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Subprime, a recessão dos EUA e o seu bolso (II)

Publicado por Ricardo Pereira em 17.01.2008 na seção Economia Geral

Dinheirama e o Meio Ambiente!Diogo comenta: “Ricardo, a recessão bate na porta dos Estados Unidos faz muito tempo. O que antes era negado, hoje ja é quase uma unanimidade. É só uma questão de (pouco) tempo. Os investidores começam a diversificar (ex: ouro em alta) e as bolsas começam a sentir o efeito. Na sua opinião vale a pena entrar no mercado de ações agora ou é melhor esperar a bomba estourar e tentar entrar na baixa? E para os que já estão lá? É hora de vender e diversificar em investimentos mais seguros? Muito Obrigado.”

Diogo, obrigado pela visita. Na primeira parte do artigo abordamos os aspectos mais técnicos da crise, as opiniões do mercado e o efeito devastador vivido pelos grandes bancos norte-americanos (usamos o exemplo do Citi). Hoje é dia de falarmos sobre os aspectos diretos e indiretos que influenciam a economia mundial e, consequentemente, o bolso e a vida de milhões de pessoas. A idéia é abordar aspectos práticos da crise, discorrendo sobre as mudanças em indicadores, mercados e vida pessoal[bb]. Vamos lá?

Inflação
A inflação, variável que pode brecar a queda nas taxas de juros dos EUA, é um ingrediente a mais a ser considerado no cenário de crise. Sabemos que sem queda nas taxas básicas de juros ficará praticamente impossível um aquecimento mais elevado na economia. O Departamento do Trabalho dos EUA divulgou que o Indice de Preços do Atacado, o PPI, teve a maior variação desde 1981, com alta de 6,3% em 2007.

Efeitos no país e no seu bolso
O temor da crise, mais cedo ou mais tarde, chegará ao Brasil. Claro, não poderia ser diferente. No entanto, vemos opiniões de analistas e profissionais do mercado que desenham uma expectativa de pouco estardalhaço. Há consenso sobre nossa maior resiliência, muito embora o capital estrangeiro faça enorme diferença no âmbito do desenvolvimento industrial e de produtividade.

Os primeiros sinais já são sentidos no Ibovespa, indicador que reflete os preços das ações mais negociadas, que registra forte queda durante a semana. O pregão de ontem foi marcado por uma fuga de US$ 1,9 bilhões, quase metade de todo o dinheiro que saiu em 2007. Não se sabe ao certo a extensão da correção, mas o ministro da Fazenda Guido Mantega diz estar prestando muita atenção.

O dólar apresenta uma considerável valorização, perto de 1%, devido à fuga de capital pela crise. O impacto do aumento do dólar pode ser decisivo nas próximas reuniões do COPOM (Comitê de Política Monetária). Na economia moderna, o dólar alto exerce pressão inflacionária, aumentando as chances de picos de inflação. Se a expectativa do mercado era pela manutenção da taxa Selic, agora há fortes indícios de que ela realmente não mudará durante 2008.

Entretanto, quando pensamos no longo prazo a expectativa para o Brasil permanece positiva. Tivemos acesso às projeções do banco UBS para o cenário econômico tupiniquim em 2008. Dentro do universo projetado pela instituição, 2008 ainda será um ano com ganhos na bolsa brasileira[bb]. O banco projeta um Ibovespa na casa dos 85 mil pontos para o final de 2008, um expressivo upside de mais de 30% com relação ao final de 2007.

Será que temos tanto potencial, mesmo com a crise norte-americana? Tomara que sim. As projeções do banco baseiam-se no valuation (avaliação de potencial) atrativo das empresas locais, uma relativa estabilidade cambial, política monetária séria e inteligente, sólido crescimento econômico guiando o avanço corporativo e a probabilidade de consolidação de alguns setores, sobretudo o de telecomunicações.

Medo da crise?
Uma preocupação que deve ser bem debatida é a (grande) chance de um desaquecimento na economia mundial, iniciada pela recessão norte-americana. A diminuição do ritmo da economia global pode ocorrer porque os EUA têm enorme poder de consumo e garantem negócios com todos os países. Uma queda na demanda leva, invariavelmente, a uma queda na oferta e(ou) queda nos preços e elevação dos juros, afetando a produtividade e saúde econômica de outros países.

Muito do crescimento brasileiro veio da alavancagem dos negócios de grandes grupos brasileiros, influenciando bastante no resultado positivo da balança comercial. Imaginemos que a recessão norte-americana influencie novos negócios, diminuindo o fluxo de investimentos estrangeiros e a demanda por produtos, e a atuação dessas empresas fique comprometida. Temos, assim, um sinal de que a crise pode nos afetar de maneira mais drástica.

Crises também são oportunidades
A experiência nos mostra que, de tempos em tempos, uma crise faz parte do mundo financeiro. Nenhuma crise é definitiva. Veja além do noticiário e foque seu potencial nas possibilidades e oportunidades que surgem em decorrência da crise. Ações de boas empresas estão baratas e os fundamentos do país são os melhores já alcançados em muito tempo. Citando um excelente blog sobre o mercado financeiro, Seagull Trading, tudo é uma questão de timing.

Um recente estudo publicado pelo jornal Valor Econômico se propôs a investigar, publicar e criar uma média ponderada das previsões para a Bolsa brasileira em 2008. De acordo com o estudo, a média encontrada foi próxima de 81 mil pontos. Claro, são previsões, mas isso demonstra que há otimismo no mercado e que o Brasil já melhores condições de enfrentar crises internacionais.

Outras possibilidades interessantes de ganho também surgem nos fundos multimercado, que têm em sua carteria diversos tipos de ativos. Tais fundos, usando gestão pró-ativa, podem aproveitar-se de uma eventual alta dos juros (renda fixa e títulos públicos) e, ainda assim, garimpar boas oportunidades na renda variável. Fique alerta. Não desanime ou se desespere se você perdeu rentabilidade ou dinheiro durante estes primeiros dias do ano. Perder faz parte do jogo. O importante é saber porque seu dinheiro minguou, ficar atento às reações do mercado, aos fundamentos do país e à literatura financeira.

——
Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.

8 comentários
  1. Imagem do comentarista
    Beatriz

    Olá, Ricardo
    Seus textos sobre a crise foram bastante esclarecedores. No entanto não consegui acompanhar o raciocínio sobre a alta dos juros quando vc diz: “Uma queda na demanda leva, invariavelmente, a uma queda na oferta e(ou) queda nos preços e elevação dos juros, afetando a produtividade e saúde econômica de outros países.” Até a queda dos preço eu entendi, mas o que isso tem a ver com a elevação das taxas de juros? Como ainda sou “café-com-leite” no assunto, meu raciocínio era de que o desaquecimento da economia, fruto de uma queda no consumo, fizesse com que as pessoas parassem de consumir e passassem a segurar o dinheiro em aplicações financeiras. Pela lei da oferta e da procura, todo mundo correndo aos bancos pra aplicar seu dinheirinho fizesse com que os bancos baixassem as taxas no intuito de aumentar o interesse pelos empréstimos. Será que ficou confuso? Onde foi que meu raciocínio descarrilou?
    Valeu!

  2. Imagem do comentarista

    Olá Beatriz, fico muito feliz por ter encontrado aqui no Dinheirama textos interessantes relacionados a crise.

    Quando falamos em desaquecimento da economia norte americana, imediatamente como é feito aqui, se procura encontrar mecanismos para reverter o quadro. A primeira ação, é proposição do corte de juros, com vozes fortes oriundas principalmente do setor produtivo industrial.

    A realidade da economia norte americana é triste, porque combina até o momento dois fatores distintos. Recessão e inflação alta. Dessa maneira fica comprometido, a queda da taxa básica de juros por lá, e amarra um pouco o poder de deisão do Banco Central de lá o FED.

    A manutenção das taxas no patamar atual seria um aperto de mão gentil a recessão, e daria sinal de que o autoridade monetária dos EUA, considera a recessão com menor impacto no longo prazo, em relação a Inflação.

    Com esse cenário, a economia dos outros países terima seus processos de crescimento ameaçados. Aqui mesmo, nesses poucos dias tivemos fuga em massa de capital, especulativo é bem verdade, mas as verdinhas se foram. Se perdurar esse movimento, a taxa básica de juros, que tememos permanecer em 11,25% corre o risco até de aumentar para brecar a saída desse capital. Ou seja, taxas de juros mais elevadas nos papéis brasileiros para atrair de volta investidores. É o prêmio pelo risco.

    Com um aumento dos juros, a sensação e o ambiente economico podem ser de revés, juros altos signigficam produtos caros, e alta na inflação.

    Simplificando:
    EUA (Recessão + Inflação) = Juros altos em geral
    Juros altos nos EUA = (Paises em Desenvolvimento) Necessidade de aumento dos juros por aqui e consequente risco de desaquecimento da atividade econômica.

    Beatriz, espero que tenha dado uma luzinha. Seu raciocionio foi muito bom e seu feedback maravilhoso.

    Volte sempre!

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    Beatriz, obrigado por mais este comentário e pelas frequentes visitas. Deixe-me tentar ajudá-la. Repare que ele mencionou os juros em geral, isso significa taxas básicas de juros e juros para captação de dinheiro em fontes nacionais e internacionais. Não pense apenas na Selic ou nos empréstimos pessoa física.

    Seu raciocínio está perfeito sob o ponto de vista da economia do dia-a-dia. Como o Ricardo explicou em seu comentário, nosso país viveu uma expansão forte de demanda no ano passado, vimos a inflação subir e agora a saída de capital. Para se conseguir frear um pouquinho o perigo de inflação e ao mesmo tempo manter a atratividade internacional é preciso que o país pague bem aos investidores que optarem pelos seus papéis. Isso é a taxa de juros em geral.

    Deixando o dinheiro “mais caro” (taxas de juros elevadas), desmotivamos levemente o consumo e evitamos que as pessoas recorram ao crédito para comprarem mais. Isso contém a inflação. Na outra ponta, com títulos que pagam juros mais altos, mais investidores vêm à procura de nosso país. Repare na relação inversa vista no Brasil. Com a queda da Selic estimulamos fortemente a economia interna, valorizamos muito nossa moeda e o consumo explodiu. Com a parada nos EUA, teremos menos oferta de produtos e de dinheiro estrangeiro circulando por aqui.

    A relação é complexa, mas o básico esta explicado em nossos comentários. Excelente discussão.

  4. Imagem do comentarista
    Elizandro

    Olá Pessoal !
    Acredito ter encontrado um site onde vou visitar todos os dias, muito interessante as colocações e explicações. Sou iniciante em aplicações na bolsa e certamente aqui vou conseguir ter uma visão bem ampla dos próximos investimentos. Parabéns pelo trabalho.

  5. Imagem do comentarista

    Olá Elizandro, seja bem vindo.

    Tenha certeza, que ser uma referência diária para os assuntos relacionados a investimentos/economia é tudo o que buscamos. Aproveite a visita diária ao blog, e conheça nosso forum Sociedade Dinheirama. Encontrará por lá grandes debates, poderá colocar suas dúvidas, e ter a sua disposição opinião de pessoas com experiência em assuntos do seu interesse.

    Abraço

  6. Imagem do comentarista
    ALEXANDRE WELLINGTON DE ANGELIS

    EU ACHO QUE A TENDENCIA DE UM MUNDO CADA VEZ MAIS GLOBALIZADO , É QUE AS GRANDES ECONOMIAS COMO OS EUA DESÇAM , E AS PEQUENAS COMO OS FAMOSOS ” TERCEIROS MUNDISTAS ” COMO O BRASIL SUBAM . O OCORRIDO COM O EUA , FARA QUE OS GRANDES INVESTIDORES ACREDITEM E INVISTAM NO BRASIL , AUMENTANDO NOSSO CRESCIMENTO É MELHOR TER UM CRESCIMENTO DEVAGAR MAS SÓLIDO COMO O BRASIL , DO QUE UM CRESCIMENTO EXAGERADO COMO OS EUA , CHEIO DE EXPLORAÇAO E SEM ALICERCE……

  7. Imagem do comentarista
    Beatriz

    Ricardo e Navarro,
    Muito obrigada pela atenção de vcs. As causas da crise estão ficando mais claras na minha cabeça. Hoje tb li uma matéria no Valor pra entender um pouco mais.
    Qdo pintar uma dúvida sei que posso correr pro Dinheirama e gritar por socorro.
    Valeu demais!
    Beatriz

  8. Imagem do comentarista
    andreia

    então no momento que os EUA declararem recessão oficial de sua economia os valores das ações da bovespa irão ter uma queda, mas logo em seguida as ações irão se recuperar? então o momento não é propicio para iniciantes?

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