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Crédito fácil + financiamento = Carro caro

Publicado por Ricardo Pereira em 29.02.2008 na seção Educação Financeira

Educação Financeira e Finanças PessoaisPropositalmente, começo o artigo com a mesma frase que usarei para terminá-lo: ter um carro ficou mais caro a partir do momento em que ficou mais fácil adquiri-lo. Estranho? Mentira? Como assim? Sempre que escrevemos algum assunto abordando automóveis, acabamos conseguindo um grande debate. De quebra, comprovamos o quanto o brasileiro é apaixonado pelo assunto.

O ponto de vista citado foi defendido pelo consultor financeiro Gustavo Cerbasi[bb] na revista Você S/A de fevereiro de 2008. O cerne da tese passa pelo acesso maior ao crédito, facilitado hoje em até 99 parcelas. Pondere, pois, que credito acessível no Brasil não significa crédito barato. Dessa maneira, as divisões dos pagamentos e os prazos são, na verdade, verdadeiras arapucas.

Crédito fácil, pagamento difícil!
Cerbasi nos lembra que, até pouco tempo, não existiam financiamentos com prazos superiores a três anos. Quatro, quando muito, costumavam ser prazos considerados muito longos. Sem muita opção, o brasileiro optava pelos carros populares e financiamentos de 48 meses.

Carros populares, é sabido, apresentam algumas compensações interessantes, sobretudo no aspecto prático: consomem pouca combustível, são fáceis de estacionar, se novos dificilmente precisam parar no mecânico e suas peças são mais baratas e disponíveis. Parece que essa realidade já não serve aos brasileiros.

Necessidade X Prazer
Com as explosões dos financiamentos, os valores mensais pagos antigamente na compra de um carro popular passam a permitir, muitas vezes, a compra de um carro maior, mais luxuoso e, advinhe, mais caro. A diluição das parcelas em um prazo maior, com juros estratosféricos a tira colo, fornece ao consumidor um falso poder aquisitivo. Não raro, compradores optam por carros maiores e acabam tendo de repassá-lo em pouco tempo, perdendo muito dinheiro[bb].

É bem verdade que o conforto deixa o brasileiro mais feliz, como também ponderou Cerbasi em seu artigo. No entanto, esse luxo custa alto demais para algumas famílias. A questão do padrão de vida precisa ser encarada com mais seriedade e menos romantismo. Viver além de nossas possibilidades é perigoso e pode trazer mais frustrações que alegria.

Imagine um financiamento com prazo de seis anos (72 meses). Por melhor que seja o carro, lá pelos seus 4 anos de vida começam a ser necessárias aquelas idas e vindas mais constantes ao mecânico e novos lançamentos da indústria passam a mexer de novo com sua cabeça. Conheço pessoas incapazes de viver sem um carnê de automóvel, transformando a desculpa do transporte em um gigante ciclo vicioso. Pior, acham tudo isso normal.

Mas Ricardo, não ficou mais fácil levar um carro mais bacana para a garagem?
Parcelas menores e grande oferta de crédito são a grande atração do momento, concordo. Mas só porque é fácil, é bom? Aliás, dinheiro que escorrega fácil pelas nossas mãos dificilmente vai para alguma coisa boa para nosso futuro financeiro. Pense nisso. Peças mais caras, consumo elevado e seguro mais caro são variáveis que podem comprometer todo o esforço financeiro de uma família. Muitos não se dão conta disso, alegando que a prestação “cabe em seus bolsos”. Você é assim?

Qualidade - Manutenção = Problemas
Nossas estradas não são nada boas. Muito provavelmente, as ruas de sua cidade são ainda piores. Manter um carro não é brincadeira, pode custar uma fortuna. Antes de entrar em uma roleta russa como essa, lembre-se que automóvel não é um investimento, mas um bem de consumo, como um eletrodoméstico[bb]. Sim, a comparação foi propositalmente “tosca”.

Investidores mais avançados, guardem suas pedras. Estou falando da visão cotidiana, não das revendas de carros ou alavancagem, onde ter um automóvel pode fazer parte da estratégia de crescimento do patrimônio. Estou falando da realidade da grande maioria dos brasileiros. Para esses, é melhor poupar antes e pagar à vista. Ponto! Lembre-se que nem sempre podemos ter tudo aquilo que queremos.

Logo, ter um carro ficou mais caro a partir do momento em que ficou mais fácil adquiri-lo (olha a frase aqui de novo). Não comprometa seu futuro com passos sem direção. Tão prazeiroso quanto dirigir um carro zero é estar de bem com o bolso e com a vida. Respeite seus limites.

Tenha um ótimo final de semana e use seu tempo livre para ajudar alguém. Algum amigo está em dificuldades fiananceiras ou precisa de orientação? Que tal apresentá-lo ao Dinheirama? Até a próxima.

——
Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.

13 comentários
  1. Imagem do comentarista
    Luiz

    Essa foi uma das armadilhas que quase caí, necessitava de um meio de tranporte por necessidade, já que estava sendo mais rápido me locomover de bicicleta do que de onibus, analisei tudo certinho e acabei financiando uma moto em 36x, e graças a prestação ser bem baixa e a moto ser bem economica estou conseguindo pagar a moto e a gasolina, e ainda sobra um pouquinho que estou guardado pra caso ela apresente algum problema futuro!

  2. Imagem do comentarista

    É por essas e outras que eu digo: o melhor é morar perto do seu trabalho ou perto do metrô e ir a pé. Para distâncias mais longas, vá de bicicleta, que é cerca de 40 vezes mais barato que um carro, mais rápido (com congestionamento) e polui infinitamente menos.

  3. Imagem do comentarista
    Renata

    Ricardo, aqui em minha família fomos vítimas dessa necessidade social de exposição. Deixa eu explicar: um tio comprou um carro só porque o vendedor teria insinuado que ele não tinha condições de comprá-lo. Que tal? Sem comentários não é mesmo? O artigo é ótimo para abrir os olhos de quem quer apenas desfilar de carro novo, mas correr o risco de ver o banco levá-lo. É triste. Como você disse, é a realidade de muitos brasileiros. Acontece com nossa família, nosso vizinho, conosco.

    Parabéns ao Dinheirama por essa constante atitude de cidadania. Abs.

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    João Henrique Amorim

    Ricardo e Navarro, obrigado pela resposta e por levar em consideração minhas sugestões.

    Eu entendo o que falaram sobre ajudar a ‘grande maioria das pessoas’, concordo e até esperava essa postura de vocês. Inclusive reconheço que o estilo do dinheirama não é de um blog avançado para investidores experts, cheio de termos técnicos e análises profundas. Há muitos blogs nesse estilo pela rede, e é justamente por isso que gosto do dinheirama (porque eu não sou um expert hehe). Vocês falam de finanças do cotidiano (envolvendo carros, imóveis, aposentadoria, seguros…) e também nos ajudam a compreender as variáveis econômicas que afetam nossas vidas diariamente (como o belo artigo sobre juros recém-publicado). Apesar de alguma maturidade financeira (adquirida com muito esforço e estudo) eu comecei a me inteirar do assunto há muito pouco tempo e meu conhecimento é bem pequeno. Foram artigos desse tipo simples, práticos e úteis que me fizeram gostar muito do blog desde que o conheci, e minha preocupação era que essa linha estivesse sendo perdida.

    De qualquer forma, fico muito feliz de ver minhas sugestões levadas em consideração, o que se mostra pelos bons últimos posts publicados. Isso me estimula a continuar criticando e sugerindo sempre que eu acreditar que melhorias sejam possíveis :) Enfim, meus parabéns!

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    É por isso que eu não quero carro, prefiro andar a pé e guardar a grana para um iminente ingresso no mercado de capitais =D

    Falando nisso, vocês viram que o Warren Buffett lucrou bilhões comprando reais? Nada a ver com o assunto, mas só pra constar que a graninha que cada um de nós tem no bolso tá cada vez mais cobiçada… portanto, cuidemos bem dela!

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    Lucas

    Não se esqueça de sitar o consórcio, para aquelas pessoas (como eu) não conseguem guardar dinheiro, o valor pago no consóricio (taxa administrativa e outras que não me lembro) saem bem mais em conta do que um financiamento, claro que nos artigos anteriores aprendi que se meu dinheiro estiver na poupança (ou outro fundo de investimento qualquer) eu ganho mais do que pagando o consórcio, mas no meu caso, o consórcio foi uma maravilha, peguei a moto em menos de 1 ano (lance) e se tudo continuar correndo com os passos largos que estão consiguirei quitar ele ainda este ano.

    Mas ai esta minha dúvida, quando faço um financiamento, o adiantamento das parcelas permite que o não pague o juros sobre ela, já no consórcio eu tenho uma prestação fixa e as taxas serão as mesmas idepentede se estou adiantando ou não as parcelas, ainda correndo o risco, se caso a moto aumentar de preço, eu ainda receber algumas faturas (não tenho certeza quanto a isso, teria que reler o contrato).

    Enfim, já que vou pagar o mesmo valor, o melhor é eu pegar esse R$ extra que ta entrando e colocar numa poupança e continuar pagando as parcelas, ou quitar a moto e somar o valor das parcelas nos próximos depósitos na poupança??

    O mundo deveria andar de moto, econômica, quase não da manutenção, além de muito barata!!!

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    Só mais uma coisa que sempre digo quando o assunto é o “bom e velho” carro zero km: NÃO VALE A PENA!

    Sim, é isso mesmo. O carro vai desvalorizar um bocado ao ser tirado da concessionária. Que tal comprar um carro com um ou dois anos de uso? Pois é, assim você economiza em cima daqueles malucos que insistem em estar sempre de carro zero, trocando todo ano. Outro ponto interessante é que atualmente alguns carros já vêm com três anos de garantia. Comprando o carro com dois anos de uso você ainda usufrui da garantia…

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    Carlos Inocêncio

    Navarro,

    Muito pertinente o artigo.
    É sempre bom frisar que nenhuma instituição finaceira iria dilatar tanto seus prazos de financiamento se não houvessem vantagens enormes para seus respectivos negócios.
    Cada pessoa (ou família) deve possuir um veículo que caiba no seu bolso, pois o financiamento - e caro - a perder de vista não é o único problema. Temos ainda que ter em mente os gastos com combustíveis, manutenção, seguros… que definitivamente não ficam baratos!

    Obrigado!

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    Marcos

    Acho que finanças pessoais deveria ser matéria fundamental nas escolas. Eu particularmente melhorei financeiramente depois que li alguns livros sobre o assunto. Juro composto é algo que devemos colocar para trabalhar a favor, nunca contra. Sempre que possível pague a vista, o poder de barganha aumenta bastante.

    Parabéns pelo artigo.

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    ao meu ver o assunto eh pertinente aos imoveis tbem, credito facilitado = aquecimento dos precos = corrida dos ratos alimentadas para sempre! hehe o povo trabalha a vida toda para pagar seu carrinho zero e seu apezinho, tudo em trocentos anos de financiamento. FUJAM!!!

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    Gustavo

    Este é um blog de grande utilidade. Concordo com tudo que foi dito acima, entretanto existem situações em que o cidadão ciente destas armadilhas necessita de um automóvel (necessidade de transitar por locais perigosos, necessidade de deslocamento em horários inconvenientes…) e não tem outra escolha a não ser encarar a aquisição de um veículo, seja ele novo ou usado.

  12. Imagem do comentarista

    Gustavo como vai, obrigado pelo comentário.

    Realmente se não existe alternativa e você terá que financiar, o que posso sugerir é pesquisar taxas e alternativas de financiamento. Não aceite nada sem questionar, e não feche nada de primeira, pessa um tempinho para pensar, acredite essas dicas funcionam.

    Abraço a todos, particularmente aqueles que deixaram nos comentários suas impressões.

  13. Imagem do comentarista
    Paulinho

    Ola sou apaixonado por carros ,e formula 1 ,ja tive varios carros todos financiados foi prejuizo na certa ajente compra 1 e paga quase 2 ou voce mata os juros ou os juros te mata gostou da metafora? As financeiras vivem disso nós trabalhamos e eles ficam com a grana um financiamento em 60x da para fazer a faculdade duas vezes graduação e pós graduação sacou , mas o impulso é tanto que já acinei um contrato de 60x mas quero desistir não vou levar o carro, acho que vou reformar o meu apollo volkswagen que é um ótimo carro confortavel e potente na cidade e na estrada já fiz as manutençoes, este carro aguenta qualquer viagem , Juros é uma armadilha.

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