O investidor inteligente ainda pensa na inflação
Publicado por Conrado Navarro em 03.01.2008 na seção Finanças Pessoais, Risco e Retorno
Eric diz: “Navarro, lendo alguns de seus artigos mais antigos percebi que é importante levar em consideração a inflação ou não estaremos observando a rentabilidade real de nossos investimentos. É isso mesmo? Gostaria que explicasse um pouco melhor essa relação e falasse sobre a visão crítica que devemos desenvolver para não achar que ‘vamos bem’ com o investimento e sermos surpreendidos com um parco poder de compra no futuro. Grato.”
Eric, você usou algumas palavrinhas mágicas muito importantes. A principal conjunção delas, poder de compra, deve ser uma das grandes preocupações quando o assunto é poupar e investir nosso suado dinheiro. Interessante notar que a inflação era uma variável bastante comentada antes do Plano Real, fruto das combalidas e malucas políticas econômicas de outros tempos. Imagine você, caro jovem investidor (como eu), que a inflação foi de 2.477,15%, ou 3,20% ao dia, em 1993. Já em 1995, apenas dois anos depois e já com a circulação do Real, vimos a inflação cair para 22,41% ao ano. Assombroso, não?
A hiperinflação acabou, a inflação não!
É comum encontrar investidores de mais de 35 anos que consideram importante as leituras sobre inflação quando estão por decidir sobre o destino de seu dinheiro. No entanto, é visível a reação de pouco caso da nova geração, que ainda não percebeu “na pele” o poder do dragão. O importante não é apenas preocupar-se com ela ou achar que o dragão está hibernando, mas sim ter esta certeza. Para isso é preciso considerar a inflação um risco. Paulo Barcellos, economista-chefe do Banco Cooperativo Sicredi, concedeu ao periódico Estadão Investimentos uma recente entrevista sobre isso:
“Há quem pense que se trata de um problema do passado, totalmente controlado, mas não é bem assim”
Em suma, é ótimo que a economia e os preços estejam mais estáveis e previsíveis. Apesar da recente crise hipotecária norte-americana, recebemos as excelentes notícias sobre a expansão da economia brasileira em 2007, da queda consistente dos juros básicos (taxa Selic) e da grande oferta de crédito à população. No entanto, os preços de muitos insumos, produtos, commodities e bens de consumo subiram em 2007. Como exemplo, o Índice de Preços do Atacado - IPA-DI, medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), subiu 14,48% em 2007. Alta expressiva, já que em 2006 o índice cresceu apenas 1,31%.
Corroendo o poder de compra
Com a alta dos preços, fica fácil notar o enfraquecimento do poder de nosso dinheiro. Essa relação não é tão clara para os mais novos, acostumados apenas com a rapidez da Internet, mas ainda tentando aprender a correta velocidade do dinheiro. Estraçalhando de vez com o “economês”, imagine que você tem R$ 10,00 e que um pacote de macarrão custe, hoje, R$ 9,50. Você decide guardar estes R$ 10,00 debaixo do colchão e com eles enterra a idéia de que o valor é suficiente para comprar uma boa massa daqui há algum tempo.
Se levarmos em conta uma inflação média de 4% para os próximos cinco anos, veremos o macarrão subir R$ 0,38 todo ano. Passados 5 anos, o pacote custará R$ 11,40. Quanto estará valendo sua nota de R$ 10,00 guardada debaixo do colchão? Claro que os mesmos R$ 10,00! Duh!!! Você comprava o mesmo pacote de macarrão com os R$ 10,00, agora não compra mais. Bem-vindo ao mundo real, onde a inflação, ainda que controlada e pequena, ataca sem dó.
O mesmo vale para os investimentos de longo prazo
A história foi bem básica, é verdade, mas agora pense no seguinte: você, ainda sem se preocupar com a inflação, decide colocar seu dinheiro na caderneta poupança pelos próximos 10 anos. A partir daí, verá seu dinheiro rendendo algo próximo de 7% ao ano e, considerando sua aversão ao risco, vai se dar por contente. No entanto, passados todos estes anos você percebe que o dinheiro que possui em mãos compra pouca coisa e culpa as lojas, governo e empresas “pelos juros altos e pela inflação”. Inflação? Você disse inflação? E como foi que se esqueceu de considerá-la 10 anos atrás?
Seu amigo, mais precavido, resolveu investigar e ler sobre a inflação e outras alternativas de investimento. Ele percebeu que havia uma certa tendência e que a inflação se estabeleceria entre 4% e 5% ao ano durante os 10 anos seguintes. Assim, ele optou por usar a média, 4,5%, para seus cálculos iniciais. Lápis em punho, ele viu que a poupança lhe daria uma rentabilidade real (rentabilidade menos inflação) de apenas 2,5%. “É pouco”, concluiu. Assim, resolveu arriscar-se em fundos de ações, títulos públicos indexados aos índices de inflação (garantem rentabilidade real) e fundos multimercado.
Quem terá mais dinheiro depois destes hipotéticos 10 anos? Que tal preocupar-se com outra pergunta: qual dos dois investidores está mais preocupado com o investimento de seu dinheiro e o raciocínio financeiro necessário para fazê-lo multiplicar-se? As variáveis envolvidas são várias e meu objetivo aqui não é menosprezar o risco, as escolhas pessoais de cada um ou as alternativas conservadoras. No entanto, é indiscutível que o seu amigo foi mais inteligente nos argumentos e escolhas realizadas, dado o prazo e as opções levadas em consideração.
Chega! Não quero provar nada!
Acredite, tudo que este artigo pretende fazer é apenas alertá-lo para a inflação, que promete ser maior em 2008 do que foi em 2007. Com isso, a rentabilidade real de suas aplicações cairá e cabe a você preocupar-se em reavaliar suas posições e percentuais. Será que não é hora de mover parte do dinheiro da caderneta de poupança para um CDB DI ou título público? Será que não é hora de começar a investir em ações e ativos de maior risco pensando no longo prazo? Estas são algumas perguntas que posso ajudá-lo a responder, mas antes você precisa aprender a fazê-las sozinho. Aceita o desafio?
PS: O título deste artigo originalmente é “O investidor inteligente sempre pensa na inflação”, mas resolvi alterá-lo para que haja uma conexão com a realidade da hiperinflação ocorrida no país nas décadas passadas. Então lembre-se, o investidor pra valer sempre se dá ao trabalho de consultar o dragão (ops).
Crédito da foto para Márcio Eugenio.
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8 comentários
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Esta aí uma variável interessante na economia real.
A inflação de 2.007 fez barulho e foi fortemente sentida no bolso de todos. Exemplos que marcaram muito e pesarão na divulgação final dos índices foram os alimentos que tiveram uma alta na casa dos 10% de inflação. Destaque para os laticinios em geral, carne bovina, feijão.
Muito dessa alta de alimentos foi a forte demanda externa por alimentos, aí aquela velha máxima funciona, procura alta os preços sobem pela escassez do mesmo.
Enfim, atualmente o Banco Central trabalha com o regime de metas de inflação. As metas são antecipadas e apartir daí se busca essa meta. A principal arma utilizada para esse controle é a taxa de juros básica da economia, a bendita (Selic).
Permanecer 2.008 de olhos bem abertos e buscar alternativas nos investimentos são fundamentais.
abraços
Artigo interessante no link abaixo, sobre a inflação de 2.007
http://economia.uol.com.br/ultnot/reuters/2008/01/04/ult29u59295.jhtm
Muito bem lembrado. Até porque, não se pode esquecer que a inflação existe mesmo em economias mais estáveis e consolidadas.
Outro fator importante, em especial para as pessoas acima dos 35 anos, é lembrar que as taxas reais das aplicações e empréstimnos estão iguais ou superiores ao que eram nos tempos de hiperinflação. O fato de as taxas nominais serem inferiores ao que eram ainda gera confusão para muita gente.
investir em um bom fundo d ações é uma opção interessante, mas pensando a longo prazo. a rentabilidade anda bem atrativa, muito mais do q poupança, cdb e afins.
A inflação deve sempre ser considerada. O ganho que se tem ‘à primeira vista’ é somente o ganho nominal. É preciso descontar a inflação, mais os custos de serviços e tarifas (quando houver). Feito isso, sobrará o ganho real, que é o que, de fato, nos interessa.
Excelente artigo como sempre, aqui na Europa principalmente temos a inflaçao restrita, ou em artigos especificos altissima, e isso também acho que daria um bom caldo pro seu blog nao?
Oi!
Cheguei meio tarde para comentar neste post, mas tenho esta dúvida agora:
Continuando a investir na Caderneta de Poupança, então não é boa idéia usar o depósito automático, pois o valor depositado é fixo?
Seria melhor eu mesmo depositar o valor já corrigido, não é?
Estava pensando em entrar numa Poupança Planejada justo por causa dessa comodidade, mas ao ler este post agora não parece boa idéia.
Não é?
[...] líquida de 1%. Perceba que referencio a rentabilidade como líquida porque devemos, sempre, descontar a inflação do valor mensal apresentado pelos bancos e instituições [...]