Crise financeira: (re)começando e (re)aprendendo a investir
Publicado por Ricardo Pereira em 19.09.2008 na seção Ações, Economia Geral
O mercado financeiro mundial atravessou, nas últimas semanas, um período de fortes emoções. No Brasil, como no mundo, os reflexos levaram a fortes quedas do índice Ibovespa e de quase todas as ações que dele fazem parte. A crise, criada nos EUA e agravada esta semana mundo afora, parece, enfim, dar seus primeiros movimentos em nosso país. Já há diminuição do crédito e encarecimento do dinheiro em curso. Muito se falou e se discutiu, mas quais as lições que ficam para o investidor?
Quem tem aplicação em renda variável se viu no centro de um furacão, cujo primeiro momento foi devastador. O investidor que optou pela bolsa e passou a investir em ações apenas nos últimos doze meses tem a decepcionante sensação de ter entrado em uma “gelada”, afinal todos os jornais, revistas e emissoras de TV bombardearam nossas casas com informações sobre a crise e seus desdobramentos.
Quebra do Lehman Brothers, venda, no saldão, do Merrill Lynch, socorro emergencial à seguradora AIG, emissão de títulos da dívida americana de curto prazo, flight to quality. Ufa! Tudo isso trouxe aos nossos ouvidos falas e frases de personagens que passaram a fazer parte de nosso dia-a-dia, como Ben Bernanke (Presidente do FED) e Henry Paulson (Secretário do Tesouro dos EUA). Agora, suas aparições são comparadas às de estrelas de cinema, mas com responsabilidade infinitamente superior.
O Navarro abordou importantes aspectos pessoais decorrentes da crise, o que, de certa forma, me motivou a escrever este texto. O que muito me chamou a atenção nos últimos dias foi o fato de que algumas velhas e sábias lições de mercado foram subitamente esquecidas. Embora o texto aborde aspectos comentados pelo Navarro em seu artigo de quarta-feira, preferi abordar os temas de forma mais referencial, com alguns números e representações.
Para nossa alegria, temos recebido inúmeros e-mails de pessoas interessadas em entender os problemas e aprender sobre a questão, para só então começarem a investir. O leitor Braga, por exemplo, pede que apontemos os fatores capazes de direcionar os ainda novatos no mundo dos investimentos em ações. Pois bem, com enfoque mais teórico e informativo, arrisco-me a citá-los:
Renda variável
É um mercado de risco, marcado pela volatilidade. O período 2003-2007, de retornos muito acima da média, animou muita gente e trouxe investidores carregados de emoção e pouca informação. Como o próprio nome já diz, renda variável é um tipo de aplicação que varia bastante, o que significa ver retornos positivos e negativos.
O investidor precisa estar certo de que, muitas vezes em uma velocidade espantosa, tudo pode mudar. A viagem ao sucesso depende do desenvolvimento das habilidades financeiras de cada um, do prazo determinado e das estratégias escolhidas. Por exemplo, diversificar (manter parte do patrimônio em renda fixa, parte em ações etc.) ajuda.
O fator tempo
Quem comprou ações da Petrobras há 10 anos, e mantém os ativos em sua carteira, tem hoje rentabilidade aproximada de 1900%. Que tal? Pois é, mesmo após todo esse sobe e desce, diversas crises financeiras (quem se lembra do problema com a Ásia?), o retorno acumulado é muito expressivo. Ah, o famoso longo prazo, não é mesmo?
O tempo é fundamental para o investidor, diferente do que ocorre com o especulador. Quem pensa no futuro precisa entender que o risco para o investidor de longo prazo é sempre menor, pois está diluido e expõe menos o capital investido. Dessa forma, pensar no longo prazo significa maximizar o horizonte de valorização. A questão é a pressa, comum nos dias de hoje. Pra que correr?
Comprar na alta e vender na baixa
Esta ai uma das afirmações mais usadas diante desta crise. A lição é importante, mas é preciso interpretá-la com cuidado. Muitos entraram na bolsa em meados de 2007, ao final de um forte ciclo de valorização. A crise traz um novo teste: é possível sustentar o prejuízo e mirar o longo prazo? De novo, o tempo.
Porque é sempre fácil falar, dizem alguns. Mas, felizmente ou infelizmente, é assim que funciona: aquele que enxerga uma crise como oportunidade pode ter, no decorrer dos anos (o bendito tempo), ganhos significativos, pois existe a possibilidade de adquirir ativos subvalorizados. Para quem investe pensando assim, comprar na baixa e vender na alta parece não ser algo muito complicado.
Não direcionar todo seu patrimônio para a renda variável
Nós insistimos. Muito. Por inúmeras vezes, conversando com alguns leitores e amigos, afirmei que não era financeiramente saudável alocar todo o poder de poupança e dinheiro disponível em ações e produtos de renda variável. “Eu gosto de correr riscos” era resposta comum.
Com dinheiro não se brinca, mas isso todo mundo sabe. O risco pode até ser calculado para aqueles que planejam, mas a verdadeira diferença está no cuidado com a gestão das finanças, na atenção aos detalhes, ao noticiário e ao que se lê por ai. Nossas avós sempre diziam que “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.
Por que falar de tudo isso durante a crise?
Falamos antes, falamos durante e falamos depois. Falamos sempre. Durante porque é importante lembrar aos que ainda vivem o terror da crise que há saída, há horizonte possível no longo prazo. Durante porque aqueles que jamais vivenciaram um crise capaz de devorar seu dinheiro podem aprender e incorporar importantes lições.
O Dinheirama é um espaço de aprendizado, como sempre costumamos afirmar. Jamais assumimos a responsabilidade de direcionar seus investimentos para A, B ou C. Nossa preocupação é, de uma forma bastante sincera, didática e agradável, transformar o universo financeiro, tido por muitos como extremamente técnico, em leitura acessível e em debates de alto nível. O resto é conseqüência.
Reafirmamos aqui nosso compromisso com a responsabilidade de mantê-lo como nosso maior patrimônio. Com crise ou sem crise, levamos adiante a bandeira da educação financeira, do suporte técnico, da opinião honesta e da amizade, valores e atitudes que sobrevivem diante de qualquer tempestade. Bom final de semana.
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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.
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13 comentários
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Entenda a crise (explicando para uma criança de 9 aninhos): http://mossadin.wordpress.com/2008/09/19/entendendo-a-crise-financeira/
Parabéns pelo artigo, Ricardo. Educativo, didático e honesto. Fundamental para iniciantes como eu.
Valeu Ricardo, como sempre vocês indiscutivelmente acertam!!!! É por isso que o blog é tão visitado e o trabalho muito reconhecido (pelo menos por mim!!!!).
Sucesso para vocês, sempre e sempre.
Parabéns pelas palavras Ricardo, mais uma vez um excelente texto. Tenho 23 anos, tenho algo em torno de 9 meses investindo na bolsa e dentre os site que considero como obrigatório a conferência diária é o dinheirama. Aprendi e aprendo muitas coisas por aqui. Nesse mundo sempre vão existir aqueles que estão insatisfeitos com tudo e que preferem culpar os outros do que assumir a própria culpa. Até mesmo sobre a vida financeira. Obrigado pelas reflexões. Grande abraço e parabéns mais uma vez.
ai que besteirada essa semana no dinheirama todo mundo arrancando os cabelos e desesperando. ja voltou a bolsa onde era antes em menos de 3 dias.
eu to com TODO O MEU DINHEIRO na bolsa e dando risada de voces que tao com medo ai
apesar que eu sigo o objetivo de longo prazo tambem pois eu quero comprar um carro com esse dinheiro mais soh la por maio ou junho do ano que vem
Excelente post, básico, sábias palavras, mas as pessoas se esquecem desses detalhes em momentos de provação! Sou inexperiente no poupar e na bolsa, entrei em 2007 (na alta) mas não me arrependi. Tenho minha meta quinzenal de compras pros proximos 10 anos.
Você poderia por favor comentar o canal de alta para o período 1963 - 2008.
Existe uma teoria que o ciclo de baixa iniciado agora vai até +-30000 pontos.
O que você acha?
Abr Wiliam
Joliano, boa sorte pra você meu caro. Se acha que 9 ou 10 meses é longo prazo, você vai pra precisar.
Eu particularmente acho que 700 bilhões de dolares talvez sejam suficientes para sanar às dívidas, já a crise…
Excelente texto, como sempre.
Comprar na alta e vender na baixa.
nao seria comprar na baixa e vender na alta? ou vc quer perder dinheiro?
rebeiro, obrigado pela participação e comentário. O Ricardo está justamente comentando este problema de perder dinheiro em crises. Repare que no texto abaixo da afirmação ele fala sobre a questão de entrar quando o mercado está em alta e em sustentar prejuízos durante algum tempo. O obejtivo foi mesmo falar da questão problemática de comprar em alta e vender em baixa. Você está certo, ninguém quer perder dinheiro não. Obrigado pela participação.
Abraços.
Pois é Ricardo,
Muito bom o artigo, o que acontece hoje é que muitos que entraram na bolsa, foram a procurada de rendimentos altos e curto-prazo. Não esperavam toda essa e crise, e na hora que está em baixa, com seguidas quedas, tem que ter muito sangue-frio para não realizar prejuízo. Temos na nossa essência, o imediatismo, o brasileiro é assim. Tem que existir uma mudança de cultura, mas de certo modo vejo até com bons olhos essa crise, porque assim aprendemos que nada é eterno.
Forte abraço,
Amauri Nóbrega
http://www.blogdocoach.com.br
fiz um a alicaçaõ de 33.000 mil do vgbl e menos de 07 meses perdi 06 mil o que faco?
estou com medo de perde tudo o que faço.
Tenho uma aplicação VGBL 40/30 e em um mes perdi 8000 que havia rendido em 3 anos.O que devo fazer agora para não perder ainda mais?