Cade o risco que estava aqui?
Publicado por Lúcio Costi Ribeiro em 05.11.2007 na seção Ações
Me ofereci para analisar e comentar, aqui no Dinheirama, o que sai na imprensa em geral sobre finanças pessoais. Não, não vou concorrer com o Arthur Gouveia, que, com muito talento, resume o noticiário da semana. Mas sempre que ler algo que acho que valha à pena comentar a respeito vou mandar pro Navarro e ele decide se sai por aqui ou não. Combinado?
Quando eu achar bom, elogio. Mas se não gostar do que li, falo mal! Sem pudores! E na minha estréia, vou começar pegando no pé! Existe uma máxima no mundo das finanças que diz que quanto maior o risco, maior a rentabilidade. Quando esta frase foi dita pela primeira vez, seu autor poderia estar apontando para uma bolsa de valores sem medo de errar. O problema é que normalmente só vemos as pessoas falar da segunda parte: a da rentabilidade, deixando o risco para segundo plano.
A imprensa não é diferente de nós. Os jornais, revistas, TVs, rádios, sites não são criados para mudar o mundo. São poucos os títulos encontrados nas bancas para fazerem os leitores pensarem e agirem diferente da grande maioria. Vou usar um exemplo recente e mostrar maios ou menos como isso funciona e, quem sabe, alertar os fiéis do Dinheirama sobre como devem ler os jornais.
A polêmica ensina!
Minha intenção não é sublevar as massas contra o poder constituído. Afinal, concordo com meu colega jornalista Ancelmo Góis, do jornal O Globo, que disse outro dia numa entrevista que, quando começou na profissão “queria mudar o mundo, hoje me contento se conseguir fazer com que a prefeitura não deixe estacionarem o carro na calçada”.
O que quero, ressalto, não é dizer que a imprensa só fala bobagens e que ninguém deve dar bola para ela. Muito pelo contrário. A intenção é mostrar como é importante se crítico com o que nos oferecem. Eu mesmo tomo minhas decisões de investimento, voto, diversão etc muito influenciado por ela. Leio jornais, assisto TV e ouço rádio todos os dias e passo boa parte do tempo na internet. Acho também que, se algo está no mundo e tanta gene gosta, alguma utilidade tem. Por outro lado, uma das primeiras lições que tive na faculdade foi “desconfie de tudo”.
O exemplo de hoje
A revista Época desta semana traz na capa a manchete “Ganhei um milhão na bolsa”. São 15 páginas sobre renda variável. Nas seis primeiras, exemplos de gente que teve muito, alguns estrondoso, sucesso investindo em ações. Tem um jovem na capa que teve infância pobre, passou dificuldades na juventude e acabou rico botando grana na Bovespa. Outra personagem é uma mulher que cuida das finanças da casa, fundou um clube de investimentos e ensinou as manhas aos dois filhos adolescentes.
É claro que são pessoas de verdade e estão na revista por esforço de apuração, entrevista e redação de bons jornalistas. Mas bem que a reportagem poderia mostrar que tem gente que perde muito, contanto também o quê fez de errado pra gente aprender pra valer.
Depois, encontra-se um guia do Mauro Halfeld (vale à pena ler a coluna semanal dele na Época mesmo e ouvi-lo diariamente na rádio CBN) com treze perguntas e respostas sobre ações, uma página com uma seleção de frases inteligentes, simples e bem humoradas do Warren Buffet (êta, velhinho esperto, viu?), o terceiro homem mais rico do mundo (a revista esqueceu que o mexicano Carlos Slim, que no Brasil é dono da Embratel e da Claro, passou na frente até do Bill Gates e diz que Buffet é o segundo bolso mais cheio do mundo). E, no final, a análise de gente do mercado sobre quinze ações promissoras para 2008.
A pulga atrás da orelha
A matéria é bem escrita. A Época não contrata qualquer um (tem que ser bom de texto e de apuração!). Mas reforça a tese do segundo parágrafo: não foi feita para questionar nada, mas reforçar que a bolsa é um excelente investimento. E é mesmo! Acho que ninguém que tem uma graninha hoje deve ficar de fora.
Mas me intrigou que a palavra risco aparecesse tão pouco. Ao todo são 18 vezes. Ora, ao longo de catorze páginas, descontados os anúncios publicitários, dá para amontoar um montão de palavras. Para ajudar, “risco” não aparece nas primeiras páginas. Nenhum dos personagens sequer cita algum método de prevenção de perdas. Só vai aparecer na terceira página, mas aí não conta porquê é para dizer exatamente o contrário: que “em breve, o Brasil deve receber o tão esperado grau de investimento das agências de classificação de risco”. Quer dizer: tudo às mil maravilhas!
Tá bom! Sei que posso estar sendo rigoroso! Mas em tempo de subprime, não falar no assunto foi um erro! Parece até que é passado! Não é! Na semana que passou, o UBS (um banco suíço que, aliás, comprou o ABN Amro, dono do Banco Real) anunciou que ficou no vermelho por ter investido em derivativos dos contratos de crédito dado a alguns americanos malucos que nunca teriam nem caderneta no mercadinho da esquina. E tem gente dizendo que mais bancos devem vir morro abaixo. Bem como diz o Buffet:
“O gênio dos derivativos está há algum tempo fora da garrafa e esses instrumentos vão certamente se multiplicar em variedade e volume até que aconteça alguma coisa que torne clara sua natureza tóxica”
O mérito vai, aliás, para a página com as frases dele e para o texto do Mauro Halfeld, uma voz sensata no ouvido do pequeno investidor. É na matéria dele que a palavra “risco” aparece mais vezes e pela primeiro de verdade:
“É uma aplicação de risco. Pode oferecer grandes ganhos - ou também grandes perdas”
É bom ficar de olho e ouvido bem atento ao que andam dizendo por aí! A reportagem é bacana, os exemplos interessantes, mas o risco continua existindo. Entrem sim na Bolsa, mas lembrem-se de estudar muito bem seu funcionamento. Bons negócios!
——-
Lúcio Costi Ribeiro é gaúcho, jornalista e mora em Brasília, além de adorar a cidade! Começou a estudar finanças para cuidar do próprio bolso, gostou e resolver escrever sobre dinheiro. Já fez boletins enviados para mais de 2 mil rádios do país e agora escreve sobre como a imprensa trata o pequeno investidor. Ah, tem fama de pão-duro, mas jura que apenas gasta menos que os outros.
Crédito da foto para Marcio Eugenio.
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20 comentários
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Opa! Gente nova por aqui! Seja bem vindo Lúcio. Suas palavras e estilo de escrever são ótimos! Ainda não li a matéria da Época, mas pretendo. Agora, quanto ao risco, ah o risco! Adoro o risco! Isso faz com que as cotações às vezes subam e, felizmente, às vezes caiam. Quando cair, hora de comprar.
Eu sou um destes novos investidores que estão na bolsa graças à ênfase que a mídia tem dado no mercado de renda variável. Mas não abri mão de estudar, de aprender, de ler e de definir, de tudo o que está disponível, o que é melhor para mim.
Aos novos investidores, e vejo que são muitos aqui no Dinheirama, recomendo muita leitura. Recomendo verificar os posts antigos do Dinheirama. Recomendo o fórum da Sociedade Dinheirama. Lembrem-se: o risco existe e não dá pra viver sem ele. Portanto, aproveitem os momentos de queda!!!
Lúcio seja bem vindo!
E começou muito bem.
A falta de conhecimento principalmente dos riscos e da operacionalidade dos investimentos em bolsa, são os principais obstáculos para que os investidores principiantes possam ter sucesso no mercado.
Em tudo na vida existe risco, e o mínimo que precisamos é conhecê-lo. Já presenciei muita coisa nesse sentido, milhões perdidos em mínutos e fortunas contruídas na mesma velocidade. Os vencedores, são muitas vezes chamados de Deuses das finanças, experts, meninos prodígios. No meu entender, os méritos dessas pessoas são um bocado de sorte, mas principalmente muito conhecimento adquirido no assunto.
Parabéns pelo artigo!
Desculpe eu devo ser muito ignorante, mas
não consegui entender o que o autor quer nos
falar???? confuso….
Sandra, o Lúcio fez uma crítica construtiva à reportagem da revista Época, que menciona o mercado de ações como algo muito interessante, mas sem detalhar melhor os riscos. Leia o artigo com mais calma, levando em consideração a reportagem da revista. Tenho certeza que, desta forma, a crítica ficará bem clara.
O importante é a mensagem que fica: aplicar na Bovespa é ótimo, devemos todos fazê-lo, mas com consciência plena dos riscos e do conhecimento necessário para se dar bem.
Grande abraço. Tenha uma ótima semana.
Olá Sandra, fazendo um resumo bem simplista no meu entender o recado é, não pensar que tudo são flores. Na matéria da revista, foi focado muito os bons resultados obtidos, quando na verdade o histórico da bolsa é feito também com grandes perdas.
Ficar alerta no risco e conhecer bem o mercado é super importante, para não se decepcionar apenas baseado numa reportagem como da Epoca.
Muito importante sua dúvida, fique a vontade para outros comentários.
Olá Lucio, parabéns pelo artigo.
Essa reportagem mexeu comigo também.
Pra dizer a verdade, fiquei assustado.
Porque ? Leiam o que diz Warren Buffet e que foi reproduzido no próprio artigo da revista Época :
“A maioria das pessoas se interessa por ações quando todo mundo está interessado. O momento de interessar-se é quando ninguém mais se interessa. Não se ganha dinheiro comprando o que é popular.”
A reportagem tenta popularizar a bolsa. Será então o momento de abandonarmos o barco ?
Outro ponto: o título de capa ressalta o ganho de um jovem investidor. Transformou 4000 reais em 1 milhão. Não questiono a veracidade. Mas esperava pelo menos algum indício sobre como ele alcançou tal façanha. Não nada de revelar estratégias… queria apenas saber em que mercados ele investiu, se operou alanvancado, se usou conta margem…etc
Nada ! A reportagem não entrou em detalhes.
Uma pena !
Grande Abraço
CHRistian
Outro ponto que pode “enganar” os novatos é o IPO da Bovespa. 50% de lucro em um dia não é coisa comum de acontecer. Além disso um IPO é extremamente arriscado. Nunca se sabe o que vai acontecer, como o mercado vai agir no primeiro pregão…
Já falei sobre isso no fórum: http://dinheirama.com/forum/viewtopic.php?t=81
O Dinheirama sempre me surpreende positivamente. Meu marido virou fã, eventualmente navegamos juntos e comentamos as leituras daqui (isto é um elogio, viu, Conrado, porque como trabalhamos no computador sempre, navegar por lazer é bem especial).
Ao receber a Época no sábado viemos aqui olhar uma matéria que tinha lido há tempos, ações como poupança a longo prazo. Concordo com as colocações do Lúcio, a matéria pendeu para um lado só, mas, convenhamos, é característica desta revista. Gostei de vê-la comentada aqui.
Eu sinceramente fiquei meio assustado também. Lembrei da história (lenda?) do Joseph Kennedy, que dizem vendeu todas as suas ações um dia antes do grande crash de 1929 quando ele soube que seu engraxate tinha comprado ações. Será que não estamos indo nessa direção? É claro que uma depressão como a de 29 não se repeteria, mas acho que de uma queda forte nós não estamos livres não. Algo que levaria alguns anos para se recuperar. Ai, ai ai… E vamos que vamos…
[...] colunista no Dinheirama Lúcio Costi Ribeiro comentou a matéria da Época citada por mim outro dia Aqui Gostei muito da análise feita por ele vale a pena ler, mas como ele próprio diz é preciso [...]
Obrigado pelo texto Lúcio! Realmente bastante interessante.
Apenas complementando o comentário sobre o UBS, todos os grandes bancos envolvidos com crédito subprime estão registrando perdas muito maiores do que o previsto. O banco de investimentos Merrill Lynch está sob suspeita de, apesar de ja ter anunciado perdas acima do previsto, estar escondendo parte do prejuizo. E o Citi Group, outro gigante, perdeu seu CEO no domingo (4) por conta dos resultados apresentados.
Mais motivos pra ficar de olho!
Desculpe, mas você criticou tanto a Época e esqueceu de falar dos riscos da Bovespa, na minha opinião enriqueceria mais a sua matéria.
Muito bom texto, Lúcio.
Infelizmente, minimizar um dos lados é uma tendência de reportagens em geral. Neste caso, o foco (patrocinado ou não) da Época era aparentemente incentivar o investimento em ações. Poderia ser uma “denúncia” de manipulação de índices, informações privilegiadas, etc (para ficarmos no âmbito do mercado de capitais), e aí maximizariam os riscos, esquecendo que há pessoas comuns que ganham também.
Infelizmente, parece que ninguém percebe que a informação imparcial, trazendo os riscos e benefícios, é a que melhor satisfaz aos leitores.
Obrigado a todos pelos comentários! Acho que o balanço da estréia foi bom! Respondendo ao Elias, acho que esse papel o Navarro tem cumprido com genialidade. A minha intenção é desvendar a notícia.
Até a próxima!!!
Lúcio, parabéns pela sensacional estréia. A repercussão foi ótima e a participação dos leitores muito interessante. Fico feliz em poder contar com seu apoio. O que vem por ai? Estou curioso… Abração.
Aí, Navarro! Vamos ver qual será a próxima!!!
Não é rigorismo não, uma pessoa mais desavisada poderia invetir o pouco que tem e perder, o outro lado da moeda deve ser mostrado sim, isso é a imparcialidade.
Você chegou no ponto exato, Ostrock!!!
Lúcio, parabéns pelo texto! Sem dúvida o RISCO da Bovespa precisa ser alertado aos navegantes menos experientes….
Abraço,
Alex
Achei essa matéria muito importante para nós q investimos pouco, mas com esperança de aumentar os lucros.
Investimos na Petrobrás , na Vale do Rio Doce.
Mandem mais informações pra mim.
Grato por sua atenção.