Entendendo o caso Sadia e o prejuízo de R$ 760 milhões
Publicado por Conrado Navarro em 29.09.2008 na seção Ações, Derivativos
Renato comenta: “Navarro, estou um pouco confuso. Sou acionista da Sadia, recebi um comunicado deles explicando um pouco sobre o prejuízo de R$ 760 milhões, mas fiquei curioso para entender melhor o que exatamente aconteceu. Entendi que foram operações relacionadas ao dólar, ao câmbio, mas sua didática se faz essencial para que possamos, eu e seus demais leitores, compreender a razão real do prejuízo. Pelo que li, tudo tem a ver com operações no mercado futuro. É isso? Obrigado.”
Um prejuízo da ordem de R$ 760 milhões é realmente algo que merece muita atenção. A dúvida a respeito do que realmente aconteceu mostra que os nossos investidores estão cada vez mais engajados em suas decisões, o que traz muita alegria ao colega que aqui escreve. Fico deveras feliz! A Sadia é uma empresa que exporta muito e, por isso, tem íntima relação com a moeda americana. Sim, daí surgiu a perda anunciada na semana passada.
Hedge e o mercado futuro
Muitas empresas e grandes investidores usam o mercado de opções para fazer o chamado hedge, uma forma de garantir suas aplicações e protegê-las de eventuais volatilidades exageradas. Aposta-se na alta ou baixa de determinados ativos e(ou) moedas. A lógica do mercado de opções pode ser conhecida no artigo “As opções e o direito de decidir”, publicado aqui no Dinheirama e também na série de artigos sobre mercado a termo publicados no Iniciante na Bolsa. Ah, sim, a Sadia…
…A Sadia lançou opções de dólar na BM&F Bovespa, com prazo de 12 meses, na expectativa de comprar a moeda com preço mais baixo ao final deste período. Em outras palavras, ela vendeu contratos futuros de câmbio apostando na queda da moeda. Quem compra, a contra-parte, espera que o valor suba. No vencimento, as partes se ajeitam. No frigir dos ovos, o objetivo era comprar dólares baratos no mercado à vista e revendê-los pelo preço do contrato futuro (mais alto).
O que deu errado?
A BM&F Bovespa exige que os signatários de contratos em aberto (aqueles ainda não liquidados, como os da Sadia) depositem, todo dia, garantias equivalentes a uma fração do contrato. O procedimento visa evitar problemas de inadimplência nas negociações de futuros. Na prática, isso significou para a Sadia aportar, todos os dias, cada vez mais dinheiro (afinal, o dólar disparou) nestas garantias exigidas, conhecidas como margens.
Assim, com o dólar subindo e as garantias a serem depositadas também crescendo, a influência da operação no caixa da empresa pode ter começado a pesar mais do que o planejado. Isto é que se pode deduzir, já que não há confirmação da empresa. O dólar deve voltar ao patamar de R$ 1,70, mas diante da volatilidade e do risco no fluxo de caixa da empresa, a decisão foi a de liquidar antecipadamente o contrato, registrando então o prejuízo.
Então o prejuízo veio como conseqüência de uma decisão?
Exatamente. Ao tomar conhecimento da exposição excessiva da empresa no mercado de derivativos (alguns analistas afirmam que ela era o dobro do autorizado pelo conselho de administração), a diretoria decidiu recolocar a empresa no rumo acertado com seus acionistas. Para isso, liquidou suas operações, comprando opções na mesma quantidade dos contratos anteriormente vendidos. Isso custou R$ 760 milhões, a demissão do diretor financeiro e muita desconfiança no mercado - as ações chegaram a cair 42%.
Mas não se assuste, hedge é comum!
Você deve estar pensando: “Mas o negócio da Sadia não é produzir e processar alimentos”? Sim, sem dúvida. No entanto, operações de hedge no mercado de derivativos são comuns em empresas com bom fluxo de caixa e capital para aplicações financeiras. O problema, como sempre, são os limites, claramente extrapolados no caso Sadia.
O jornalista econômico Luis Nassif, autor do livro “Os Cabeças de Planilha”, escreveu um excelente artigo sobre o prejuízo da Sadia. De leitura simples e rápida, o texto esclarece muito bem a questão e traz considerações importantes sobre o que pode acontecer com a crise e seus efeitos. Imagino que o colega também tenha sido indagado por seus leitores a respeito. Excelente!
Entendido o problema, fica o alerta: as empresas não podem abrir mão de seus objetivos principais, nem especular com aquilo que não está ligado diretamente aos seus fatores de produção e produtos. O mercado pune, o acionista sofre e a empresa fica com sua reputação abalada. Nós, os acionistas, temos que investigar, compreender e participar. Como fez o leitor que originou este texto.
Crédito da foto para stock.xchng.
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17 comentários
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Só não entendo o porque que nenhuma corretora conseguiu ver isso e alertar seus clientes antes do problema acontecer.
E hoje a Sadia desabando mais 7%… triste a situação para quem é acionista.
Justamente o que já foi comentado acima. A essa altura do campeonato, não tinha ninguém monitorando isso afim de evitar tais prejuízos? Não foi criado nenhum sistema de alertas?
Só não entendo o porque que nenhuma corretora conseguiu ver isso e alertar seus clientes antes do problema acontecer. (2)
A conclusão que eu chego com tudo isso é:
1) os analistas não enxergam nada muito além de nós;
2) devemos ter um plano de investimento e seguí-lo;
3) se eu fosse acionista da Sadia, cobraria uma resposta das corretoras que há pouco tempo atrás indicaram Sadia para compra;
É realmente dificil de acreditar em tamanha organização. As pessoas q investem em ações realmente se esquecem de ler as noticias e nem sempre acreditar no que os esecialistas dizem, e sim acreditar em seu feeling! Estou ao mesmo tempo fascinado com essa queda e a possibilidade das pechinchas, e ao mesmo tempo surpreso por tamanha destruição que ainda possa vir! Meus planos de investimento na bolsa não mudaram, e tb passarei a investir em consórcio de imóveis.
E o pior é que já não é a primeira vez, já é a segunda vez que a Sadia faz isso.
Não deve ter sido só a Sadia que teve um grande prejuízo…
Com certeza não foi só a Sadia, mas o caso da Sadia, considero eu, foi falta de responsabilidade, falta de transparência, falta de honestidade da diretoria para com o conselho, e isso mancha de forma terrível a reputação da empresa.
Eles “jogaram” no mercado com o dinheiro dos acionistas, e o negócio da Sadia não é mercado financeiro, e sim produção/venda/exportação de alimentos.
Assim penso eu.
Parabéns pelo post!
[...] das empresas que teve sua gestão divulgada foi a Sadia, a qual perdeu 760 milhões de reais. No blog Por dentro das empresas, da Exame cita a fala do presidente da Suzano papel e celulose, [...]
Essa irresponsabilidade me deixou MUITO decepcionado. Nao estou sofrendo com a desvalorizacao dos meus papeis, sigo a linha do value investing e longo prazo para mim ‘e acima de 15 anos.
Mas nao esperava que isso acontecesse com a Sadia, pois eles entendem mesmo é frango, e não derivativos.
Enfim, estou decepcionado e bravo.
a maioria dos executivos que a sadia contrata nao sabe se um frango tem pena ou nao.mas nao se preocupem esse prejuizo sera pago pelos funcionarios.
aos acionistas cuidado, esta administracao é péssima, náo sei como este presidente ainda esta ai.
[...] os rumos da moeda não é nada fácil. Aliás, é algo bastante difícil. Quem não se lembra do Caso Sadia? Depois dele, outras empresas também já anunciaram grandes prejuízos. No entanto, o presente [...]
[...] os rumos da moeda não é nada fácil. Aliás, é algo bastante difícil. Quem não se lembra do Caso Sadia? Depois dele, outras empresas também já anunciaram grandes prejuízos. No entanto, o presente [...]
[...] os rumos da moeda não é nada fácil. Aliás, é algo bastante difícil. Quem não se lembra do Caso Sadia? Depois dele, outras empresas também já anunciaram grandes prejuízos. No entanto, o presente [...]
Com certeza, uma grande imprudência o que a Sadia fez.
Estando o dólar num patamar baixo (que não se via a anos) e ainda apostar na desvalorização da moeda nos próximos 12 meses…
Gostaria de saber qual o fundamento utilizado na análise desta prospecção. Feeling ! Hum…