Quando o problema é a falta de objetivo
Publicado por Conrado Navarro em 08.04.2008 na seção Educação Financeira
Os dias parecem se arrastar, o ânimo para sair e passear se foi e a saudade do dia do pagamento bate cada vez mais forte. O final do mês, período bastante desagradável para muitas famílias, é capaz de transformar a convivência familiar em um suplício. Será que falta educação financeira? “Ganho mal”, “O preço de tudo está sempre subindo” e “Este mês gastamos mais que o usual” são alguns dos comentários ouvidos nesses momentos.
Engraçado! Raramente ouço algo do tipo “Nos faltam objetivos de vida, por isso não temos motivação para poupar e investir. Acabamos gastando tudo porque não há nada mais interessante e que seja capaz de nos fazer mudar idéia”. Soa sincero demais? Pois essa é a tradução para qualquer desculpa que ouvimos quando encontramos amigos ou familiares endividados e(ou) em situações financeiras desconfortáveis.
Um paradoxo interessante mostra-se diante desta questão: não raro, nos questionarmos sobre o destino de nosso dinheiro, mas poucas vezes nos colocamos diante da situação como os verdadeiros culpados. É como saber que a piscina dá pé e ainda assim insistir em nadar desesperadamente, correndo o risco de se afogar. Desafios e experiências à parte, afoga-se assim quem não tem razões para esticar as pernas e levantar a cabeça. Quando falta objetivo, sobram razões para justificar sua ausência. E a vida vai passando…
Se sabemos, por que ignoramos?
Se coubesse a mim definir o significado da palavra escolha, eu optaria por essa pequena frase: o único momento em que, ao mesmo tempo, aproveitamos e desperdiçamos duas ou mais oportunidades. Diante de grandes decisões, e quando objetivos verdadeiros estão em jogo, devemos escolher, optar e assim viver as consequências do caminho escolhido. Passamos por muita coisa quando queremos conquistar algo. Arriscamos, é verdade, mas com disciplina.
Por que não reagimos de forma semelhante diante da situação financeira de nossas vidas? Por vezes ficamos paralisados, inertes, na esperança de que um aumento ou uma ação externa possam fazer fluir melhor o dinheiro que entra no final do mês. Sem objetivos, o dinheiro percorre um caminho automático, quase sempre previsível, mas muitas vezes incoerente com a dura realidade. Deixamos de lado a força de vontade, por não saber onde aplicá-la. O dinheiro acaba, a angústia se agrava.
Um objetivo. Um de cada vez.
Tudo se resolve com um objetivo. Um de cada vez. Experimente fazer uma radiografia detalhada de sua vida financeira (o Dinheirama oferece excelentes artigos neste sentido) e faça o seguinte exercício:
1) Imagine, ao lado de toda a família, um objetivo importante que gostaria de atingir. A casa dos sonhos, o carro novo, a viagem ao exterior, a câmera digital, o computador
, não importa. Por que você merece isso? Por que quer tanto chegar lá? Vislumbre o que quer e anote sua missão (e todos os seus detalhes) no meio de uma folha de papel.
2) Logo abaixo de seu objetivo, descreva como será possível chegar lá. Quitando suas dívidas, organizando melhor o orçamento, vendendo o carro, diminuindo despesas fixas e variáveis, viajando menos e trabalhando um pouco mais são alguns exemplos. Use a imaginação, mas seja realista. Você não quer continuar se enganando, certo?
3) Acima do objetivo traçado, resuma sua proximidade em relação ao “gol”. Por exemplo, escreva “LONGE” se você ainda tem que fazer muita coisa até conseguir atingir sua meta. “QUASE LÁ”, se suas ações já facilitaram o caminho e assim por diante. Use a criatividade.
4) Agora compartilhe esse documento com as pessoas que ama e trate de revisá-lo todo dia, semana ou mês. Leve-o com você e trate de incorporá-lo. Ler este material vai levá-lo à uma profunda reflexão, com uma lição muito simples: você é responsável por sua vida. Não é ótimo?
Se você não quiser fazer nada disso, tudo bem! Continuar sem objetivos apenas fará de você uma pessoa cada vez mais enrolada financeiramente, muito embora essa verdade possa permanecer encoberta durante muito tempo. Assumi-la exige uma coragem que você ainda não desenvolveu. Ainda que a falta de dinheiro não seja seu maior problema, sugiro que desligue o piloto automático e comece a investigar os caminhos tomados pelo seu soldo mensal.
Dinheiro não combina com subjetividade, achismo ou esperança. Todo o esforço deve estar concentrado no emprego inteligente do que você ganha. Dinheiro combina com planejamento, disciplina e esforço. Depois que você vivenciar o enorme prazer de conquistar um objetivo, vai finalmente compreender porque custa ler um livro até o final ou fazer as tarefas da aula de inglês. Será que não falta associá-los a um objetivo maior?
Crédito da foto para Marcio Eugenio.
Artigos relacionados
Assine os feeds
5 comentários
Deixe um comentário
Os comentários e o teor das palavras aqui colocadas são de total responsabilidade de seus autores. Serão sumariamente excluidos os comentários publicados com e-mail anônimo (ou falso), de cunho preconceituoso ou racista ou que não estejam de acordo com o mínimo bom senso. Se quiser criticar, deixar sua mensagem de descontentamento ou desprezo faça-o usando seu nome e e-mails verdadeiros. O Dinheirama reserva o direito de publicar e(ou) apagar qualquer comentário que julgar inoportuno. Participe com decência da discussão! Obrigado.






















Conrado,
Muito bom artigo!!!!
Bjs…
Paulinha
Uau Navarro, que artigo fantástico! Vesti a carapuça aqui e fui atrás de uma folha de papel. Falta motivação, mas descobri que é porque eu não sei ao certo o que quero conquistar, onde chegar. Você escreve de uma forma muito especial, humana, algo que faz o dinheiro parecer secundário (deve ser mesmo não é?). Sem estar bem, não há dinheiro que chegue! Obrigada por artigos cada vez melhores. Sou sua fã!
Show de bola Esse artigo! FAlou tudo!! Tudo na via é uma questão de escolha.
[]s
Marcio
Concordo com você, tem muitas pessoas que falam…não tenho nada nesta vida porque gastei tudo, e vivi muito bem…parece que sentem-se satisfeitos com isto, mais no fundo, no fundo, nao concordam com a situação deles….e estão muito mal…
Outra frase típica…era..eu nao quis poupar, se eu tivesse querido poupar seria riquissimo…mais nao quis….
brilhante.
Nossa relação com o dinheiro vai muito além do ‘contar moedas’. O dinheiro é um parâmetro pelo qual intermediamos nossa relação com o mundo, e evidencia nossos aspectos psicológicos.
Somos fracos? desorganizados? desfocados? Ok, nossa saúde financeira evidenciará isso. Somos corajosos, impetuosos, inovadores? idem.
Muito bem abordado o enfoque psicológico nesse texto, e destaque também para a ‘humanidade’ do texto que a Renata salientou no comentário.
Abraço e parabéns pelo excelente trabalho.