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Brasil, investimentos, Bovespa e Selic em tempos de crise

Publicado por Conrado Navarro em 13.10.2008 na seção Economia Geral

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Brasil, investimentos, Bovespa e Selic em tempos de criseFabio comenta: “Oi Navarro. Estou lendo na imprensa que os juros estão subindo e que isso vai afetar os empréstimos, entre outros produtos bancários. Bateu uma dúvida: e quanto aos investimentos? A alta dos juros pode afetar ‘positivamente’ a rentabilidade de aplicações como a caderneta de poupança, os fundos de renda fixa e/ou os títulos negociados através do Tesouro Direto? Poderia dar mais detalhes sobre a alta os juros e seu impacto nas nossas aplicações do dia-a-dia? Obrigado”!

Algumas dúvidas pairam na economia brasileira. Enquanto o cenário mundial se deteriora, muitas reflexões são freqüentemente lançadas aos leitores por jornais e pares da mídia especializada: que efeitos a crise já trouxe para o país? O que mais podemos esperar de reflexos por aqui? Como vai ficar a taxa Selic e os investimentos com ela relacionados? Os juros ficarão mais altos nas operações de crédito? O que deve fazer o brasileiro comum diante de tanta baderna?

Primeiro, as bolsas de valores
A preocupação mais comum de leitores e participantes do Dinheirama refere-se aos investimentos na bolsa de valores. Com razão. A ação coordenada dos Banco Centrais pelo mundo não esperava resposta tão agressiva. O medo e o pânico dos investidores também se alastrou de forma perigosamente “ordenada”. Vimos as bolsas mundiais despencarem cerca de 20% só na semana passada - perdas da ordem de US$ 6,2 trilhões. Será que o pior já passou?

Representantes do FMI afirmam ser possível vivenciar quedas ainda acentuadas nos mercados de ações mundiais durante o mês. Segundo o declarações do Fundo Monetário Internacional, publicadas pela Folha, o sistema financeiro está “à beira do derretimento”. Olivier Blanchard, economista-chefe do órgão, estimou em 50% as chances de o mundo entrar em recessão:

“No pior cenário, os governos ainda vão precisar de algumas semanas para corrigir as medidas que estão sendo tomadas, e os mercados podem cair outros 20% antes de se recuperarem” (jornal Folha de S. Paulo de 12/10/2008)

As análises são sempre comedidas e muito cautelosas, embora muitas vezes haja claro e proposital exagero em certas declarações. A semana será intensa e o debate econômico mais uma vez pautará as decisões de muitos investidores. Está claro que as bolsas derreteram e que podem cair mais, o que tende a nos colocar diante de boas oportunidades de compra. Se os preços estão muito abaixo de seu valores justos, é hora de se mexer e comprar, certo?

Sim, mas uma nova questão deve também pautar as decisões de compra dos que desejam se aventurar no mercado de renda variável: como os efeitos da crise, e eventualmente de uma recessão, afetarão os negócios, os planos de investimento e os resultados da(s) empresa(s) em que você pretende investir? Com esta questão, pretendo alertá-lo para um debate relevante, por hora mais experimental, sobre os reflexos do problema financeiro mundial.

Os efeitos da crise
Por aqui vivemos um perigoso efeito colateral da enorme diminuição no fluxo de riquezas entre países e mercados: o fantasma da paralização da economia real por conta da diminuição do crédito disponível para o crescimento e livre circulação de recursos entre empresas, cidadãos e governo. Na prática, isso significa ver empresas e pessoas investindo (e gastando) menos, o que desaquece a economia.

Financeiras e bancos já estão revendo suas operações de financiamento e empréstimo. Os juros para estas operações tende a subir, já que há menos dinheiro disponível para fazê-los funcionar de forma mais abundante. Em suma, o dinheiro ficará mais caro. Além disso, operações complexas de derivativos, realizadas por inúmeras empresas no Brasil, também assustam e criam uma importante distorção no valor de nossa moeda perante o dólar.

Os rumos da Selic
Nações por todo o mundo decidiram, em um movimento histórico, baixar os juros. O objetivo? Estimular a economia, baratear o capital e demonstrar união. Será que a tendência natural é ver o Brasil rumando no mesmo sentido? A próxima reunião do Copom, daqui cerca de três semanas, vai dar pistas do comportamento de nossas autoridades diante da questão. Alguns analistas e economistas arriscam suas previsões e fazem importantes observações em mais uma ótima matéria do Infomoney.

Como tudo isso afeta sua vida?
A leitura do artigo deve ter causado certa ansiedade. Natural. Escrevê-lo também me deixou bastante nervoso, especialmente por conta da responsabilidade de tentar colaborar para que você tome melhores decisões diante deste cenário tão intenso e imprevisível. Assim, optei por lançar alguns pontos que julgo essenciais para entender como tudo isso afeta nossas vidas:

  • Financiar e pegar dinheiro emprestado vão se tornar operações mais caras. Juros do cartão de crédito, do cheque especial ou do consignado tendem a subir. Ou seja, se você tinha planos de financiar algo ou comprar algum bem usando o crediário, reveja sua decisão. A hora é de comprar à vista;
  • Menos dinheiro na praça significa desaquecimento também no mercado de trabalho. Demonstre interesse pelos efeitos que a crise pode trazer para sua empresa e seu emprego;
  • Diferentemente do nossso querido presidente, indústria e comércio já esperam queda nas vendas de Natal. Compre presentes que caibam no orçamento, pagando sempre à vista. Janeiro chegam os carnês e contas do IPTU, IPVA, material escolar e etc, não é mesmo? Cuidado;
  • Produtos importados e(ou) que usam insumos importados terão seus preços reajustados. Quando, como e em que proporção, não se sabe ainda;
  • A bolsa continuará agitada. Se você tem patrimônio em ações e pretende resgatá-los no futuro distante, mantenha o coração sob controle e prefira a razão. Se você acha que é hora de entrar, mas sente-se intimidado e assustado, prefira esperar a tensão passar. Se você sabe o que fazer e já se decidiu, aja;
  • A taxa Selic deve se manter entre 12% e 14% pelo próximo ano. Assim, se você não quer grandes emoções, invista em títulos do governo - Tesouro Direto - ou em produtos a eles relacionados, como fundos de renda fixa, DI, entre outros;

Os ingredientes fundamentais para momentos como este são: disciplina, informação, bom senso e atenção. Não é hora de endividar-se ainda mais, nem de fazer a loucura de viajar para lá e para cá, comprando tudo o que vê com o cartão de crédito. Por outro lado, se parar completamente de gastar, a economia também esfria. Compre, faça o que tem que fazer, mas sem prejudicar seu orçamento e sempre respeitando sua estratégia de investimento. Assim você já faz sua parte no combate à crise. Ufa.

Crédito da foto para stock.xchng.

2 comentários
  1. Imagem do comentarista

    Navarro, e quem já se individou? Deixe-me explicar melhor:
    a) Tenho uma dívida corrigida mensalmente pelo INCC
    b) Tenho uma aplicação (1/3 da dívida) em VGBL (o mais conservador, ou seja, sem ações)
    c) Tenho uma aplicação (1/3 da dívida) a 98,5 do CDI
    d) Pago uma carta de crédito (1/3 da dívida) corrigida pelo INCC
    e) Vendi meu apartamento na alta, e pagarei aluguel durante 2 anos
    Você acha que corro algum risco?

  2. Imagem do comentarista
    Ana Paula

    OI Navarro!
    Texto super explicativo. Muito bom, como sempre!
    Parabéns.
    Abs.

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