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Estagflação: Estagnação, Inflação e Desemprego

Publicado por Conrado Navarro em 06.3.2008 na seção Economia Geral

Economia Geral - Conceitos e SoluçõesMarco comenta: "Navarro, tenho acompanhado o noticiário econômico por alguns dias e me deparo com muito 'economês', palavras que demoram a fazer sentido para mim. Penso sempre em você, no Dinheirama, e aqui estou eu para pedir uma forcinha com um termo que aparece sempre nos jornais: estagflação. O que significa, do ponto de vista do país, viver um momento de estagflação? No que isso muda nossa vida? Obrigado."

Marco, obrigado pela visita. Se levarmos em conta a longa história da economia mundial[bb], vemos que o termo, criado nos anos 70, é bastante recente. Naquela época, com a alta expressiva do petróleo e de algumas commodities, surgia um cenário econômico sombrio: inflação e desemprego registrando altas, prejudicando o crescimento e desenvolvimento de muitos países. Dito isso, já é possível imaginar que viver um período com essas características não é algo confortável.

Adianto que é impossível tocar no assunto sem esbarrar em alguns conceitos técnicos e hipóteses. Vejamos o que podemos aprender com essa importante e perigosa figura econômica.

A definição, o problema!
Pois estagflação significa, apelando para a teoria econômica moderna, estagnação do crescimento (desenvolvimento econômico) em um cenário combinado com altas da inflação e do desemprego. Enfrentar períodos assim significa ter que gerenciar melhor a oferta de moeda, ao mesmo tempo em que se gerencia a carga fiscal e os juros. Um desafio muito difícil, já que criar emprego significa aumentar a oferta de crédito e diminuir os juros, enquanto baixar a inflação requer que a atitude seja exatamente oposta, com o objetivo de reduzir a circulação de capital.

Em suma, o grande problema consiste em enfrentar duas variáveis econômicas com efeitos potencialmente reversos. Deixando o 'economês' de lado, explico: em situação de alta dos preços, é inteligente desestimular, no âmbito fiscal e monetário, o avanço econômico (produtividade), subindo juros e impostos. Como você deve estar imaginando, isso diminui a circulação de dinheiro[bb] e a oferta de crédito no mercado, o que força os preços para baixo.

Diminuir o desemprego, por outro lado, requer que o governo crie melhores alternativas fiscais (tributos mais baratos), para pessoas físicas e jurídicas, e monetárias, de forma a diminuir o custo de capital (baixar a taxa básica de juros, ex. Selic) e aumentar a oferta de moeda. Essas atitudes aquecem a economia e aumentam a produtividade, o que permite que as empresas contratem.

Até agora vimos que a estagflação é algo potencialmente perigoso e que gerenciar fases deste tipo não é tarefa comumente documentada em livros-texto de economia. Confesso não estar muito confortável depois de expressar tantas palavras técnicas e teorias econômicas em tão poucas linhas, mas o objetivo do artigo é resumir a questão e colocá-la de forma mais simples e objetiva. Espero que você ainda esteja lendo.

O impacto, o dilema!
A influência da estagflação na vida dos cidadãos de um país é óbvia: a inflação corrói o poder de compra e o desemprego afeta radicalmente a estrutura sócio-econômica da população, bem como dos resultados do país. Preços altos, crescimento prejudicado e falta de postos de trabalho impedem que o país se mova de forma sustentável: vem a crise.

As ações tomadas por um governo diante desse cenário tendem a ser focadas em um dos dois aspectos envolvidos na questão. É preciso optar: a situação econômica da nação é analisada e os perigos da inflação e desemprego são confrontados. Qual das duas variáveis traz mais ameaças e(ou) pode ser mais prejudicial? Ambos os indicadores oferecem tendência de alta ou algum deles oferece perfil diferenciado, moderado? Perceba que, por muito tempo, vive-se um dilema.

Existe saída?
Aqui a questão pode alimentar ferozes debates entre as diferentes escolas econômicas. A frente keynesiana, originada a partir dos estudos de John Maynard Keynes, defende a interferência do Estado através de mais investimentos diretos (obras, infra-estrutura etc). O grupo que segue as conclusões do economista Josef Schumpeter recomenda estímulos microeconômicos, trabalhando oferta e demanda. Uwe Waldemar Rasmussen, professor da área econômica, conclui que:

"Na realidade, tanto os keynesianos como os schumpeterianos vivem da esperança de que os sindicatos dos trabalhadores, os executivos e os empresários consigam acordos voluntários para negociar uma política salarial e uma política de preços antiinflacionária como medidas corretivas - dentro de considerações bilaterais de custo/benefício que sejam viáveis a ambas as partes, para evitar medidas drásticas e impopulares por meio da interferência do Estado no mecanismo econômico, e que possam resultar em convulsão político-social"

Torcendo para que você, nobre leitor, ainda esteja por aqui, encerro o artigo. Não há uma saída única ou definitiva para a estagflação e sua presença nas economias mundiais, mais frequente nos últimos 15 anos, muitas vezes surge em decorrência de incoerências econômicas dos próprios orgãos econômicos do governo.

Os conceitos econômicos expressados no artigo podem assustá-lo, mas certamente irão enriquecer seu universo financeiro e, principalmente, facilitar a interpretação de algumas notícias encontradas por ai. Espero que tenha gostado. Até a próxima.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

Imagem de Conrado Navarro

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro

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6 comentários

  1. Imagem do comentarista

    O engraçado é que não importa a linha ou pensamento econômico/social seguido, no fim, você sempre depende do "acordo" mencionado pelo professor Uwe Waldemar Rasmussen, acordo esse que nunca vêm, porque depende do bom senso das partes e, oras, se houvesse o bom senso, nunca teríamos esse ponto (ou qualquer outro dilema).

  2. Imagem do comentarista

    Parceiro quando se chega nesse ponto "Estagflação" não se tem muitas alternativas, que não seja tentar acelar o crescimento de alguma forma.

    Aí, a queda dos juros é o caminho imediato. Nesse caso, a própria desaceleração, forte nesse momento, cuidaria de manter os preços em condições "aceitáveis" e seria um regulador natural de mercado.

    O Estado de alguma forma deve contribuir diretamente com criação de frentes de trabalho, incentivos fiscais por exemplo.

    Acho que uma inflação com índicios de alta, em um primeiro momento seria um "mal" aceitável. É claro, estou falando com a hipótese de ação já com a corda no pescoço, pois hoje os governos (banco Centrais) possuem instrumentos que com certa antecedência conseguem prever cataclismas economicos financeiros como um cenário de Estagflação.

    Parabéns Conrado, ótimo texto.

  3. Imagem do comentarista
    Marco

    Navarro, puxa, que legal ver minha dúvida publicada no blog! Não esperava! Muito obrigado pelo claríssimo esclarecimento. Finalmente compreendo alguns noticiários e posso transmitir adiante o que aprendi. Sua atitude generosa mudou as coisas pra mim, fico feliz que existam pessoas como você por ai! São poucas, mas existem. Parabéns, sucesso!

  4. Imagem do comentarista
    Júlia

    Gostaria de saber por que o multiplicador Keynesiano não funciona quando a inflação e o desemprego occorem ao mesmo tempo.

  5. Imagem do comentarista
    Sarah

    Eu achei essa matéria extremamente bem escrita.
    É difícil pra alguém que, como eu, tá tentando entender ecônomia encontrar uma matéria que explique bem alguns termos essenciais nesse mundo, e de difícil compreensão para jovens do ensino médio.
    Se não for pedir demais, você pode explicar como Curva de Philips e a teoria da Taxa de Desemprego Não-Acelerando a Inflação (NAIRU) de Edmundo Phelps se relacionam com a estagflação? Eu já li vários artigos a respeito, mas não consegui formar uma compreensão concisa sobre o assunto.

    Eu ia ficar muuuuuito feliz se você pudesse responder, e lamento se eu meio que transformei isso num 'fala que eu te escuto' ou 'tire as suas dúvidas sobre economia' on-line.

    ;D

  6. Imagem do comentarista
    Hellen

    Um artigo muito bem escrito e transmitido de uma forma bem clara.

    Estamos, constantemente, envolvidos pelo fluxo circular de renda, e entender esses termos para assim o fluxo fazer mais sentido é essencial.

    Parabéns Navarro, artigo excelente!

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