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O uso inteligente do crédito, mais regulação e o Brasil

Publicado por Ricardo Pereira em 24.09.2008 na seção Economia Geral

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O uso inteligente do crédito, mais regulação e o BrasilEnquanto os países mais desenvolvidos, capitaneados principalmente pelos Estados Unidos, enfrentam uma das piores crises financeiras da sua história, o Brasil continua a apresentar resultados econômicos importantes e sólidos, como a divulgação do crescimento consistente do PIB e a expectativa de crescimento para este ano – que, ao que tudo indica, deve ficar acima dos 5%. É verdade que o crédito ficará mais caro, mas a preocupação que ronda a cabeça do brasileiro é outra: temos chance de viver uma crise semelhante por aqui?

O resultado brasileiro até aqui é muito bom. A crise financeira atual está sendo considerada sistêmica e nasceu no coração financeiro mundial (Wall Street). Crise esta que levou ao desmoronamento instituições históricas, como o Lehman Brothers, que ditavam inovações financeiras e negociavam ativos à margem de regras demasiadamente liberais (palavras de alguns economistas). Por enquanto, sobrevivemos bem.

A pergunta retórica entre os especialistas é bem direta: qual o real motivo da crise? O que alimentou todo esse transtorno para os americanos e para o mundo? Agora fica fácil convencer a opinião pública de que a crise vinha se desenhando, especialmente por conta da liberdade e alavancagem do sistema financeiro norte-americano. Vemos seu reflexo na bolsa de valores[bb] brasileira, mas o que mais devemos levar em conta?

Hoje vemos um Fed diante de um presidente (Ben Bernanke) combalido, tentando convencer os congressistas americanos do que parece não ter uma explicação lógica. Afinal, como explicar algo que tem sua eficácia ainda muito discutida? Como explicar a necessidade de um socorro emergencial de US$ 700 bilhões em poucos dias?

Com o poder, o contribuinte
Como será que reagirá o contribuinte americano? Sim, aquele que tem suas aplicações em bancos de varejo ou que investe em um pequeno negócio próprio, mas esta fora do mercado financeiro[bb]. Indignação? Fica a impressão de que, quando o bolo cresce e fica suculento, quem está fora do sistema simplesmente não é convidado à mesa para receber sua fatia.

Acredito,  como outros colegas que analisam de perto o noticiário econômico, que, em breve, o congresso acabará cedendo e liberará o empréstimo. Como sempre, tudo para evitar um mal maior, um crash mais crítico do mercado. Os contribuintes participarão da conta. Paciência.

A lição que fica dessa história toda precisa ser bem trabalhada: parece óbvio que o sistema financeiro americano precisa de regulação e maior controle por parte das autoridades monetárias, mas as inovações financeiras não tentarão, de formas igualmente surpreendentes, avançar pela marginalidade destas novas regras?

Enquanto isso, no Brasil…
Voltando para a nossa realidade, alguns pontos em comum com o crescimento do crédito americano, que no decorrer do tempo levou o pais rumo à crise financeira, merecem atenção e algum debate.

O crédito no Brasil ainda é pequeno em relação ao PIB: algo em torno de 36,5%. No entanto, alguns indicadores começam a preocupar o leitor mais atento e que se preocupa com a hipótese de uma crise semelhante aparecer por aqui:

  1. O país possui o dinheiro mais caro do mundo. Quem não conhece as taxas de algumas modalidades, como cheque especial e o crédito rotativo do cartão de cartão de crédito? Algo perto da imoralidade;
  2. Os brasileiros não estão acostumados a lidar com o crédito fácil (não confundir com barato) e as dívidas acabam se tornando bolas de neve, com enorme potencial de destruição. Expandir demais essas opções cria um sem número de pessoas endividadas e que, em algum momento, podem não ter condições de honrar seus compromissos.

A jornalista Mirian Leitão tem interessantes dados sobre o crédito, publicados em um recente artigo de sua autoria:

“Em dezembro de 2004, os brasileiros tinham R$ 17 bilhões em empréstimos consignados. Em junho de 2008 o valor chegava a quase R$ 73 bilhões. No mesmo período, o crédito pessoal pulou de R$ 43 bilhões para R$ 116 bilhões. Os empréstimos para pessoas físicas saíram de R$ 134 bilhões para R$ 315 bilhões.”

Os números impressionam. Mas calma. No Brasil, as regras de concessão de crédito são muito mais rígidas que nos EUA, o que é um ponto relevante em uma discussão desse gênero. Tudo pode se complicar, claro, se a crise durar muito tempo e atingir de forma mais intensa nosso país.

Entendendo o efeito dominó
Com a crise ou desaquecimento da economia em níveis alarmantes, o primeiro sinal evidente sempre é o aumento do desemprego. Como a coisa toda se desenrola? Pense nestes cidadãos sem emprego e com dívidas ainda em andamento. O pouco que lhes resta será usado para o bem da família, alimentação, cuidados pessoais e etc. A dívida é deixada de lado.

É fácil imaginar os desdobramentos em cadeia que a inadimplência causaria, certo? Afinal, quantos milhões financiam casas, apartamentos e outros bens de consumo? Diante desse cenário, voltamos a afirmar: crédito fácil pode ser um perigo para as finanças pessoais[bb]. Evite essas opções, seja honesto e prático com seu futuro: planeje as compras e use só o dinheiro que você já tem. Seu bolso e o país inteiro agradecem.

——
Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

9 comentários
  1. Imagem do comentarista
    Alfredo Ritche Kockers

    Com certeza isso vai acontecer tambem no Brasil e eu já sei até onde: pelos carros.

    O povo comprando carro de R$100.000,00 pagando o dobro em 99 meses não pode acabar bem.

    O certo gostem ou não é ser feito o Tio Patinhas ou o Navarro e andar só a pé pra economizar cada centavo

  2. Imagem do comentarista

    Artigo muito pertinente Ricardo, gostei da idéia de lançar este debate. Acredito que por aqui as regras são mesmo mais rígidas e nosso volume de crédito ainda é baixo se comparado às garantias em geral. No entanto, o consumo abusivo observado em alguns setores, como bem lembrou o leitor Alfredo, preocupa sim. Não vejo um subprime nacional no horizonte de curto ou médio prazo, mas é bom ficar de olho.

    Alfredo, obrigado pela participação. Na verdade eu não ando a pé não, mas em um carro pago com dinheiro poupado e negociado à vista (com um bom desconto). (risos). Não precisamos exagerar muito, a idéia é planejar e poupar. Mas concordo que com o atual apelo isso é difícil.

    Abraços a todos.

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    Como o Alfredo disse, acho que o grande problema é o crédito automobilístico… Na questão dos imóveis a gente ainda está relativamente tranquilo, as exigências são muitas (apesar de que existe uma classe média alta investindo pesado em imóveis e trocando de apartamento sem parar, lembra um pouco o inicinho da bolha americana).

    Voltando aos carros: qualquer um consegue um financiamento em intermináveis prestações. As operadoras de cartão de crédito também estão com a corda a toda. Outro dia um amigo, profissional liberal, recebeu um cartão de crédito com limite de 15 mil!

    Ano que vem promete…

  4. Imagem do comentarista
    anderson

    nessas ocasiões, a burocracia ajuda a frear um pouco essa louca procura por status…

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    Aureo Vilas Boas

    Tenho um certo receio quando falam que, no Brasil, as regras de concessão de crédito são bem mais rígidas (financiamento imobiliario sim), em se tratando de carros (onde com 1 real de entrada, é possivel ter seu possante numa BV da vida, com dezenas de parcelas que cabem no bolso) e financeiras (que oferecem dinheiro vivo a incautos no meio da praça de qqr cidade grande), com a promessa de emprestimo rapido, fácil e sem consultas ao SPC e Serasa, me parece que não é tão rigido assim…seria o nosso mini sub-prime!
    E quem ainda não recebeu cartão de credito em casa, sem ao menos ter pedido! Dificil concordar com essa rigidez na concessão de credito. Meu banco (Bradesco) fez desaparecer 87% de uma divida (com juros abusivos) no cheque especial e no cartão de credito de meu caseiro, quando percebeu que jamais receberiam o montante. O pobre pagou o débito (sem toda aquela gordura dos juros)a vista 16 meses depois. Já recebeu um outro cartão, mas eu o fiz quebrar…rs

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    Daniel Pondé

    Cartão de crédito parece uma maravilha, compramos muitas coisas e continuamos a ver o nosso dinheiro na carteira. Mas é aí que está a cilada, não controlamos nossos impulsos e começamos a gastar, ignorando nossas próprias condições financeiras. Os juros são um absurdo. Indivíduos que são impulsivos acabam caindo na armadilha e pagam o dobro, triplo, do valor de um produto adquirido (juros nos infernos-como diria um conhecido). Carro novo? Parece sacanagem, fotos de carros maravilhosos e escritos: 0 % de entrada. As pessoas (empresas) sabem mesmo como exarcebar a vontade dos outros. Uma pena poucos entenderem esse lado da moeda.

  7. Imagem do comentarista

    A propaganda por facilidades de pagamento bate forte na cara do consumista impulsivo que mal sai de uma dívida grande e já entra em outra. Crédito fácil para compras absurdas existe em toda esquina mas pessoa que fala de educação financeira, infelizmente é 1 a cada 10. Adoro esses artigos! Um abraço!

  8. Imagem do comentarista

    Pessoal desculpe,passei o endereço do meu blog errado,este é o certo: http://www.blogdoempreendedorbrasileiro.blogspot.com/
    coloquei um artigo no meu blog muito interessante que mostra que talvez existam opções mais interessantes do que entrar logo num financiamento imobiliário.

  9. Imagem do comentarista
    Cesar

    Olha só o que o Carlos Lessa disse a respeito dessa crise, achei muito lúcido e me preocupou bastante, como disse o Alfredo no primeiro coment, ele esta bem preocupado com a bolha dos carros e vai mais além querendo inclusive uma revisão completa no sistema financeiro mundial. Dêem uma lida e tirem suas próprias conclusões.
    http://www.defesanet.com.br/br/finance.htm

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