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Juros baixos ou enésimas prestações?

Publicado por Conrado Navarro em 10.06.2008 na seção Educação Financeira, Orçamento

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Juros baixos ou enésimas prestações?Outra reportagem encaminhada por um leitor, outro susto. Transcrevo aqui a pergunta que encabeça o e-mail enviado pelo amigo Michel. Pense no brasileiro típico: quando se trata de financiamento de veículos, cartão de crédito e cheque especial, será que ele se preocupa mais com os juros que vai pagar ou com o prazo de financiamento colocado à sua disposição? Onde fica a preocupação com as finanças pessoais[bb]?

A relação juros x prazo é pauta de um fantástico estudo realizado pelo Ibmec-SP sob coordenação do economista Domingos Pandeló, cujos resultados foram alvo de uma reportagem na edição impressa de ontem (9 de junho) do jornal Folha de S. Paulo. Se levado em conta o aspecto econômico, a facilidade na obtenção do crédito piorou - e muito - a qualidade das decisões financeiras dos consumidores.

Pandeló sustenta que a decisão de fazer um empréstimo no banco com juros proibitivos tem mais a ver com necessidades pontuais de caixa e com a comodidade do que com taxas e prazos. O brasileiro quer o simples, mas se esquece de que o amanhã, o dia do pagamento, nunca é fácil. O autor do estudo arremata:

“Quanto mais fácil a adesão ao financiamento - como o cheque especial, o cartão de crédito e os limites pré-aprovados -, mais irracional o consumidor se mostra do ponto de vista econômico, que avalia a relação custo/benefício”

No português claro, o brasileiro sua muito para receber seu salário no final do mês, mas o emprega de forma irresponsável quando tem uma necessidade imediata ou desejo de compra que vai além de suas possibilidades. Mais, temos o hábito horrível de apenas calcular o impacto da parcela dentro do orçamento, mas não da compra dentro da realidade de nosso padrão de vida[bb].

Compramos porque algo está “barato”, sem ter o mínimo senso econômico. A passividade diante das cobranças de juros impede que a negociação de valor seja feita de forma inteligente, deixando o mercado livre para “flexibilizar” o pagamento, incutando taxas de juros mais altas e ganhos maiores no crédito direto. O economista Pandeló, responsável pelo material, vai além:

“O banco conhece o comportamento do cliente e tem o crédito pré-aprovado para isso. As operações de longo prazo, que têm maior valor, costumam ser mais racionais porque não envolvem uma decisão impulsiva. Ninguém compra um imóvel por impulso. O carro talvez não se enquadre nisso, apesar do valor maior. É bem comprado para mostrar a ascensão social”

A reportagem completa da Folha traz ainda exemplos de cidadãos informados - a maioria cursando o terceiro grau - que realizaram financiamentos de automóveis cujas taxas de juros são desconhecidas. Cada entrevistado afirmou ter se preocupado apenas com o tamanho da parcela dentro do orçamento doméstico, mesmo sabendo que o valor pago pode ser muito alto ao final dos usuais cinco anos. Ninguém se recordava da taxa de juros assinada no contrato.

O puxão de orelha fica por conta de três atitudes que me incomodam bastante:

  • Passividade nas negociações. Onde está a paixão demonstrada pelo bem quando se trata de pagá-lo e honrar sua suada jornada de trabalho? Somos demasiado passivos nas negociações[bb] e esquecemos de levar em conta a verdadeira capacidade de fluxo de caixa da família. Coloque a energia do desejo também para negociar o preço e as condições de pagamento.
  • Falta de informação. Salvo raríssimas exceções, vendedores normalmente informam dados e aspectos da compra que apenas reforçam a melhor alternativa para o lojista. Cabe a nós, cidadãos preocupados com as finanças da casa, pesquisar alternativas e discutir pontos não abordados pelo profissional que nos atende.
  • Ausência de percepção financeira. Um juro de 2,15% ao mês é um juro alto ou baixo? Precisamos estar preparados para responder essa e outras perguntas. Interesse pela matemática financeira[bb] básica do dia-a-dia deveria ser hábito de todos. A propósito, 2,15% é um juro alto (minha humilde opinião).

Então ficamos combinados que entre juros mais baixos (uma compra mais coerente) e prazos mais longos, o melhor é pagar menos e pagar logo. Nada de “encaixar” a parcela em seu orçamento ou usar o crédito fácil só porque ele é fácil. Lembre-se o fácil quase sempre custa mais caro e traz mais efeitos colaterais. Esforço para poupar só faz bem, experimente.

Os resultados da pesquisa realizada pelo Ibmec-SP mostram clara deterioração da consciência financeira ao longo dos anos. Ficamos mais previsíveis e, ao mesmo tempo, mais irracionais. Dan Ariely explica algumas razões dessa importante realidade através do livro “Previsivelmente Irracional”, lançado este ano. E eu? Eu continuo motivado, com a esperança de que o Dinheirama ajude a mudar parte deste cenário. Será?




Crédito da foto para stock.xchng

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8 comentários
  1. Imagem do comentarista

    Esse post caiu em um dia feliz para mim! Comprei um notebook a dois anos atrás… Tive problemas de ordem técnica e consequentemente financeira por conta dele. O notebook estragou, perdi dinheiro com advogado para reaver os valores do notebook. Recebi o dinheiro porém não os juros de 1,2% (programa do pc conectado) e 3,6% do valor restante… Esperei mais de um ano e meio para comprar outro notebook. Hoje decidi fazê-lo porque além do preço competitivo consegui juros zero. O valor das parcelas foi quase o mesmo, porém o prazo beeeem menor. Muito melhor!

  2. Imagem do comentarista
    Daniel

    Olá Navarro, quando você vai parar de escrever assim, já estou sem tempo para as outras atividades de tanto que visito esta página. Falas com coerencia e elegância. Parabéns.

    Pois é, não falarei do quanto “as vezes” somos irracionais quando o assunto é dinheiro. Esse asssunto já deu, e dá, o que falar.

    Mas me coloco aqui religiosamente como profeta ao lado do Navarro. Isso mesmo.

    Os profetas, no antigo testamento da bíbia cristã, sempre eram enfáticos em seus discuros. Sempre queriam alertar o “povo” de Israel para se voltarem pra Deus; para se livrarem de sua cegueira de espírito. Mas o que o “povo” fazia? Apedrejavam-nos sem dó nem piedade e nem levavam em conta suas posições de destaque.

    O engraçado desse pequeno paralelo são as vezes que os peofetas adivertiam esse “povo”. Sempre enfatisavam seus erros e pecados cometidos contra Deus.

    Enfim, o objetivo desse post não é falar de religião, mas sim de finanças pessoais e racionalidade para a vida.

    Até quando, oh povo de dura serviz, amareis a loucura e procurais a nescedade? Será que os profetas como meu caro Navarro irá desistir de sua missão? Acho pouco provável, pois Deus o predestinou desde a aternidade para pregar a libertação das almas cativas pelo mal emprego de seus recursos financeiros.

    Um pouco exagerado, mas é verdade.

    Abração.

  3. Imagem do comentarista
    Fábio Augusto

    Bom dia !
    Matéria caiu como uma luva. Precisei de um financiamento para adiquirir um veículo. Relutei muito, mas financiei um de acordo com o meu padrão de vida atual (Hoje, com mais de 10 anos…) Não quero criticar quem financie um zero km em 4, 5 ou 6anos, mas a pesquisa mostra que é pura ostentação. Pra que servirá um carro de luxo financiado em 5 ou 6 anos ??
    Tive um professor de psicologia, que me contou um caso engraçado sobre inversão de valores, mas que gera uma reflexão. Certa vez, foi a praia e se esqueceu de levar o chinelo…
    Quando foi comprar, tinha seu número somesnte as cores azul por $$ e um rosa-pink por $.
    Qual a finalidade do chinelo ? Mostrar masculinidade ou proteger os pés da areia escaldante ?
    Que chinelo vc compraria ?

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    Samurai

    Vi uma reportagem (acho que naquelas revistas da TAM, que dão na viagem) que a Audi estava financiando um único determinado modelo de carro com o mesmo preço que vendia a vista. Compensa financiar nesse caso? Acredito que sim. Deixa o dinheiro parado rendendo em alguma aplicação e compra o carro financiado sem juros.

  5. Imagem do comentarista
    Mateus

    Seguindo a analogia do Fábio eu acho que compraria o $ idepedente da cor, porque teoricamente seria um chinelo temporario sendo que eu já tenho um. Acho que a facilidade de adquirir um carro atualmente tem refletido muito na minha vida, atualmente faço faculdade e não tenho condições de comprar um carro sem pagar 5 ou 6 anos de prestação mas essa é uma escolha que fiz. Eu tenho certeza que daqui a 3 anos minha situação financeira vai estar bem melhor do que a atual e terei condições de comprar um, porém o que eu acho que acontece com a maioria das pessoas é que eles assumem a divida de um carro sem pensar apenas para satisfazer o desejo que nem sempre é uma real necessidade. E o que resulta no final é um problema para todos pois quanto mais gente comprar carro maior será o engarrafamento e isso reflete em mim que estou apenas juntando dinheiro e não quero entrar nessa “furada” de comprar um carro em 72 prestações.

  6. Imagem do comentarista
    Fábio Augusto

    É Mateus… universitário tem que “lamber com os olhos”… Acredite, que sua situação vai melhorar muito antes do que você imagina. Palavra de quem já passou por isso e sente saudades. Hoje um carro é necessário pra mim…
    Mas quando estudava, se tivesse seria mais custo do que benefício (estacionamento no serviço, na faculdade, gasolina, trânsito)…
    Abraço.

  7. Imagem do comentarista
    Guilly

    Realmente compraria o chinelo de valor $. Costumo focar no objetivo final das minhas aquisições, Exemplo: Carro - Transporte; Celular - Telefone, lógico que com cuidados de analisar o custo e benefício. Isso sempre me ajuda a evitar as armadilhas da vaidade.

    Samurai, eu acho que na situação mostrada, o melhor seria tentar negociar a compra a vista. O argumento do valor a prazo ser o mesmo do a vista já seria suficiente para conseguir um belo desconto!

    Abraço!

  8. Imagem do comentarista
    Samurai

    Eu compraria o chinelo $$. Se eu comprasse o mais barato, provavelmente só iria usar uma vez, ali na hora. O custo ia ser de $ por dia de uso (1 único). Se eu comprasse o mais caro, iria usar em outras ocasiões também, o que diluiria o custo por dia do chinelo.

    Guilly, não sei como funciona lá, pois não tenho um Audi. Mas se eles realmente estão fazendo esse movimento para um único modelo de carro, provavelmente eles não abaixariam o preço. Não sei. Seria melhor levar outro modelo heheheheh

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