O perigo das dívidas, a negociação e o futuro da família
Publicado por Conrado Navarro em 22.09.2008 na seção Educação Financeira, Negociação
Márcia comenta: “Navarro, imagino que muitos brasileiros ainda se encontrem endividados. Pois é, este é também meu caso e de alguns de meus amigos mais próximos. Vira e mexe leio informações sobre endividamento na Internet, em revistas, mas sinto falta de uma abordagem mais simples, objetiva e eficiente. Penso sempre no Dinheirama nestas ocasiões. Não quero a fórmula mágica para sair das dívidas, mas sua opinião sobre alguns dos fatores importantes para que tenhamos disciplina e inteligência financeira capazes de facilitar a análise da situação”.
Muitos brasileiros estão endividados. Muitos brasileiros continuam se endividando. Muitos brasileiros preocupam-se apenas com o consumo, prazer e a satisfação imediata, deixando o depois para, vejamos, depois. A lição fundamental do capitalismo, aqui traduzida por um simples “tudo custa”, não faz parte do dia-a-dia de um sem número de cidadãos. Por que? Infelizmente, tenho também muito mais perguntas que respostas. Mais reflexões que conclusões.
Avaliando o ambiente que cerca meu trabalho, penso que não somos muito bons em avaliar os riscos implícitos das negociações em que nos envolvemos. Não raro, nos vemos dando sala para a emoção, a sensação de bem-estar e o sentimento de realização. Claro, isso também faz parte da vida, mas não quando deliberadamente tomamos uma decisão que impacta, e muito, o futuro financeiro de nossa família. Não se assuste, o drama se faz necessário.
Sim, porque comprar um carro financiado quando não há real necessidade e condição de mantê-lo é uma atitude capaz de destruir o fluxo de caixa de muitas famílias. Conheço casos de indivíduos com carro cuja vida se resume a trabalhar para pagá-lo, cujos filhos mantém infra-estrutura mais que básica para estudar e cujo padrão de vida se deteriora sem que alguma reação seja tomada. O carro é um exemplo, se preferir substitua-o pela nova moto, pelas compras, pelo crédito rotativo e etc.
Vender o bem representaria um ótimo alívio e melhor capacidade de utilização do dinheiro, de planejamento e saneamento das despesas inerentes ao modelo de vida dos integrantes desta família. Mas vender o carro implica também deixar de lado o gozo social, representado erroneamente pelo prestígio e a aparente diferenciação entre os pares e vizinhos. Vender o carro implicaria negociação, conhecimento de alguns pormenores comerciais, de esforço financeiro. Será que há disposição para tanto trabalho?
O lado pessoal da dívida financeira
De forma pouco usual, acabei traçando um perfil do endividado tradicional brasileiro. Pouca informação, pouco conhecimento, muito desejo e muita necessidade de inclusão social em sua forma mais perigosa (para se impor e se mostrar). Alguns aspectos do endividamento só são profundamente abordados e explicados pela recente fusão entre as áreas de psicologia e economia, representada pela Psicologoia Econômica, capitaneada no Brasil pela professora Dra. Vera Rita de Melo Ferreira, da PUC-SP.
Além da capacidade de honrar compromissos, é preciso que exista um forte trabalho humano, de atitude e de mudança de hábitos. É preciso combater a parca carga suportável de frustração carregada por cada um de nós e querer entender dos produtos e negociações financeiras aos quais nos submetemos. Para satisfação pessoal sempre existe disposição, não é mesmo? Que tal direcionar parte desta dedicação para os objetivos da família e seu futuro?
Acabo por colocar-me diante de três perguntas que gostaria de fazer aos endividados que ainda dão de ombros (humpf!) ao ler artigos e textos como este:
1. Qual é o total de juros que você paga em suas dívidas? Quase ninguém consegue dizer exatamente quanto os juros representam em suas negociações cotidianas. O surgimento do Custo Efetivo Total, ou CET, facilita o controle deste número e melhora a análise. No entanto, o raciocínio financeiro envolvido nas decisões ainda precisa ser muito bem trabalhado. Você paga muito juro? A taxa do financiamento ou de rolagem da dívida é alta? Pense da seguinte forma: se obter 1% ao mês de rentabilidade em aplicações financeiras não é trivial, pagar 1% para rolar alguma dívida parece inteligente?
2. Que mudanças este dinheiro usado para o rolamento de dívidas poderia trazer à família caso estivesse disponível? Aqui entra em ação sua capacidade de raciocinar. O valor usado para pagar os carnês e os juros podem ser empregados em investimentos para o futuro, em melhores condições de estudo para os filhos e em planos de previdência complementar para uma aposentadoria mais tranquila. Isso significa deixar de lado o consumo constante do presente e garantir chances confortáveis de consumo também no futuro.
Alguns entendidos adoram usar o conceito de alavancagem para jogar por terra a defesa do não endividamento. Se você não sabe o que isso significa, situação da enorme maioria dos brasileiros, acredite em mim: nenhum endividamento é saudável. Perceba que ele pode ser necessário, parte de um plano futuro de aquisição de patrimônio etc. Saudável, só quando ele é capaz de trazer dinheiro e retorno. Como? Pois é, isso é alavancagem.
No universo corporativo, a história é outra. Lá, dever é comum, alavancar-se também. Lá, existe planejamento, controle de custos, orçamento etc. Você já tem isso tudo em dia? Lá, usa-se o dinheiro emprestado para investir em projetos cujo retorno é maior que a taxa paga mensalmente, o que garante ganho de capital e poder de reinvestimento. Como é a sua vida neste sentido?
3. Quais os riscos que você corre ao emaranhar-se em uma teia de dívidas? Isso prejudica sua família? Como? É muito raro notar famílias cuja a decisão de endividar-se seja tomada em conjunto. A chance de decisões ruins serem tomadas diminuem drasticamente quando um grupo se reúne e discute as oportunidades, os riscos e os custos de suas ações. Dialogar sobre as alternativas financeiras só ajuda o processo de formação de idéias e opiniões.
Isso é Brasil
O homem quer trocar de carro, sem necessidade, e a mulher quer investir em um plano de previdência para os filhos. Ambos trabalham, mas ele ainda ganha mais e controla o dinheiro da família. O que acontece na maioria das vezes? Pois é, 2007 e 2008 são anos recordistas em números de carros vendidos e evolução da indústria automobilística. Se você acha que isso não acontece, reveja seus conceitos sobre dívidas, investimentos e cuidados financeiros. Você pode estar comprando muita coisa absolutamente supérflua e deixando o futuro dos seus filhos para depois, para o futuro.
Será que para o endividado é chocante saber que ele é o grande responsável por sua situação? Deveria ser. Como e por onde começar? Aceite que está devendo e que é importante para você e sua família que você pare de se endividar. Liste seus credores, examine e detalhe quanto deve para cada um deles. Estabeleça prazos para o pagamento das contas e, se for o caso, renegocie-as buscando prazos melhores e taxas mais baixas.
Ah, sim, antes de endividar-se tanto novamente lembre-se: você é o que você é, não o que você tem ou gasta. Dinheiro é secundário, é consequência. O descaso deliberado com o dinheiro é irresponsabilidade, é falta de maturidade e de disciplina. Não ter dinheiro, mas andar de carro novo não é bonito. Não se trata de ser mão de vaca, mas de empreender o próprio futuro a partir do que é possível fazer hoje.
Crédito da foto para stock.xchng.
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17 comentários
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… se foi o tema da minha redação para a Promoção rsrssr
Que nada, mudarei…
“Pouca informação, pouco conhecimento, muito desejo e muita necessidade de inclusão social em sua forma mais perigosa (para se impor e se mostrar).”
definição perfeita. eu me pergunto como esse povo todo tem carro menos eu…jah sei! Dívida!!! XD
to contigo alpha …. estou com meu carrinho que da um laço nesses carros “populares”, faz uma baita economia, só me da alegria e custa 1/3 de um novo…
há, não devo pra ninguém e com a diferença de valor, aplicado em CDB, pago 75% do que gasto em gasolina !
essa é a minha fórmula…
nesse Ano de 2008 resolvi fazer uma coisa onde fui criticado por muitos, resolvi vender minha casa e morar de aluguel,parece locura,né? mas veja meu ponto de vista,minha casa ficava num bairro bem longe do trabalho,e londe de supermercados,bancos,etc ,resumindo um bairro novo e minha casa já tinha sido furtada,nem eu e nem minha epsosa queria continuar morando lá,então tive a brilhante(rs)idéia de mudar de lá e vim pra perto do trabalho e dos melhores comércios também,aluguei um ap bem ajeitadinho e aluguei minha casa pra outra pessoa,minha casa consegui pegar R$ 360,00 por mês liquido do aluguel e no apartamento pagamos o mesmo valor do aluguel,ou seja eu estou morando numa localização bem melhor sem tirar nada do bolso,mas o tempo foi passando e a inquilina queria comprar nossa casa,então a vendemos por R$ 50mil(a casa não vale muito mais que isso), porém o ap que a gente mora vale R$ 75mil (e não dá pra baixar muito),agora não tenho como comprar um imóvel onde queremos morar,mas tenho R$ 30 mil que sobrou do dinheiro da casa,pois gastei R$ 5mil pra quitar a divida do terreno da casa,pra só então poder vender,e 15mil pra inteirar e realizar meu sonho de comprar 1 carro zero, então hoje eu tenho 1 carro novo e R$ 30mil aplicados e diversos fundos, mas não tenho casa e tenho um aluguel de R$ 430,00(foi reajustado) ,fiquei pensando agora,utilizo os R$30 mil e financio o restante numa compra de um apartamento onde quero morar, serão 45mil financiado em 10 anos a uma prestacão média de R$ 750,00 por mês? ou continuo poupando até ter o valor necessário pra comprar outro imóvel? consigo poupar R$ 1mil por mês,e segundo meus cálulos vão ai 3 anos pra eu ter o money necessário, porém há uma outra hipótese ,o aluguel está R$ 430,00 ,nesses 3 anos de aplicação o valor dos juros que estarei recebendo menalmente nessa mesma aplicação será bem maior que o valor do aluguel, o que me pode motivar a continuar com o dinheiro aplicado e pagando aluguel,visto que os rendimentos crescem todo mês!o que seria mais sensato fazer?
Sandro parabéns pela iniciativa, não era seu caso mas muitas pessoas saem do sufoco de dívidas através de atitudes “corajosas” como as suas, minha opinião de humilde e pacato cidadão é: Mantenha sua aplicação e seja feliz, o que garante que daqui a alguns anos você não mude de idéia ou emprego novamente? e se isso acontecer é muito mais simples a mudança do que agora aonde você teve que vender sua casa. Outra coisa, que aplicação você fez de 30.000 que lhe rende mais de 430,00 por mês líquido?
Aceita parceria?
http://admundo.blogspot.com
gostei de seu blog…
Aguardo resposta!
Prezado Conrado,
Meus parabéns pelo excelente blog! …e pelo projeto de vida!
Tomei conhecimento do Dinheirama através do Café com Blog que acontecerá no próximo dia 30. Espero conhecê-lo por lá.
Noto apenas que não há link com a palavra-chave Crédito. Como sou envolvido com o tema há décadas, isto chamou a minha atenção.
Aproveito para convidá-lo - e também seus visitantes - a conhecer o meu Blog do Crédito. Por conta desta “pequena” crise pela qual o mundo passa, tenho tratado pouco da questão do crédito pessoal e da educação financeira, mas em breve voltarei ao tema.
Um abraço + sucesso,
Fernando Blanco
http://blogdocredito.wordpress.com
Qual é o total de juros que você paga em suas dívidas? Essa é uma pergunta muito importante… As pessoas em geral não tem noção do quanto uma diferença na taxa de juros influencia o valor da prestação mensal, impactando o seu orçamento pessoal.
Simular o valor das prestações de um empréstimo ou financiamento é fundamental antes de contrair qualquer dívida. Existem sites muito bons para se fazer isso, como o PrestaCalc:
http://www.prestacao.rg3.net
Planejamento é fundamental!
Essa para o Anderson, ainda não conseguirei R$ 430,00,mas se eu continuar no ritmo da minha poupança mensal de R$ 1000,00 aplicado todo mês em breve chegou nesse rendimento mensal!ainda mais com um mix que estou fazendo nas minhas aplicações esse mês já to com mais de 1% de rendimento liquido,rs!
Fiquei até deprê… essa é bem minha situação, falta coragem e disposição pra largar pequenos prazeres durante mto tempo pra colocar as contas em dia.. ver esse texto ajudou bastante…
Anderson, acredito que ele quis dizer a longo prazo.
Sandro, sugiro que você mantenha o aluguel do apartamento. Aqui mesmo no dinheirama tem um ótimo artigo explicando as vantagens do aluguel a médio prazo.
“Não se trata de ser mão de vaca, mas de empreender o próprio futuro a partir do que é possível fazer hoje.”
É essa a impressão que eu tenho agora que comecei a investir meu dinheiro, parece que estou sendo muito mão de vaca. Mas então estou correto.
Grato pelas informações
Valeu pessoal pelas dicas e informações. Publiquei ontem no meu blog um aritgo sobre financiamento versus Aluguel, onde elaborei uma planilha interessante que mostra qual dos 2 pode ser mais vantajogo. Gostaria de ver os comentários de vocês sobre isso. Abraços.
Sandro, o endereço do seu blog além de ser longo está fora do ar.
Tô querendo opiniões se devo vender um apartamento com valor mais ou menos de R$60000 para investir.
Como nós sabemos, o aluguel é mais ou menos de 0,8% o valor do imóvel. O apartamento tá parado mas muito em breve eu vou alugá-lo.
Não posso vendê-lo ainda porque ainda não terminei de pagar, mas será que eu devia? Visto que na grande maioria das vezes o investimento em ações é muito mais lucrativo.
Ah, na verdade o apartamento é da minha mãe, eu nunca iria pagar algo financiando. =)
Não se preocupem em dar opiniões, longe de mim criticar alguém se algo der errado.
Renato,
Testei agora o endereço do blog e está abrindo normal no google chrome,no explorer ta abrindo pela metade,isso é do servidor do blogger que está deixando a desejar,se isso continuar acontecendo vou hospedar meu blog em outro lugar, quanto ao nome do blog,ficou grande mesmo,mas é que todas opções mais curtas que eu tinha já tinham sido usado, tenta por esse link pra ver se abre: http://www.blogdoempreendedorbrasileiro.blogspot.com/
Agora vamos a sua pergunta: você disse que o apartamento tem dívida ainda,né?o interessante é quitar primeiro essa dívida, vender apartamento para transferir dívida quase nunca é bom,pois os bancos cobram uma taxa meio carinha pra transferir o financiamento,além de quem tá comprando ter que arcar com despesas de cartório duas vezes,uma quando ele transferir o financiamento pro nome dele e outra quando ele quitar,essas coisas costumam dar certo,somente quando o imóvel está sendo negociado bem abaixo do que ele realmente vale. Agora precisa saber se o imóvel não está sendo necessário para o uso da família,caso ele esteja “sobrando” quita-lo e vender pode ser boa opção,visto imóveis tem muito baixa liquidez,as vezes vão anos e anos pra vender um imóvel,e na maioria das vezes tem que baixar o preço dele pra vender,agora quando você tem o dinheiro na mão um mundo de oportunidades se abre para você,como ações,fundos,ou até mesmo renda fixa,ou se for um cara com espirito empreendedor,pode-se montar um negócio ou comprar uma franquia, se esse apartamento demorar para alugar vai ficar gerando ônus para você do condomínio,IPTU,inquilinos só destroem o imóvel,e qdo eles saem sempre fica alguma coisa pra você consertar,no Brasil não se dá hoje pra ganhar muito dinheiro com aluguel,aqui um imóvel de R$ 75mil se pega no máximo R$ 450,00 de aluguel,enquanto que numa simples poupança esse valor renderia R$ 560,00 por mês e você não teria que fazer reformas,pagar condomínio, IPTU,etc.fica aqui o meu comentário,qualquer dúvida estamos ai.
Sandro Nunes
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