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Crise, seu dinheiro, Brasil, medo e investimentos. E agora?

Publicado por Ricardo Pereira em 01.10.2008 na seção Economia Geral

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Crise, seu dinheiro, Brasil e investimentos. E agora?Nos últimos dias, o agravamento da crise financeira nos EUA proporcionou ao mundo uma verdadeira histeria. Ninguém entende como uma crise tão amplamente discutida pode ter alcançado tamanha proporção. Não se fala de outra coisa, e-mails com dúvidas relacionadas ao problema não param de chegar. Tudo isso é normal, afinal crises são momentos que nos tiram de nossa zona de conforto. Assim, peço licença para colocá-lo diante de mais um texto sobre o tema.

Quem não pensa diariamente nos seus investimentos em ações[bb] ou na situação da bolsa de valores? Pois é, no esteio da discussão que busca entender o que houve e quais as repercussões que o sistema capitalista trará para o futuro, cabem algumas reflexões pessoais muito apropriadas para o momento. Prometo ser breve e objetivo, mas sem ser repetitivo.

Entendendo a crise
A origem da crise passa pelo crédito. No Brasil, existem alguns instrumentos de análise de crédito que muitas vezes barram financiamentos para consumidores com restrições financeiras e(ou) histórico de problemas de inadimplência. Nos EUA, a situação é (era?) bem mais liberal e o crédito super facilitado.

A facilidade na concessão de crédito para pessoas com histórico ligado a problemas financeiros é tida como ação de origem da crise. Simples assim? Bom, desde o inicio do seu mandato, o Presidente George W. Bush deu asas a uma política fiscal muito contestada (tida como pouco responsável). Tudo para levantar o apoio popular, segundo diziam cientistas políticos.

O Estado aumentou seus gastos, diminuiu suas receitas e viu, inerte, o mundo todo assistir à desvalorização do dólar. No final, a conta veio bem salgada. A economia americana, que hoje é realmente apresentada como estagnada, já não apresentava crescimentos sólidos. Com o aumento do desemprego, as pessoas perderam seu poder de compra, sua renda diminuiu e elas deixaram de pagar os financiamentos, as hipotecas e frearam o consumo de uma maneira geral.

Onde a crise nos afeta?
O mercado financeiro[bb] é global, afirmação que não é mais segredo para ninguém. Mas por que nós brasileiros, com um punhadinho de ações da Vale ou Petrobras, temos que pagar também a conta da quebradeira do Merrill Lynch ou do Lehman Brothers?

Quem não ouviu falar na frase “O mundo é plano”, cunhada por Thomas L. Friedman? Pois é, a frase virou livro. A quebra dessas instituições, marcos do poderio financeiro americano, coloca em xeque o potencial e os desdobramentos daquela que ainda é a maior economia do mundo. O mundo, assustado, pára e observa. Com muita atenção.

Na prática, milhões de pessoas deixarão de consumir e comprar bens e serviços de países como Brasil, China, Índia entre outros. O dinheiro ficará mais caro, já que o medo faz com que os grandes financiadores do giro econômico lastrem seu capital em títulos de risco baixo (para não falar debaixo do colchão). Além disso, os bancos com problemas têm menos recursos para emprestar.

Assim, surgem algumas importantes questões:

  • Como as empresas conseguirão se capitalizar?
  • O dinheiro mais caro fará com que as empresas diminuam seus investimentos nos anos seguintes?
  • O plano de crescimento de médio e longo prazo está, então, comprometido?

Teste de fogo
Muito se comenta que o Brasil de hoje está, pelo menos em termos econômicos, muito mais preparado do que no passado para atravessar uma crise financeira[bb]. Entretanto, a dimensão da crise e seus desdobramentos são tão inéditos quanto nossa situação econômica enquanto nação.

Parece que estamos diante do momento crucial de nossa política econômica. Estamos próximos de presenciar a quebra (ou não) do paradigma: a economia brasileira se desenvolveu a ponto de ser capaz de transpor esse momento delicado sem muitos hematomas?

Outro ponto fundamental a analisar é o caminho do governo no meio da tempestade. Afinal, enquanto o céu permanecia limpo e sem nuvens escuras, o Brasil navegou velozmente rumo ao crescimento. Por isso mesmo, acredito que uma das saídas para diminuir os efeitos da crise passa pela economia interna.

Talvez seja o momento de incentivar a produção industrial e estruturar melhor os planos de crescimento sustentável, priorizando um salto de qualidade nas indústrias de energia, tecnologia e infra-estrutura. Isso tudo, porém, depende de política monetária e da queda dos juros básicos.

Eu, você e a postura em relação à crise
Como o Navarro destacou, a segunda-feira foi um dia histórico. Ligações e mais ligações de gente desesperada, acreditando piamente no fim do capitalismo no derretimento de seus ativos, eram comuns. A histeria trouxe consigo o efeito manada e a falta de critério, o que levou as pessoas a tomarem atitudes sob forte apelo emocional. Isso não é nada bom.

Está claro que quem vendeu ações na segunda, ontem já começou a amargurar os maus reflexos da decisão desesperada. Claro, a volatilidade continuará, pois é difícil acreditar que, apenas com a aprovação do pacote financeiro, todos os problemas se resolverão. Vivemos tempos difíceis, em que muitas dúvidas e reviravoltas ainda existirão.

O grande desafio que surge é entender que a crise, ao contrário do que muitas pessoas estão pregando, não é o fim dos tempos. Possibilidades surgem e merecem ser estudadas. A questão fundamental é: não podemos ficar de braços cruzados, com uma postura tipicamente submissa. Não faz bem!

Que tal aproveitar o momento e reavaliar seus objetivos e investimentos[bb]. Alguns precisam ir além e entender que nem tudo gira em torno do mercado de ações[bb]. Aproveitar os altos juros pagos no Brasil, através do Tesouro Direto, já passou pela sua cabeça? E os CDBs? Leia mais sobre eles:

É importante ter consciência do que pode complicar ainda mais momentos como este. Assim, não faça dívidas, principalmente financiamentos de longo prazo. O crédito ficará mais caro e controlar os gastos é um dos melhores caminhos para atravessar bem momentos de crise.

Para quem pretende continuar investindo em ações, o melhor é participar com mais critério da vida das empresas (vide o caso Sadia, ainda difícil de engolir). Acesse a seção RI dos sites das empresas, busque contatos relevantes lá dentro e lance perguntas sobre  planejamento e os possíveis impactos da crise nos negócios da companhia.

Desperte interesse pelos números, resultados, balanços, demonstrações financeiras e projeções das empresas e do mercado que ela participa, especialmente levando em conta o médio e o longo prazos. PARTICIPE, você é acionista, é dono! Até sexta.

——
Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

10 comentários
  1. Imagem do comentarista

    Muito bom artigo. Aproveitando, na sua opinião, outros tipos de investimento (VGBL, CDI, …) correm algum tipo de risco? Sua rentabilidade tende a cair ou a aumentar?
    Abraço!

  2. Imagem do comentarista
    Marcos Gomes

    Excelente artigo! Diante do comentário: “É importante ter consciência do que pode complicar ainda mais momentos como este. Assim, não faça dívidas, principalmente financiamentos de longo prazo. O crédito ficará mais caro e controlar os gastos é um dos melhores caminhos para atravessar bem momentos de crise.” Sendo assim, gostaria de uma opnião, pois, justamente agora solicitei um financiamento de um veículo usado em 48x e fiquei surpreso pela alta dos juros! Como preciso do veículo o que eu faço diante dessa situação que estamos vivendo, financio ou não? Vale a pena arriscar? Obrigado.

  3. Imagem do comentarista

    Ricardo, o artigo ficou muito legal. O que eu sempre me pergunto é se essa crise é externa ou também das empresas brasileiras. Apesar de já ter ficado claro que uma crise internacional como essa afeta diretamente (porém não como antes) os negócios e o mercado de ações brasileiro, eu ainda acho que as empresas foram demasiadamente castigadas (preço muito aquém do valor real) e, para investidores de longo prazo, vivemos um período de grandes oportunidades nessa área.

    Entretanto, ninguém sabe até quando vai durar e até quanto ainda vai afetar o nosso mercado, mas continuo confiante no longo prazo.

    Abraço!

  4. Imagem do comentarista
    anderson

    mto bom Ricardo…
    meus CDB’s me salvaram este mês ….

  5. Imagem do comentarista

    Boa tarde Caaoum, como vai? Obrigado pela participação.
    Todos os investimentos que de certa forma possuem em sua composição algo de renda variável, tendem a ter uma grande variação na rentabilidade principalmente nesses próximos mêses, inclusive os PGBL, VGBL que variam a composição da carteira. O fato concreto é que aqueles que não tiverem estomâgo para suportar o sobe e desce dos próximos meses devem optar pela renda fixa, e em alguns produtos aproveitar os juros altos praticados no Brasil.
     
    Rafael Seabra, tudo bem? Um super abraço aos amigos do Quero Ficar Rico, blog muito bom, recomendo a leitura.
    Compartilho a percepção quanto aos desdobramento da crise por aqui, principalmente pela questão dos fundamentos de nossa economia, mas de qualquer forma o impacto se torna natural na medida que fica clara a participação estrangeira na nossa bolsa, eles ditam as regras por aqui e sem nenhuma cerimonia “puxam o carro” no primeiro índice ou dado fora daquilo que eles acreditam ser o “ideal”. 
    Ninguém sabe quando a crise acabará, mas sabemos que ao menos no próximo ano ele influenciará no nosso crescimento. Infelizmente.
     
    Olá Anderson, realmente os CDBs são uma boa opção nos últimos meses, principalmente porque ainda possuem a segurança do Fundo Garantidor..
    Forte abraço para todos.
     

  6. Imagem do comentarista

    Olá Marcos Gomes, muito obrigado pelo feedback, muito importante para nós.
    Bom, já que pediu uma opinião sobre o assunto, vamos lá: Aqui no Dinheirama, orientamos que o financiamento deve ser realizado em última circunstância. Sabemos o quanto os juros são altos e implicam muitas dificuldades no pagamento no decorrer do tempo, tornando o bem muito mais caro. O ideal é economizar e efetuar o pagamento à vista com desconto, ou no mínimo com uma boa entrada diluindo as demais parcelas em um prazo pequeno.
    Agora pelo que nos disse, você precisa do bem, não é mesmo? Se não tiver nenhuma alternativa, não existe muito o que fazer.
    Para ajuda-lo na sua reflexão, encontrei alguns bons artigos do Navarro onde o tema carro/financiamento foi discutido em forma de artigos sempre com muitos comentários de leitores.
    Se ainda assim persistir alguma dúvida, não exite manter o contato.
    A compra do carro e as desculpas esfarrapadas
    Carro não é investimento. Ponto.
    Carro: sonho ou pesadelo? Você decide!
    Financiar o carro é fácil! Pagar, nem tanto!
     
    Abraço.

  7. Imagem do comentarista

    [...] outros artigos da semana deixam clara a nossa opinião sobre a magnitude e seriedade dessa crise. Também acreditamos que o pacote de salvação não será suficiente. Por um bom tempo, a [...]

  8. Imagem do comentarista
    silvana

    qual a sua opinião sobre o futuro do crédito no Brasil diante dos últimos acontecimentos?

  9. Imagem do comentarista

    Olá Silvana tudo bem?
     
    Obrigado pela sua presença e comentário.
     
    Diante dos últimos acontecimentos é inegável considerar que durante os próximos meses teremos muitas restrições ao crédito, os bancos terão dificuldade para se capitalizar e ao mesmo tempo os empréstimos/financiamentos às pessoas fisicas ficará estagnado.
     
    Interessante notar que principalmente os financiamentos de automóveis que chegaram a prazos super estendidos (até 99 parcelas), terão o tempo encurtado para 48 ou no máximo 60 meses. Isto de certa forma poderá até beneficiar o consumidor que obrigatoriamente terá que
     
     economizar até conseguir um bom valor para dar de entrada e financiar um valor menor.
     
    Penso que as empresas também terão alguns problemas, mas que podem ser compensados com o aquecimento da economia interna e com algumas ações do governo, principalmente na questão do comércio exterior. O BNDES pode trazer liquidez imediata para esse seguimento e levar tranquilidade aos empresários.
     
    Acredito que o Brasil está diante de um cenário difícil, conturbado mas de grandes oportunidades. A fonte externa secará, mas os fundamentos do país garantem o crescimento para 2.008 de no mínimo 5% para o PIB e se prevê 3,5% para 2.009. É importante garantir o crescimento sustentado, esse é o caminho com cautela mas com atitude.
     
    Muito obrigado.

  10. Imagem do comentarista

    México
    Acho que o México tende a sentir os efeitos negativos da crise mais, e antes que o Brasil. O país obviamente tem sua economia mais dependente da economia americana que qualquer outro país do mundo.
    Seria uma oportunidade para o Brasil assumir de vez a liderança da AL?
    Chafi
    mossadin.com

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