cidadão comum. Tal qual o governo brasileiro que se utilizou da chamada moratória, o consumidor brasileiro dos produtos bancários (empréstimos, financiamentos, etc.) tem um histórico bastante peculiar e até justificável de inadimplência, o que encarece o capital e aumenta o risco de crédito. Existe aí um ciclo vicioso: juros altos, inadimplência, juros altos.
É verdade que, nos últimos anos, conseguimos novas modalidades de financiamentos. O empréstimo consignado, por exemplo, permite que o próprio salário seja uma garantia de recebimento para as instituições financeiras. Ainda assim, os juros continuam enormes e sacrificantes. Além do alto índice de inadimplência já mencionado, vale ressaltar a grande passividade do consumidor brasileiro. Falta uma melhor cultura financeira, que começa na educação de nossas crianças.
Quantos são os que enveredam pelos labirintos dos cartões rotativos, cheques especiais, sem ao mínimo saber o que é um empréstimo consignado? O banco ganha, na maioria das vezes, por nossa total falta de conhecimento, nossa ignorância financeira. Sem conhecermos o produto, não discutiremos corretamente as taxas nele embutidas.
As conseqüências dos juros altos
A tendência de queda dos juros apenas será possível se o governo reduzir os gastos e passar a gerar mais fontes de renda para a redução do caos interno e da dívida pública. Ter uma das maiores taxas de juros do planeta dificulta, e muito, a situação econômica de um país, afinal, os juros altos nada mais são do que o custo do dinheiro.
Se baixarem os juros, haverá o retorno da hiperinflação, baseada no amento da demanda?
Acho que não. A taxa básica do Banco Central, a Selic, recai sobre o dinheiro em circulação, que não é poupança, já que não fica indisponível por nenhum prazo. Qualquer um, a qualquer momento, pode sacar (não deixem a Zélia ouvir isso). É o dinheiro que circula, que faz a economia girar.
Como assim? Por que esse dinheiro rende juros?
A lógica diz que, pagando os juros, o Banco Central evita que os donos dessa moeda venham a gastá-la ou emprestá-la para que os outros a gastem. Dessa forma, age de forma a retrair o consumo, o investimento e a produção. Perceba, isso é um vai-e-vém danado, é economês desnecessário. Por trás das justificativas mil, a grande verdade é que o Banco Central mantém as taxas de juros nesse patamar por razões cambiais. De forma simplista, tem medo que, ao baixá-las, os estrangeiros que especulam no Brasil, atraídos justamente pelas altas taxas, fujam do país.
O que fazer?
Acredito que o Banco Central exagera na quantificação dos juros. É excesso de "monetarismo", num país que precisa se desenvolver. É a velha questão da linha tênue existente entre o remédio e o veneno. A conscientização popular através da educação financeira pessoal é um instrumento importante, pois só assim as pessoas poderão questionar os bancos e procurar modalidades mais inteligentes de investimento, tendo real poder de discutir, com seus gerentes e gestores, taxas reais mais interessantes. Saberão, de forma definitiva, o real valor daquilo que estão comprando e financiando.
Os 4 P's!
Enquanto os juros não abaixam, podemos utilizar a regra básica dos 4 P's: Planejar, Pesquisar, Pechinchar e Pagar a vista. Fica o meu incentivo ao gasto consciente e inteligente. Procure aquilo que é bom para o seu bolso, valorize seu conhecimento de economia. Navarro, muito obrigado pelo espaço e oportunidade. Até a próxima.
------------
Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston Garantia e passa a integrar a equipe de editores de Economia do Dinheirama. Seja bem vindo Ricardo.
Ricardo Pereira
Educador financeiro, palestrante, autor do livro "Dinheirama" (Blogbooks), trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
Mais sobre Ricardo Pereira Outros textos de Ricardo Pereira

























Ricardo, excelente artigo! Assim começamos a publicar textos mais aprofundados, um dos temas eleitos pelos leitores em nossa recente enquete. Material de primeiríssima qualidade. Fico feliz por contar com sua ajuda e seu apoio. Vamos que vamos. Espero que todos os leitores também gostem e deixem suas opiniões. Grande abraço.
Realmente a questão dos juros é um assunto que merece uma análise aprofundada. Pela primeira vez me parece claro. Muito bem Dinheirama
Nunca entendi, porque os juros no Brasil são tão distantes do resto do mundo. Na faculdade o professor de economia de deixou mais confusa, e achava que era apenas política econômica, não via a questão de olhar no meu próprio umbigo em realmente fazer alguma coisa para mudar isso.
Otimo artigo!! Muito esclarecedor!!
"A tendência de queda dos juros apenas será possível se o governo reduzir os gastos e passar a gerar mais fontes de renda para a redução do caos interno..."
Tai a CPMF como um exemplo, o governo prefere manter um imposto a cortar gastos, os quais todos sabemos que são exorbitantes. Enquanto o governo não enxugar a máquina, não há juros que baixem, imposto que diminuam. E precisamos, principalmente, educar a população! Sem educação não chegaremos a lugar algum!
Obrigado Navarro, é uma satisfação pessoal muito grande participar desse instrumento maravilhoso de aprendizagem que é o Dinheirama. Escrever o artigo foi um prazer.
Renato e Alessandra, a análise mais aprofundada e conseguir com esse texto tornar o tema, um pouco mais fácil de entender era o desafio. Espero que tenha realizado esse feito. Espero que realmente tenha um efeito prático para todos.
Muito bom artigo, e reforça a minha disposição em sempre deixar os juros trabalharem ao meu favor, e não contra mim.
Uma pena que, para que o dinheiro aplicado renda, é preciso que outros paguem o preço...
Parabéns Ricardo! Ótimo artigo! Realmente a falta de educação financeira, pra não falar da falta de civismo, educação social, e de valores morais é um câncer em nosso País.
A bem da verdade o que falta no Brasil é educação, pura e simples.
Acompanho o Dinheirama a praticamente 3 meses, e nunca havia comentado. Com esse artigo de hoje, tenho a impressão do quanto vocês cresceram em tão pouco tempo. Que maravilha. Tv Dinheirama e um artigo tão rico como esse o que virá por aí ?
Estou ansiosa pelos próximos artigos. Parabéns Ricardo e Navarro.
Realmente o artigo ficou mais avançado que o dia a dia. Navarro, acho que já reconheço seu jeito de escrever pois lendo o feed, de cara percebi que você não era o autor!
Agora, é necessário separar a Selic da taxa praticada pelas instituições financeiras. Estas sim exorbitantes!
E de quem é a culpa de a taxa de juros do meu cheque especial ser de quase 8% ao mês?!?!?!?!?!?!?!
Ola Arthur, espero que tenha gostado do artigo. Quando você diz que o jeito de escrever do Navarro, realmente você tem razão, o Navarro tem uma maneira toda dele de escrever, o que facilita muito para compreensão de assuntos que parecem complicados.
A questão do seu cheque especial, é complicada na verdade no país o custo do dinheiro ainda caro demais. O que será que aconteceria se todos nós despensassêmos o cheque especial, nos recusassêmos de verdade?
Será que os banqueiros vendo a fonte secar, não tentariam oferecer o mesmo produto com um juro menor?
A jogada é não utilizar o cheque especial, faça um fundo de reserva e o utilize em momentos de necessidade, se mesmo assim precisar de um financiamento vá para outra modalidade.
Obrigado pelo feedback.
Ricardo, graças a Deus, à meu crescente aprendizado financeiro e ao Dinheirama, não entro no cheque especial a um bom tempo. Entrei algumas vezes pois minha empresa ficou meio sem grana e, consequentemente, fiquei sem receber. Tive que pedir ajuda à esposa pra tapar o buraco. Especificamente quanto ao cheque especial, acho que o "boicote" não resolveria o problema de forma tão simples. Não dá pra entender por que o brasileiro cai nessa. Como você mesmo ponderou o empréstimo consignado é muuuuuuito mais barato. Mas o cheque especial é um dinheiro que está lá, à sua disposição. Imagina se todo mundo usasse esse crédito ao mesmo tempo! O sistema bancário entraria em colapso!
Forte abraço e continue contribuindo com o Dinheirama.
Belo Artigo , Parabéns ao Dinheirama ! abs
É a primeira vez, que acesso o Dinheirama. Estou fazendo um trabalho para faculdade justamente pelo assunto abordado, e em nenhum lugar na internet encontrei um artigo tão bom de uma maneira que qualquer um possa entender. Amanhã mesmo, vou ligar para meu pai procurar outras formas de financiamentos, juros agora só a meu favor.
Obrigada, dinheirama!
Realmente o Dinheirama cresce e aparece a cada dia
Parabéns!!!
Era o que faltava ao Dinheirama artigos aprofundados como este, sugiro para o próximo o regime de metas de inflação. O que vocês acham?
Paulo, ótima sugestão. Estaremos olhando-a com carinho. Obrigado pela visita e volte sempre.
Estou voltando para agradecer, graças a esse artigo tirei uma nota excelente parece que vocês adivinharam o que eu realmente precisava. Já indiquei o Dinheirama para outras amigas do curso e estamos achando cada dia mais trilegal.
Obrigada novamente a vocês, que fazem coisas complicadas ficarem fáceis.
Paulo, sua sugestão é realmente muito interessante. Ricardo e eu certamente prepararemos algo sobre isso para os próximos artigos.
Raquel, fico feliz que o Dinheirama tenha ajudado tanto. Espero que possa colaborar sempre. Ajude na divulgação. Obrigado. Um abraço.
Vejo que o primeiro artigo mais técnico e aprofundado foi um sucesso! Ricardo, vamos lá parceiro! Os leitores é que mandam. Abração a todos.
O artigo está muito coerente e bem escrito. Também sou economista e concordo com o que foi dito. Apenas, sobre a parcela de culpa que cabe aos bancos, no Brasil, eu acrescentaria a questão das taxas de serviço, que são um problema à parte, mas que acabam resultando no mesmo efeito dos juros, em formato 'cascata', 'corroendo' principalmente o dinheiro dos pequenos correntistas, justamente aqueles que não dispõe de recursos financeiros nem de conhecimento de mercado suficientes que lhe permitam ficar trocando de aplicações, de modo a minimizar as perdas. O volume de dinheiro que os bancos, no Brasil, ganham apenas com taxas de serviços é muito elevado.
QUAL O VALOR TOTAL DA DIVIDA DO GOVERNO COM FMI EM 2008>, SE PAGOU 15,5 BILHÕES DE DÓLARES DE JUROS POR 2005, 2006 E 2007
QUAL O VALOR DA DIVIDA DO GOVERNO BRASILEIRO COM O FMI EM 2008?