Os juros, a inflação e a explosão do crédito
Publicado por Ricardo Pereira em 28.03.2008 na seção Economia Geral
“A inflação está sob controle e o país continuará crescendo cerca de 5% este ano”. A frase é mais uma das já tradicionais (e duvidosas) frases proferidas pelo Ministro Guido Mantega. Mais que uma afirmativa, podemos entendê-la como uma aposta. Ontem, o Banco Central divulgou o seu relatório de inflação, onde aponta que a expectativa de inflação para este ano é de 4,6%, número ligeiramente acima do centro da meta de inflação, estipulada em 4,5%.
No artigo “Que tal o Regime de Metas de Inflação” tivemos a oportunidade de aprofundar um pouco mais o debate e simplificar o tal Regime de metas. Vale lembrar que o Brasil adotou o Regime de Metas de Inflação em junho de 1999, após um forte ataque especulativo. Antes, o país adotava o chamado Regime das Bandas Cambiais.
Para facilitar o entendimento, perceba que, desde a criação do Plano Real, a supervalorização da taxa de câmbio e a elevação do grau de abertura externa da economia foram os pilares principais da política de combate à inflação.
Em 1999, graças ao ataque especulativo, a autoridade monetária percebeu que, em um contexto de instabilidade do sistema financeiro internacional, trabalhar com ancoragem cambial era totalmente ineficaz, pois tirava do Banco Central o controle e a manutenção de sua própria política de controle da inflação, deixando o país vulnerável demais e com a possibilidade de perder o controle da taxa de câmbio nominal.
O papel do Banco Central
A atual direção do Banco Central tem sua atuação marcada pela ortodoxia na condução da política econômica, não exitando ao utilizar da sua mais controversa arma no controle da inflação: o possível aumento da taxa básica de juros, a já tão conhecida taxa Selic.
O governo utiliza como índice para desempenho inflacionário o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Ainda no contexto exposto pelo ministro Mantega, mesmo com esse aumento na expectativa de inflação tudo estaria dentro do esperado, não existindo nenhuma pressão inflacionária neste momento, ao contrário do presenciado no ano passado, com a alta dos preços dos alimentos.
Oferta e demanda
Ao lembrar a questão agrícola e dos alimentos em geral, Mantega de fato demonstra melhora na capacidade de ampliação na oferta de alimentos para 2008. Boa notícia, mas esse fenômeno de equilíbrio entre oferta e demanda é essencial também para outros setores da economia.
Em 2007, o grande carro-chefe da economia foi o setor automobilístico. Segundo o presidente da Anfavea, Jackson Schneider, no ano de 2008 a indústria de automóveis irá investir cerca de US$ 5 bilhões, o que elevará a capacidade instalada no setor de 3,5 para 3,8 milhões de automóveis/ano ainda em 2008 Esse otimismo todo em torno do setor inclui a área de auto peças, que projeta um mercado de até US$ 20 bilhões em 2010.
Sabe-se que ampliar a capacidade de exportação da indústria automobilística é um dos grandes objetivos do governo, que considera essa exportação como maneira de compensar a indústria em uma possível restrição ao crédito por parte do governo, com o objetivo de conter a inflação causada pela demanda.
Após o comentário infeliz do Ministro Mantega (sobre a restrição ao financiamento e crédito), muitos correram às lojas para comprar seus carros aproveitando ainda as “boas condições” de hoje. Entre aspas, sempre, porque ainda vivemos entre as mais altas taxas de juros.
Crédito fácil não é o mesmo que crédito barato. Já devo ter escrito isso uma dúzia de vezes por aqui. Dando o braço a torcer, mesmo alto o juro no Brasil há muito tempo não chegava nesse patamar cerca de 31,2% ao ano (projeção em fevereiro) para financiamento de automóveis, contra 44,3% na média geral para os demais tipos de crédito para pessoas físicas.
Dívidas de longo prazo quase nunca são boas, você há de concordar. Entretanto, na realidade do país onde poucos conhecem e aplicam um bom planejamento financeiro e os juros altos encarecem o crédito, muitos ainda optam pelo caminho do financiamento em diversas prestações.
Altos juros, crédito farto e inadimplência
As justificativas das financeiras e bancos para o alto juro do crédito no país são duas:
- Alta carga tributária
- Inadimplência
Eu colocaria mais um item: a ganância do setor bancário, algo que na realidade faz parte do jogo do capitalismo. A tributaçõ segue elevada, é verdade, mas o aumento do crédito nos últimos anos não resultou aumento na inadimplência. Ela caiu de 7,3% em 2007 para 7,1% em 2008 (prestações em fevereiro de 2008 que registravam atrasos superior a 90 dias).
A expectativa geral é de que se o governo não atrapalhar, o crédito total concedido a pessoas e empresas deve chegar ao fim de 2008 representando algo em torno de 40% do PIB (Produto Interno Bruto). Pouco se comparado com o Chile (50%), Malásia e Tailândia (80%).
Preparar, Apontar, Fogo!
Depois de viajar nas ondas do crédito e da inflação, finalmente chegamos ao ponto crucial do artigo: a constatação de que existe um excesso de consumo no país, inclusive acima da produção. Ao apontar a arma do aumento para a taxa de juros, o Banco Central erra o foco. A meu ver, soa como uma bala perdida.
O aumento do consumo não significa, simplesmente, que as pessoas estão gastando mais. Entram também aí os gastos das empresas (que estão investindo e criando novos postos de trabalho) e principalmente os gastos do governo.
Percebe-se desde cedo que os gastos do governo estão desajustados. Gasta-se muito com o custeio da máquina, ingerência no trato das obras, corrupção, previdência deficitária etc. A arrecadação dos impostos cresce mais que a economia, fato que impulsiona os gastos e programas assistencialistas do governo.
Sob o aspecto econômico, gasto é gasto!
Fica o puxão de orelha: o exemplo deveria vir de quem realmente tem mais poder, eliminando despesas de custeio e não investimentos, garantindo o consumo de quem apenas agora começou a aproveitar uma economia ajustada. Quando vamos, como país, mudar de postura?
Nosso governo sempre cita exemplos asiáticos de desenvolvimento. Acredito que, neste sentido, poderiamos utilizar exemplos de um dos tigres que vive, como o Brasil, tendências inflacionárias: a Coréia do Sul. Lá, as medidas tomadas para conter os preços passaram pela redução (em alguns casos até eliminação) de tarifas de importação, redução de impostos locais e cortes de gastos públicos.
Aqui, ao que se sabe, a opção vem sendo diferente: “culpar” o crédito e aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSSL) cobrada dos bancos, aumentando o custo dos financiamentos, já que os bancos repassaram a mudança para taxa de juros.
Claro, falar é sempre fácil, mas nossas armas são as palavras. Queremos um Brasil melhor, assim como você. Bom final de semana. Aproveite seu tempo livre para conhecer o Fórum Sociedade Dinheirama e aprofundar o debate sobre economia, investimentos, empreendedorismo etc.
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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.
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Primeiramente gostaria de parabenizar o Ricardo Pereira pelo ótimo texto.
O que vejo que ocorre toda vez que se discutem medidas para conter o consumo, mesmo nas ocasiões onde ocorreram altos índices de inflação, é que nunca o governo leva em consideração a hipótese de favorecer as importações.
Quando o Brasil é vítima de protecionismo de países europeus, que favorecem os produtores locais sobretaxando a importação de produtos brasileiros as declarações indignadas que aparecem na mídia são imediatas, entretanto, quando a situação é contrária tudo é encarado com a maior serenidade. É o verdadeiro cúmulo da hipocrisia.
Ao meu ver isso não é feito porque se viesse a ocorrer forçaria a redução da carga tributária interna, obrigando o governo a se adequar e cortar gastos, ou seja, é o velho paradigma do ovo e da galinha.
Não sei se por herança da época em que o País viveu a reserva de mercado, o Brasil insiste em cultivar a ineficiência e a ganância da sua indústria e em não estimular a livre concorrência. Tenho certeza de que se afrouxassem um pouco a tributação e a burocracia das importações haveria queda imediata nos preços e consequente aumento no poder aquisitivo da população, fortalecendo ainda mais a economia.
É justamente o setor que mais cresce, o de automóveis, que é dotado de maior protecionismo, sempre sob a alegação de que a geração de empregos do setor deve ser preservada, mas até que ponto isso é realmente benéfico?
Cria-se uma silenciosa reserva de mercado para alguns setores, sob a alegação de que estão sendo protegidos os interesses dos trabalhadores do setor, e todos nós pagamos a conta vivenciando um mercado de produtos inferiores e inchado pelo sobrepreço. Interesse real de quem?
Hoje tenho dúvidas se a indústria automobilística realmente pratica juros mais baixos (ou seriam “menos altos”?), o que vem sendo usado e por vezes recomendado na televisão, como meio de fuga dos juros do cartão de crédito e do cheque especial.
Quem perde mais? Quem compra o automóvel financiado com juros compostos pela taxa anunciada e pelo sobrepreço? Ou quem compra o automóvel a vista, que tem maquiado em seu preço parte dos juros que seriam cobrados se fosse financiado mas que não sofre abatimento ao ser negociado dessa forma?
Será que só os bancos são gananciosos ao praticarem taxas de juro altas?
A carga tributária, os custos trabalhistas, entre outros, tem sido usados pela indústria como justificativa para a prática de altas margens de lucro. Aliada a isso também está a alegação de que é necessário praticar margens altas porque a economia é imprevisível e outras balelas. Coisa que só é possível justamente por causa do protecionismo.
Livre comércio ou Cartel?
Grande Marcelo Minholi, obrigado pelo comentário. Achei fantástica sua considerações.
1- Concordo com você, a realidade de juros no Brasil, desde a taxa básica, até as taxas de financiamentos são altas (ponto).
Como você diz, sobre a questão do automóvel é sim menor, do que os demais financiamentos, não que na realidade sejam baixos.
2- As justificativas dos bancos, no meu ponto de vista são cabíveis sim principalmente na questão da alta carga tributária, mas existe sim o dedo do oportunismo do negócio que pode ser aí a tal da ganância através das altas taxas praticas, mas como no artigo mencionei, faz parte do capitalismo e só com um pouco de cultura financeira poderemos mudar isso. Tenho certeza que o governo não irá mexer nisso.
3-A questão das importações é interessante mesmo, atirar pedra no protecionismo externo é não olhar o que se faz aqui dentro.
Mais uma vez agradeço a força, volte sempre.
[...] mas sua mudança é dada como certa. Como você já sabe, o grande responsável pelo aumento é o perigo inflacionário, muito mais perigoso e ardiloso do que se supunha até pouco [...]