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Oferta, demanda, sardinhas e tubarões

Publicado por Conrado Navarro em 03.12.2007 na seção Finanças Pessoais

Poupança é importante!Anderson comenta: "Navarro, quero falar de um assunto que me preocupa muito. Como sabe, vivemos debaixo de massivas campanhas de marketing e propaganda, claramente focadas em nos fazer consumir e comprar cada vez mais produtos. Tenho muito medo de que todo o esforço feito em prol da educação financeira continue perdendo para o ímpeto das empresas em nos fazer ter cada vez mais coisas. O que você acha desse ponto? Sinto-me a verdadeira "sardinha". Seria legal levantar questões neste sentido e jogá-las em um artigo, abrindo espaço para os comentários do leitores. Obrigado".

Anderson, sua participação veio em excelente momento. O questionamento é parte fundamental do exercício de educar financeiramente nossos pares e deve ser encarado de forma séria e responsável. A corrida pelo correto gerenciamento de nossas finanças[bb] passa por certas "provas", muitas vezes difíceis, sacrificantes e desestimulantes. De maneira geral, é na lacuna emocional criada quando questionamos os nossos desejos que as empresas atuam de forma mais incisiva. Um comercial é uma ferramenta puramente emocional. Dinheiro, como já falei em muitos outros artigos, não é.

Não queremos apenas a "margarina"!
Eliana Bussinger, mestre em Economia pela FGV-SP e colunista dos sites Infomoney, Mulher Invest e Vya Estelar, explica:

"A sociedade brasileira, que está mostrando uma face de maior sofisticação na última década, impele as pessoas a copiar o estilo de vida que vêem retratado nos programas de televisão. No comercial da margarina, não queremos apenas a margarina. Queremos tomar o café da manhã com uma mesa tão bem posta quanto a do comercial: o mesmo jogo de pratos, os talheres, os armários maravilhosos de cozinha, as flores sobre a mesa, o lindo cão de caça golden retriever"

É visível o quão além da "margarina" as pessoas andam tentando chegar. Isso é o que torna a indústria da propaganda ainda mais resiliente e lucrativa. E há de ser assim, afinal eles são profissionais e também merecem sucesso. Do lado de cá, do lado das pessoas que se importam com seu dinheiro, estamos nós, voluntários e profissionais, lutando por qualidade de julgamento e informação. Equilibrar oferta e demanda sempre foi um desafio para os profissionais envolvidos com mercado e economia. Acredite, na sua casa, na sua vida pessoal, não é diferente.

Neste cenário de estabilidade econômica, inflação controlada e consequente aumento do poder de compra, a enorme oferta de produtos e seus belos comerciais são amplamente absorvidos pela população brasileira. Simplificando, a publicidade nunca funcionou tão bem. Aqui, não cabe um estudo estatístico específico da área, mas o enorme universo de pessoas que se enforcam para viver além da "margarina".

Crédito obtido de maneira fácil, muitas compras parceladas e dívidas roladas são a realidade de muitos brasileiros e seria hipocrisia de nossa parte tratar o tema com falso moralismo. A verdade, mais cruel, é que a grande maioria de nós não vai conseguir sair das dívidas ou investir no futuro[bb] se quiser seguir o estilo de vida que nos mostram na televisão ou nas revistas. Ponto.

Atitude e informação.
A transformação das indústrias de tecnologia, comunicação e publicidade também foi acompanhada pela evolução das alternativas financeiras de investimento e poupança. Em outras palavras, os bancos e serviços financeiros sofreram grandes mudanças nas últimas décadas, apresentando alto grau de sofisticação em alguns segmentos. Isso significa notar mais produtos disponíveis para o consumidor, melhores chances de obter maior rentabilidade e possibilidade de planejar melhor o futuro. Mas será que queremos mesmo isso? Eu quero!

Vejo pessoas estudando por diversos dias a compra de um novo televisor, pesquisando aspectos técnicos, preços, prazos de entrega e suporte pós-venda. Tal atitude os classifica como cidadãos inteligentes, responsáveis e diferenciados. Não raro, essas pessoas não gastam nem metade do tempo dedicado ao produto para investigar sua capacidade de pagamento, seu fluxo de caixa e sua real necessidade diante da oferta.

Onde fica a coerência? A questão não é tão simples quanto parece, é verdade. Informações sobre a TV podem ser encontradas com uma facilidade incrível, tanto na internet quanto fora dela. Informações e análises corretas de seu orçamento familiar, dos produtos bancários disponíveis em seu banco e do seu futuro financeiro ainda estão em falta nas "prateleiras" brasileiras. Bem vindo ao mundo real, onde a coerência é fruto do relacionamento entre "tubarões" e "sardinhas".

Sardinhas e tubarões? Hein?
Para alguns, os termos representam o funcionamento de parte do mercado financeiro. Os inocentes, carinhosamente apelidados de "sardinhas", acabam sendo engolidos pelos "tubarões", os verdadeiros investidores e especuladores. A comparação é válida, engraçada e verídica, mas extrapola o mercado especulativo e de ações. Onde há alguém querendo vender bem seu produto, deve há alguém querendo comprá-lo, ou a cadeia produtiva não se encerra. Cabe ressaltar que muitas vezes esse relacionamento é "forçado". Ouso agregar minha opinião à metáfora:

  • Não há mal algum em ser "sardinha". Uma "sardinha" cuidadosa, disciplinada e observadora sabe a hora certa de sair nadando mar afora. Sabe, também, onde se escondem os "tubarões", seus hábitos e rotas preferidas.
  • "Sardinhas" são um prato cheio, especialmente se andam em grupos muito grandes. Imagine um cardume gigante, com milhões de "sardinhas", que sofre um ataque de um "tubarão" furioso. Quantas "sardinhas" um "tubarão" consegue abocanhar de uma vez? Ah sim, aquela pobre "sardinha" afundada no meio do cardume nem vê o ataque e sequer tem chance de reagir. Vapt!
  • Você não precisa ser um "tubarão". É uma questão física, de volume e espaço. Não importa quem inventou a "água", cabem muito menos "tubarões" em sua imensidão que "sardinhas". Lembre-se da sardinha observadora.

Não se trata de uma guerra
A publicidade, o comercial e a propaganda precisam existir. Eles são o ponto de contato entre uma empresa e seus clientes, são uma ferramenta de adaptação à opinião dos consumidores. Como um profissional não relacionado à publicidade, limito-me a dizer que tudo isso é relevante porque nos coloca diante de novas oportunidades.

É claro que as grandes empresas, tidas por alguns como "tubarões", criam oportunidades pelo bem do negócio. No entanto, a mordida final só acontece com anuência da "sardinha". Que guerra dá ao inimigo a opção de sobreviver? Vivemos no capitalismo (parem de negar isso) e diante de uma economia de mercado (oferta versus demanda). Ainda assim, o dinheiro só sai do seu bolso se você quiser.

Não adianta limitar nossa exposição ao que é bacana, barato ou legal. Censurar, limitar e reclamar são atos que lembram a culpa dos outros. Não é por ai. Não adianta limitar a demanda, reprimindo a inovação e a criatividade das empresas. A solução, a meu ver, é mais objetiva e menos dramática: cabe a nós definir o limite do que é bacana, barato ou legal.

Se mesmo depois de bem avaliados os aspectos financeiros da negociação, você decidir consumir, a "mordida" será pequena e o "machucado" certamente cicatrizará. Do contrário, haja Band-Aid® né?

Crédito da foto para Marcio Eugenio. Band-Aid® é uma marca registrada da Johnson & Johnson.

Imagem de Conrado Navarro

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro

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11 comentários

  1. Imagem do comentarista
    Carmen.

    Meu filho,

    Achei seu artigo simples, direto e perfeito!

    É claro que o apelo da mídia nos atinge em cheio, mas essa reflexão que você nos propõe é fundamental e deve ser levada em consideração antes de qualquer decisão de compra. É difícil, muito difícil, mas é mais fácil do que ficar apertado entre os dentes do tubarão mais tarde.

    Parabéns pelo blog. O Dinheirama.com está cada vez melhor.

  2. Imagem do comentarista

    Ótimo artigo Navarro, veja só que momento passamos, o final de ano, época em que a maioria das pessoas recebe as bonificaçãos, 13º salário, etc.

    A midia basicamente nos impõe a ditadura do consumo. Mas, o consumo por si só não é o mal. O mal é a falta de planejamento, as dívidas, as parcelas, os cheques pré-datados.

    O consumo que a propaganda da TV da margarina nos remete aquece a economia, que cria novos postos de emprego, faz o país crescer. É uma roda que movimenta e dá esperança para muitos. O ideal é dosar, repartir deixar um bom espaço desse dinheiro, para bens que realmente sejam necessários mas não deixe de pensar no futuro, investir, comprar ativos que no médio ou longo prazo revertam certas privações em momentos de prazer e segurança financeira.

    Não é fácil, e nem poderia ser diferente, em falando de investimentos, não temos a força da propaganda ao nosso lado, pelo menos não na TV ou no rádio. A propaganda é feita boca a boca, ou através dos artigos como no Dinheirama, e em outros espaços que mante a cultura financeira na veia. Tomo a liberdade em repetir um parágrafo do artigo acima que considero importantíssimo:

    "Crédito obtido de maneira fácil, muitas compras parceladas e dívidas roladas são a realidade de muitos brasileiros e seria hipocrisia de nossa parte tratar o tema com falso moralismo. A verdade, mais cruel, é que a grande maioria de nós não vai conseguir sair das dívidas ou investir no futuro se quiser seguir o estilo de vida que nos mostram na televisão ou nas revistas. Ponto."

    Gastar é ótimo, mas com parcimônia.

    Abraços

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    Olá Pessoal,,,

    Nós temos que tomar decisões contantemente onde decidimos gastar ou guardar para comprar algo maior no futuro. Se não se tem objetivos para o futuro não haverá necessidade de se poupar, ou melhor, de não se deixar ser seduzido pelas propagandas.
    Esse é o nosso mundo, cheio de informações e seduções...
    Resta a nós saber o que queremos e/ou não queremos para tomarmos decisões conscientes.

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    Krop

    Muito bom artigo Navarro.
    Acho que as pessoas que se enforcam para viver além da “margarina” estão viajando na maionese.. eheheh ;D

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    Fantástico o artigo, Navarro. Lendo o texto, me vi na semana passada correndo de um tubarão. Vou explicar:

    Estou para trazer um MacBook dos EUA. Passando na frente de um quiosque da TIM, vi um iPhone (celular da mesma empresa, a Apple). Como um bom fã da Apple, parei instantaneamente e fui mexer no bichinho. Apaixonante. Fiquei doido para compra-lo. É muito fácil fazer o pedido junto com o meu macbook, não? Mas minha noiva do lado: "Para que? Você já tem um celular muito bom, precisa de outro?". A ficha caiu parecendo uma bomba na minha cabeça. Era verdade... Consegui escapar desse tubarão, mas fico imaginando quantas pessoas não conseguiram.

    Outra coisa muito legal do artigo é o "viver além da margarina". Eu nunca tinha pensado dessa forma e agora eu entendo de onde vem meu insaciável desejo por produtos mais bonitos e de mais qualidade. De onde vem o desejo por querer uma casa e uma mesa tão bonita quanto as do comercial. O artigo certamente me abriu os olhos para esse aspecto.

    Mais uma vez, parabéns pelo ótimo artigo!

    Abraço!

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    Michel Cabelho

    Artigo simplesmente muito bom.
    Navarro, você conseguiu mostrar que, se bem trabalhada a idéia de comprar produtos –expostos à nós em banners, pop-ups, etc, etc, etc, podemos ir além da "margarina".

    Você levantou uma questão muito boa, sempre "olhamos" o preço, a forma de pagamento, facilidades, créditos, descontos, e muitos outros oferecidos a nós, sem antes consultar o "nosso bolso de cada dia", o que nos dá uma estabilidade -ou não para outras pessoas, em questões básicas.

    O que não adinta, é eu ter um café da manhã digno de comercial de margarina e não poder sair à rua sem ser perseguido pelas pessoas que me venderam tal café da manhã, popularizando, sair e os outros apontarem para eu e falarem "-olha lá o caloteiro."

    Abraços pessoal do Dinheirama

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    Mãe, obrigado pelas palavras sempre motivadoras, carinhosas e de muito valor. Te amo. Beijos.

    Ricardo, valeu pela força parceiro! Nosso trabalho com o Dinheirama é essencial. Obrigado por participar tanto e de forma tão construtiva.

    Raphael, que honra vê-lo escrevendo por aqui. Obrigado pelas excelentes dicas e pelo comentário.

    Krop, sua frase simplesmente matou! Adorei!

    Bernardo, que bom que o artigo trouxe um pouco mais de reflexões para o seu dia-a-dia. Fico feliz em poder ajudar. O artigo tem um apelo pessoal diferenciado, que deve ser levado a sério, porque é nele que consiste nossa capacidade de aprender mais e melhor. Valeu.

    Michel, esse é o caminho mesmo. Você captou exatamente o que eu tentei escrever. Perfeito.

    Abraços a todos!

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    Anderson

    Navarro, fantástica sua abordagem. Quando enviei a pergunta não pensei que fosse vê-la publicada e seguida de um texto tão bacana! Também gostei da analogia da margarina e da visão sobre a publicidade. No fundo, somos nós os responsáveis por muitas coisas e precisamos nos dar conta disso. Obrigado pela resposta, pelo Dinheirama, está sendo extremamente importante em minha formação como pessoa e profissional. Grande abraço.

  9. Imagem do comentarista

    A questão é: Maturidade!

    Gostei da abordagem principalmente no que tange as empresas de publicidade. O Sucesso dessas empresas é medido pelo capacidade de alavancar vendas em uma peça publicitária. Mas eu, como profissional de Marketing sei exatamente como funciona ãmbos os lados, ou seja, tenho minhas contas pra pagar e tenho campanhas para vender tudo e mais um pouquinho que o meu cliente produz. E não adinata as pessoas virem bancar uma de "coitadinho" de mim...sou um sardinha. Conversa fiada, obrigação individual conhecer o básico de finanças, e o básico de finanças é: Receita = Despesas + Investimento. Ou seja, liberdade financeira é uma questão unicamente de uma regra de igualdade matemática. Não tem absolutamente nada haver com o poder da mídia sobre quem quer que seja...como disse o Navarro: "Que guerra dá ao inimigo a opção de sobreviver? Vivemos no capitalismo (parem de negar isso) e diante de uma economia de mercado (oferta versus demanda). Ainda assim, o dinheiro só sai do seu bolso se você quiser". Para mim o artigo poderia ser resumido somente nessa frase. Por tanto, no mundo capitalista, vence quem é inteiramente consciente da sua RESPONSABILIDADE/MATURIDADE. E viva o capitalismo...só nesse sistema você recebe de acordo com sua capacidade intelectual/produtiva.

    Paz nesse Natal...Riqueza em 2008...e nos seguintes!

  10. Imagem do comentarista

    [...] Não há mal algum em ser “sardinha”: “Uma “sardinha” cuidadosa, disciplinada e observadora sabe a hora certa de sair nadando mar afora. Sabe, também, onde se escondem os “tubarões”, seus hábitos e rotas preferidas.” [...]

  11. Imagem do comentarista

    [...] a famosa relação entre “sardinhas” e “tubarões”, já abordada pelo Navarro no artigo “Oferta, demanda, sardinhas e tubarões”. Investidores inocentes, atraídos pelas notícias, podem se dar [...]

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