Equilibrando patrimônio e dívidas
Publicado por Conrado Navarro em 26.11.2007 na seção Educação Financeira, Orçamento
Carlos comenta: “Navarro, estou em uma situação interessante e por isso decidi escrever. Tenho algumas dívidas de cartão de crédito e de empréstimos bancários que consomem muito de minha receita e não consigo quitá-las. Conversando com um amigo, ele sugeriu que eu vendesse parte do meu patrimônio (uma casa de veraneio usada apenas duas vezes ao ano) para sair do buraco. Achei meio absurdo na hora, mas pensando bem acho que ele tem razão. O que você acha? Há equilíbrio sustentável entre patrimônio e dívidas? Obrigado”.
Carlos, obrigado pela participação. O patrimônio acumulado mostra que você construiu sua vida financeira de forma inteligente, mas deixou-se agarrar em algum problema no campo pessoal com o cartão e o empréstimo. Muitas são as causas para isso e não cabe julgar a coerência da atitude. A lógica por trás do raciocínio de seu colega é válida e merece sua atenção. Analise o aspecto financeiro: você tem um bem relativamente caro (casa de veraneio), pouco usado, enquanto sustenta dívidas com juros de quase 10% ao mês. Faz sentido?
Uma questão de planejamento
Vender um bem caro para quitar uma dívida pode ser algo doloroso, é verdade. No entanto, pensando em fluxo de caixa, deixar de vendê-lo e rolar uma dívida pode ser uma combinação mortal. O imóvel traz despesas e a dívida traz juros. Em ambos os casos o dinheiro sai de seu bolso e você não tem nenhuma vantagem (competitiva ou estratégica).
A utilização de uma planilha de controle de gastos e receitas permite que você visualize o cenário do parágrafo anterior. Um erro comum é somar os gastos apenas no final do mês, sem antes estimá-los. Sem trabalhar com um orçamento futuro, tudo que você tem em mãos é uma ferramenta de reação, com reduzidos efeitos práticos. O planejamento facilita a preparação da familia e evita surpresas desagradáveis.
Reavaliando suas prioridades
A questão é mais simples do que parece, embora as pessoas comumente prefiram complicar. Imagine-se tendo que escolher entre quitar uma conta de água ou comprar um novo sapato. Ou quem sabe escolher entre pagar uma conta atrasada ou viajar para ver um amigo. As escolhas são óbvias, fáceis e diretas. Não há contra-argumento inteligente que justifique comprar um sapato a manter a água em dia. Querer explicar estas decisões baseando-se no aspecto emocional é apenas justificar a sua ausência de senso no momento da decisão. Senso é dinheiro.
A importância do patrimônio
É impossível deixar de lado a discussão sobre a relevância de um bem diante de uma dívida. Afinal, será que é justo abrir de mão de algo que você trabalhou tanto para conquistar? A justiça neste caso tem uma forte raiz emocional, que nos convida a esquecer a matemática previamente abordada. É onde mora o perigo.
Vou além. Pouquíssimas famílias tem uma imagem clara de seu patrimônio, do quanto custa mantê-lo e qual sua real utilidade em suas vidas. Esta afirmação pode ser facilmente fundamentada através das seguintes perguntas:
- Quanto custa manter tudo que você tem? Quanto maior o seu patrimônio, maior a saúde financeira necessária para mantê-lo (duh!). É certo que disso você já sabia. Então permita-me uma olhada no histórico de receitas e despesas de cada um dos seus bens. Hein? É importante que, pelo menos uma vez ao ano, você liste detalhadamente seu patrimônio e descreva os gastos correntes para mantê-lo. A declaração anual de IR é uma hora boa para fazer isso. Ah, estas informações têm que fazer parte de seu orçamento.
- Você usufrui de seu patrimônio? Quantos carros você consegue dirigir ao mesmo tempo? Em quantos lugares você consegue estar ao mesmo tempo? Em tempos de crise e quando se passa por problemas financeiros
, estas questões perdem a importânica. O prazer dá lugar ao estresse para pagar os credores. Pelo menos é o que eu ouço. Logo, manter um apartamento na praia, raramente ocupado, enquanto a operadora do cartão rola sua dívida cobrando 10% de juros todo mês, não é uma boa idéia.
Aspecto familiar
Pessoas normalmente têm suas despesas e receitas dramaticamente afetadas por mudanças na família ou no dia-a-dia de um relacionamento. A chegada de um filho, a mudança para uma nova cidade ou um problema de saúde são alguns exemplos que ilustram o impacto da vida nas finanças pessoais.
Como o patrimônio muitas vezes já está estabelecido, ele é automaticamente ignorado quando uma discussão financeira aparece na mesa de jantar. Em suma, muitas vezes ataca-se o problema sem total conhecimento das possibilidades de contorná-lo. Exercite mais seu raciocínio financeiro, lembrando sempre de manter-se em companhia do bom senso.
Ainda assim…
…existem os que não concordam em desfazer-se de uma casa, de um carro ou de um apartamento para sair do buraco. Tudo bem. A saída fica mais difícil, mais longa e mais cara, mas ainda existe. Renegociação de dívidas é algo pouco difundido no Brasil e que poucas pessoas se dispõem a fazer. Dá trabalho, é verdade. Mas se você paga muito nas parcelas / quitação de suas dívidas, a ponto de prejudicar seu orçamento, está claramente além de sua realidade. Aceite isso e mexa-se.
Ah sim, aqui surge outro perigo. É comum ver erros grosseiros de priorização quando já se deve demais. Muita gente deixa de pagar o financiamento do banco para pagar a parcela do carro, mas não sabe explicar a razão para tal decisão. Antes, é preciso avaliar as taxas de juros e a facilidade para renegociação das dívidas. Também é importante avaliar a possibilidade de contrair um empréstimo a taxas mais baixas (consignado por exemplo) para quitar tudo de uma vez e manter-se com “apenas” uma dívida ativa.
Difícil é manter a calma…
Seu maior patrimônio é seu nome, sua integridade e sua inteligência financeira. Ter patrimônio é saber usar o que você tem em mãos para viver dentro do possível. Extravagâncias serão sempre punidas por sua própria incapacidade de gerir seus desejos e emoções. Falta de atenção será sempre razão para maus negócios. Vender ou não vender a casa de veraneio? A resposta você já tem, só precisa reunir forças para colocá-la em prática. Com calma.
Crédito da foto para Marcio Eugenio.
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9 comentários
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Meu filho.
A leitura da pergunta do Carlos dá a exata dimensão das mudanças que estão ocorrendo no Brasil e sua resposta foi coerente e lógica.
Minha educação foi no sentido de se priorizar a casa própria para se garantir um futuro tranquilo e a compra de um segundo imóvel, principalmente uma casa ou apartamento de veraneio, era a ambição maior da classe média pois sinalizava elevação de padrão social.
Hoje temos que admitir que as coisas mudaram e o sucesso é ser feliz com as pequenas coisas que se tem e dormir tranquilo com as contas pagas em dia.
Se pararmos para analizar o custo-benefício de uma casa de veraneio vamos perceber que se trata de uma grande armadilha em todos os sentidos, a menos que dê um grande retorno de aluguel durante a temporada de férias escolares.
Mesmo assim, feitas as contas, acaba sendo melhor sermos nós os locatários porque, além de tudo, podemos mudar frequentemente de endereço, sem ficarmos presos somente a um lugar.
Boa sorte, Carlos, e que Deus o ilumine para que você encontre a melhor solução.
Abraços a todos.
Excelente site!
Sempre gostei de finanças e apesar de não entender muito do assunto procuro sempre novas informações. Finalmente encontrei o que procurava, desejo sucesso a todos os colaboradores deste site. Já está nos meus favoritos.
Parabéns pelo artigo Navarro e,estou neste mesmo dilema ,não uma casa de veraneio,mas uma casa que tenho alugada…E acredito que com sua exposição estou tomando a decisão certa.
Concordo plenamente com a Carmen.
É bem melhor você poder dormir tranqüilo - com suas dívidas pagas - e perder um imóvel do que conviver na luta contra essa bola de neve financeira. E depois, você consegue adquirir um novo imóvel de veraneio novamente ( Isso se manter na linha verde )
Abraços a todos.
Carlos e Navarro,
No meu primeiro texto aqu no Dinheirama falei do loivro O Valor do Amanhã, do Eduardo Gianetti. Acredito que cabe colocar os princípios do livro na questão da casa de veraneio. Claro que foi uma conquista comprá-la, Carlos. Mas depois de le ro livro, passei a pensar mais no impacto futuro das decisões e não mais somente na premiação imediata. Nada como uma balança na vida da gente!
Navaro, estou em falta com você. Em breve, mando mais um texto, ok?
Novamente a questão do patrimônio (ou status) versus a saúde financeira. Esta questão parece nunca morrer.
Abrir mão de um patrimônio ou estilo de vida para resolver os problemas de dívidas não significa abdicar daquilo para sempre. Com planejamento e dedicação, se pode atingir o mesmo patamar em pouco tempo, com muito menos surpresas desagradáveis.
Muito bacana o post. Pensando friamente e diante da balança, entendo que a saída melhor seria se livrar da casa de veraneio - gera gastos e a venda saldaria dívidas que crescem a 10% ao mês. Contudo, considerando todo o esforço envolvido na conquista do imóvel, eu tentaria buscar alternativas de empréstimos mais baratos, como mencionado pelo autor.
Navarro, muito obrigado por transformar a dúvida em um artigo tão interessante e proveitoso. Confesso que precisava desse seu “empurrão” para sair dessa. Continue com esse serviço tão nobre. Torço para seu sucesso.
Aos demais colegas, amigos e leitores, meu muito obrigado pelos comentários e apoio. Levarei em consideração cada palavra e certamente saberei tomar a melhor decisão. Fico feliz de poder contar com um espaço como esse para sanar dúvidas sobre finanças. Aliás, o Navarro já respondeu dois e-mails meus além desse que ilustra o artigo. Valeu pessoal. Até mais, aparecerei sempre por aqui e deixarei mais comentários.
OBS: Leio o blog faz tempo, mas não havia ainda comentado. Abraço turma.
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