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Brasil – Crescimento, despesas e investimentos

11comentários

Dinheirama - Estrada para o futuro!No artigo “As (in) justificativas da CPMF”, abordamos, com uma ótica distante, o modelo econômico chinês e a partir dele traçamos um paralelo com o cenário brasileiro. Alguns leitores defenderam a manutenção da CPMF, o imposto do cheque, levantando as necessidades sociais presentes no país e a dificuldade em sonegá-lo (pretexo este bastante interessante). Entretanto, hoje quero fazer uma análise mais crua e realista do modelo e das escolhas econômicas[bb] brasileiras.

Ainda na China
Dez por cento dos chineses vivem abaixo da linha da pobreza, um índice melhor do que o verificado no Brasil, que registra 38% de pobres e 16% em estado de pobreza extrema. Na China, não existe Bolsa Família, nem programas sociais semelhantes. Lá, também não se vê uma previdência pública que paga um salário mínimo para 10% da população.

Sei que muitos de vocês podem não gostar dessa comparação – e concordo que são realidades e culturas diferentes – mas há um fato reconhecido pelo mundo todo que precisamos considerar: a China retira, todo ano, milhões de pessoas da linha da pobreza. E faz isso com educação (particular, na maioria das vezes) e com geração de empregos e oportunidades de trabalho[bb].

De volta ao Brasil
Aqui, percebemos justamente o contrário. A cada nova semana acompanhamos o presidente Lula defendendo fortemente os programas sociais, especialmente o Bolsa família. Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros para poder comer.

Tendo uma profissão e um emprego, a pessoa cuida de sua vida. Mais, gera valor para a sociedade com seu trabalho e com seu exemplo. Quem se vale do Bolsa família tem uma situação emergencial resolvida, mas não garante chance de melhoria ao longo do tempo. Ao final de uma análise mais fria, será que não estamos diante de um paliativo? A assistência social[bb] permanente, com o governo dando dinheiro às pessoas, é a demonstração da falta de dinamismo.

Mas também há crescimento econômico com mais portos, aeroportos e estradas. Estamos em um momento crucial para a economia brasileira. Precisamos, como nação, optar e priorizar:

  • Programas sociais (distributivismo, assistencialismo), ou;
  • Investimentos em infra-estrutura (dinamismo e acumulação)

Outro dia, o presidente Lula[bb] criticou os que querem transformar todo o dinheiro público em estradas e portos e repetiu:

“O gasto social é, na verdade, o melhor investimento, pois significa investir no ser humano”

Vamos separar as coisas?
Parece-me óbvio que gastar em educação e saúde é a melhor maneira de investir em alguém, pois vai capacitá-la para construir uma vida digna e de resultados. Desde muito antes do presidente Lula, o governo brasileiro gasta nessas duas áreas, mas gasta reconhecidamente mal. Para exemplificar, basta olharmos o desempenho de nossos alunos nos testes nacionais e internacionais. Basta olharmos para as seguidas crises nos serviços de saúde.

Não falta investimento, falta qualidade e gerenciamento.
Particularmente, discordo quando o presidente diz que, em nome do social, precisa contratar mais pessoal e gastar mais. Esses gastos aumentam ano após ano, sem que sejam notados ganhos significativos nos serviços públicos. Fico em dúvida quando o presidente Lula diz que o seu governo vai “dar muita comida e fazer muitas obras”. Afinal de contas, nem países ricos têm recursos suficientes para fazer tudo isso.

Claro, o Bolsa Família possuiu abrangência nacional e tem um resultado eficiente no que se refere a melhorar a vida dos mais pobres, mas falha em não garantir o futuro aos beneficiados. Infelizmente, o aumento nos gastos “sociais” reduz o investimento do governo em infra-estrutura, este sim um gasto que gera emprego e aumenta a capacidade de crescimento futuro.

Precisamos de escolhas. Sempre!
Neste ano, o governo federal está gastando 19% do PIB só com a Previdência, área social, funcionalismo e custeio da máquina pública. Para efeitos de comparação, se o Brasil conseguir viabilizar todas as obras do PAC e colocá-lo em completo funcionamento, irá investir 0,9% do PIB.

Na época do ministro Antonio Palocci, existia, de forma mais evidente, a preocupação no sentido de conter o gasto público e melhorar a eficiência geral do sistema. Desse período, resultaram projetos muito interessantes, como o Projeto Lei Complementar 1, enviado ao Congresso Nacional, que estabelece:

“O gasto com pessoal da União, em um determinado ano, será o equivalente ao que se gastou no ano anterior, mais a inflação (medida pelo IPCA), mais 1,5% de aumento real”

No começo desse ano, o ministro do planejamento Paulo Bernardo foi à Câmara dos Deputados defender o projeto, explicou como os gastos com pessoal têm crescido fortemente e de maneira imprevisível, de modo a alcançar hoje 26% da despesa primária (excluí pagamento de juros). A coisa não andou.

Pela regra prevista neste PLC, a folha total de 2008 poderia subir apenas 5,56%, nominais, se a inflação ficar dentro da previsão de 4% em 2007. Entretanto, o projeto de orçamento de 2008 enviado ao congresso prevê que os gastos com pessoal terão um aumento nominal de 10,8%. Qual será o orçamento “vencedor”?

Onde vamos parar?
O bem momentâneo dos atuais programas sociais, medidos pelos altos índices de aprovação, garantem ao governo um sentimento de poder ilimitado e trazem à tona o sentimento de que tudo se resolve pelo Estado. É o popular “quanto maior, melhor”.

A privatização é uma boa alternativa?
Vale a pena prestar atenção nas privatizações do atual governo Lula. Já foi concedido, para a Vale do Rio Doce, um trecho de quase 800 quilômetros da Ferrovia Norte-Sul. Além disso, outras concessões, no âmbito rodoviário principalmente, já ocorreram e se apresentaram com a vitória de grupos internacionais.

Talvez essa seja uma saída. Talvez. Pressionado pela falta de dinheiro para grandes investimentos, talvez o governo decida abrir cada vez mais a área de infra-estrutura, incluindo aeroportos, de forma a disponibilizá-los para iniciativa privada. Enfim, isso já é um tema para outro artigo.

O jornal Estado de S. Paulo e o site do Ministério do Planejamento foram usados como referência para a criação deste artigo.

——
Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

Ricardo Pereira

Mais informações

Educador financeiro, palestrante, Sócio do Dinheirama é autor do livro "Dinheirama" (Blogbooks), trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama. No Twitter: @RicardoPereira

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  • Luiz Henrique

    Gostei muito do artigo, o que sempre vimos no Brasil é isso, investimos de forma errada. Pra mim o único programa social que era realmente útil, foi o bolsa escola que pelo menos trazia as crianças a educação para que no futuro conseguisse se sustentar sem precisar de ajuda.
    Outro ponto interessante foi a questão de não poder sonegar a CPMF, eu ainda não havia pensado nisso.

  • http://blog.infostf.com igor

    ôpa! Só um comentário pertinente: a questão da sonegação (e acho q quem escreveu o artigo para o qual aponta o link) não diz respeito à sonegação da própria CPMF, mas que cruzando os dados dela com o dos outros impostos, dá pra achar sonegadores (exemplo: sujeito declara q recebeu 100 mil no ano, pagando imposto sobre essa renda, mas aí tu vai vê que ele pagou, só de CPMF, 120 mil, ou seja, alguma coisa tem!).

  • http://dinheirama.com Ricardo Pereira

    Ola Igor muito bom seu comentário você tem toda razão, no seu comentário. Mas não acredito que quem defenda a tese da sonegação pare por aí. A defesa é feita na cobrança também, pois não existe maneira de burlar, como dizem por aí , é pá e bola. Usou o cheque pronto já vai ser considerado imposto, fez qualquer tipo de movimentação bancária pronto lá vai imposto.
    Muito obrigado pela observação.

  • Prato

    Concorde plenamente com o Aldo Leonardo e Andre no artigo das (in)justificativas da CPMF.

    Não devemos ser contra esse ou aquele imposto, pois acabou este, logo depois criam-se outro imposto para arrecadar até mais do que o anterior, como o Aldo exemplificou em seu comentário. Temos é de cobrar daqueles que estão no planalto, no senado, nas secretarias, etc. o resultado do dinheiro investido (Vejo o imposto/taxa/contribuição como um investimento em nosso país. Pena que ainda não tivemos algum retorno satisfatório).

    Situação hipotética:
    Imagine que você tenha um filho que adora leite condensado e nunca enjoa do doce. Pior, a cada dia que passa o guri come mais e mais doce… Você, como um bom pai(mãe), o proíbe de comer o tal doce e explica que isso é para o bem dele e talz…

    Você acha mesmo que o rapazinho não vai encontrar outro jeito de se lambuzar desse doce sendo que ele estava acostumado a sempre comê-lo?

    Essa situação aconteceu com o meu pai quando ele era criança e ele mesmo contava que roubava as latas de leite condensado da cozinha e comia escondido no quarto dele… e por mais que ele apanhasse da minha avó ele continuava pegando o doce escondido…

    Uma vez que a população é omissa com relação aos gastos públicos, elege qualquer metalúrgico como presidente, tem a cultura de sempre usar seu “jeitinho brasileiro” para não investir no seu país e como investidor da nação não cobra resultados dos “gerentes” dessa “Empresa”, cobrar a extinção ou manter a CPMF não nos trará bem algum. Sempre vamos sair prejudicados.

    Nossa cultura nos induz a esses tipos de ação.

  • deborah

    Quando leio ou escuto alguma coisa sobre o assistencialismo do governo, fico tão irritada como quando alguém me oferece um título de capitalização.
    Não é fazer filantropia com o dinheiro alheio que vai resolver a desigualdade social. Só dimunui (não acaba) com educação de qualidade, formação de pessoas com pensamento crítico. Mas, se depender do governo, que só se preocupa com estatísticas, é melhor não precisar de escola pública.

  • Cazelli

    Devemos do parar de usar o termo “Precisamos fazer” e passar a usar “O que vamos fazer a respeito disso”.

  • http://www.codigofonte.net Emmanuel Alves

    Como comentei no artigo falando sobre a CPMF, é uma vergonha ler os jornais e saber que o presidente Lula quer porque quer a CPMF aprovada, mesmo este ter sido contrário antes de ser eleito como presidente.

    A questão do “Bolsa Família” eu vejo como um auxílio para a preguiça, pois o governo, ou melhor, nós, estamos mantendo os pobres como estão, alimentando-os como se fossem animais e não investimos em educação e saúde como deveria ser feito. Tudo bem que investir em um recurso que irá dar dinheiro, todo mês, aos pobres pode ser considerado “bom”, mas por outro lado, estamos apenas mau acostumando estas pessoas e não incentivando a procura de empregos, pois estes estarão certos que todo o final do mês terão a sua “mesada” do governo.

    Sou contrário a CPMF e aos programas de incentivo a preguiça, como é o caso da Bolsa Família. Devemos investir mais em educação, saúde e segurança. Com educação, nossos jovens terão capacidade para no futuro complementar a demanda de trabalho e aumentar, com isto, a nossa economia. Com Saúde teremos um país menos doente, com pessoas mais dispostas a trabalhar. Com Segurança podemos viver tranqüilos, trabalhar e estudar sem escutar tiroteios de traficantes por causa de um droga.

    Então, senhor Presidente Lula, vejo que os recursos que estão sendo empregados hoje não vão levar em nada para o futuro da nossa população, apenas estão servindo como uma “propaganda” do seu governo, que está tentando transparecer uma cara de “aquele que ajudou a população”.

  • Cristina-sp

    Muitos dos que recebem bolsa família dizem que não gostam de estudar ou nem mesmo gostam de ler. Não adiante investir em educação. O povo não gosta de ler!!!
    Hoje em dia a educação está tremendamente mais facilitada do que no tempo que eu estudei. Hoje só não estuda quem não quer mesmo. E o povo não quer !!

  • Manoel

    Acho que estamos vendo um círculo vicioso de lei do menor esforço. Dá tanto trabalho tornar a máquina pública eficiente que é mais fácil aumentar imposto.

    Por que? Culpa nossa!

    Se fosse mais difícil aumentar imposto, se cobrassemos mais e exigissemos um governo eficiente, um dia mudaremos a curva e será mais fácil para o carinha com a faixa quebrar o p… com o congresso para tornar o estado eficiente que aumentar os impostos.

    PS: O povo também segue a lei do menor esforço. É mais fácil seguir pelo bolsa família que ralar pra conseguir alguma coisa melhor.

  • http://newserrado.com/ Antonio Carneiro

    Muito bom esse artigo. Acho que a China, embora não seja o monstro feio que alguns pintam, não é exatamente um modelo que queremos seguir. Mesmo assim, o ponto principal que você quis passar é importantissimo: Menos assistencialismo e mais investimento produtivo, que tenha efeito multiplicador por toda a economia e acabe gerando crescimento e riqueza.
    Quanto à CPMF, no meu artigo que vc linkou (gracias!) eu ressaltei os dois aspectos do combate á sonegação: direto e o cruzamento com os outros impostos. Curioso como a CPMF é antiga, fala-se tanto dela ultimamente, mas vemos pouco espaço para um debate real, apresentando todos os aspectos positivos e negativos dela.

  • http://dinheirama.com Ricardo Pereira

    Antonio Carneiro,
    Desculpe a demora em responder a seu comentário, muito obrigado pelos elogios ao artigo. Tudo sempre tem o lado positivo e negativo, o modelo chinês não foge a regra, alguns aspectos inclusive devido ao gigantismo do país, se tornam até mesmo inviaveis.

    Manoel, muito obrigado pela visita, continue comentando e quem sabe até sugerindo pautas.

    Olá Cristina como vai?
    Você tem razão no seu comentário quando diz que população não gosta de estudar. Mas, esse sintoma é causa ou efeito? Particularmente acredito que é efeito justamente de uma falta de investimento forte no setor com educação de qualidade, falta incentivo pelo estudo, porque o Brasil ainda é um país onde faltam oportunidade principalmente para a população mais carente, que ainda acredita que a assistencia social é saída, ou seja viver de favor da família, da comunidade onde vive e do governo.
    Temos que mudar essa realidade, hoje os meninos como opção de futuro melhor querem ser jogador de futebol, as meninas modelos ou artistas de TV, enfim não priorizam o estudo para alcançar o sucesso.

    Emmanuel, mais uma vez obrigado pelos comentários e pela visita volte sempre.

    Cazeli, nós do Dinheirama acreditamos realmente em fazer alguma coisa, por isso os artigos e a busca pelo conhecimento. Forte abraço e obrigado pelo comentário.

    Deborah como vai? O assistencialismo tem sua importância e realmente existe uma população carente que vive apenas dessa ajuda, agora o que deixa a desejar é que não existe um projeto que busque no curto, longo ou médio prazo retirar aquela pessoa que depende da ação assistencial dessa situação. Projetos de geração de emprego e renda alternativos para essas pessoas poderiam ser as saídas.

    Prato, obrigado pela participação. Volte sempre ao Dinheirama.

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