Compromisso: a importância de fazer o que fazemos!
Publicado por Conrado Navarro em 20.10.2008 na seção Educação Financeira, Internet
E o mundo (ainda?) não se acabou. Este é o título da coluna do ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, publicada no domingo passado (dia 12/10/2008). Carlos Eduardo Lins da Silva, atual responsável por criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação, usou um título bastante chocante para denotar a importância de seu recado: os cadernos de economia de alguns jornais não tratam o noticiário econômico de forma acessível e humana, abusam do “economês” e se esquecem dos leitores menos intelectuais.
Como alerta inicial, Carlos aponta a pequena quantidade de correspondências e mensagens comentando a crise que foram direcionadas ao Painel do Leitor da Folha. Será que o brasileiro que lê jornal não tem mesmo nenhuma preocupação com a dimensão da crise econômica internacional pela qual passa o mundo? Será que, como suspeita o ombudsman, ainda estamos muito mais interessados no Brasileirão que nos problemas financeiros da família?
Parece-me que as respostas para ambas as questões passam pelo “sim”, o que nos leva a uma pergunta mais pertinente e muito mais complexa: como influenciar famílias e leitores de forma a criar neles o interesse genuíno pela agenda econômica de seu país e seus desdobramentos em sua vida particular? Ora, aproximando os temas da realidade do brasileiro, usando linguagem acessível e exemplos cotidianos pertinentes. A resposta, embora objetiva, tem seus desafios - que não são poucos.
Vejamos o que disse o ombudsman da Folha na ocasião:
“Pode ser que os apreensivos não escrevam para redações. Talvez a ausência, até agora, de efeitos graves no cotidiano dos brasileiros esteja adiando os sobressaltos. Mas também é possível que o jornal esteja falhando na sua missão de aproximar o noticiário do cidadão comum. A Folha tem dedicado apreciável esforço à cobertura da crise global nestas semanas. Os fatos têm sido registrados de maneira correta e abrangente. Artigos e entrevistas de especialistas têm proporcionado ao leitor análises aprofundadas, comparações históricas relevantes e abordagens originais.
Mas acho que tem faltado tratar dos problemas a partir da perspectiva de quem não é versado em economia nem pela teoria nem pela prática de empresário ou executivo. Tem faltado dar concretude às questões, desde o significado real das cifras astronômicas que diariamente inundam as páginas até explicar como essa confusão vai afetar o dia-a-dia de cada um de nós. Sem abandonar o comentário mais sofisticado, terreno em que está indo bem.” (Carlos Eduardo Lins da Silva - Coluna do ombudsman, Folha de S. Paulo, 12/10/2008)
O desafio imposto pelo ombudsman não é trivial. As redações contam com profissionais gabaritados e muito conscientes de seu papel, o que faz da mudança necessária a razão de muita reflexão. Se não é a informação, será a forma usada para apresentá-la? Como sugestões, Carlos aponta a publicação de matérias com personagens reais que já sofreram com a crise e uma maior sensibilidade do jornalista na tentativa de se colocar no lugar da pessoa comum. Jornalista escrevendo como cidadão?
A sociedade pode (pede) mais!
E se a pessoa comum pudesse participar ativamente do debate econômico? E se ela pudesse instigar a conversa de forma a deixar clara sua opinião, suas bases de decisão e as variáveis que mexem com suas escolhas financeiras cotidianas? Cidadão escrevendo como cidadão? A lacuna entre jornalistas econômicos especializados e cidadão comum não é nova - argumento que influenciou, por exemplo, a criação do Dinheirama.
Como blogueiro, consumidor de notícias e formador de opinião entre meus pares, amigos e familiares, gosto de acreditar que o desafio de transformar o noticiário econômico em tema de interesse passa por três passos fundamentais:
- O trabalho de conscientização e transformação realizado por iniciativas como a deste blog e de autores cuja marca registrada é a didática. Antes de aprofundar certos aspectos, é preciso despertar o interesse das pessoas;
- Mais diálogo entre economistas, jornalistas e cidadãos. Ou seja, a aproximação de temas complexos através de exemplos de fácil compreensão, além do real interesse em ouvir a população e formular artigos e matérias focadas em suas dúvidas;
- Iniciativas conjuntas entre jornalistas especializados, blogs de nicho, comunidade e entidades representativas do governo. Enquanto a distância entre os formadores de opinião for igualmente grande, pouco se poderá agregar sob a ótica da “economia traduzida”.
A discussão vai longe…
Opinar sobre a “grande mídia” é algo que sempre me traz efeitos colaterais - uns bons, outros nem tanto. Neste blog, proponho uma melhor interação entre as excelentes matérias produzidas por especialistas em comunicação e a sociedade. Insisto nisso desde o começo, sempre alertando para a indiferença da população diante de veículos de massa pouco atrativos e(ou) muito técnicos. Carlos, ombudsman da Folha, lembra que o caminho escolhido por este blog tem seu valor.
Como assim? É simples. Para mim, blogs são como colunas de opinião. Escrevo sobre aquilo que julgo interessante, sempre opinando, traçando paralelos e deixando claras minhas intenções. Apresento números, estatísticas e novidades, mas como meios de enriquecer o conteúdo. Minhas pretensões jornalísticas são cristalinas: pretendo comunicar-me bem, o que significa agregar valor ao ponto de vista de meus leitores e multiplicar seu conhecimento. Ponto. O “furo” de reportagem pouco me interessa.
Com a veiculação do artigo de Carlos Eduardo Lins da Silva, a Folha demonstrou seu compromisso com o leitor e o convidou para o debate sobre os rumos de seu caderno de economia. Como assinante que sou, registro, através deste pequeno artigo, minha colaboração. Fico feliz por notar que há interesse em compreender como a leitura e o conhecimento podem ser melhor absorvidos pela população.
Que mais colegas, blogueiros, jornalistas, economistas e interessados pelo tema se aventurem nesta importante missão de transformar dinheiro em assunto. Dá trabalho, críticas são sempre desferidas e oportunidades costumam surgir. Se vale mesmo a pena? Só vocês, nobres leitores, podem dizer…
Crédito da foto para stock.xchng.
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6 comentários
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Parabéns pela iniciativa e pelo artigo que é um excelente convite à reflexão.
Mas, será que o Brasil mencionado no artigo da Folha e neste artigo é o mesmo que o Lula governa?
Afinal, quem assistiu ao Fantástico ontem viu o Presidente nos incentivando a consumir, garantindo que estamos muito longe da crise mundial.
É por essas e outras que nós, que já somos desencanados com nossos compromissos, ficamos mais alheios ainda.
Assim sendo, deixo registrada a pergunta que não quer calar na minha cabeça: Onde fica o Brasil do Lula? Quem descobrir me dê o endereço que é prá lá que eu vou…
Fico pensando que não estou no Brasil do Lula e gostaria de pedir o endereço para nos mudarmos todos para lá.
Celina, como vai? Obrigado pelo comentário e a presença brilhante no Dinheirama.
Veja, não enxergue meu comentário como uma crítica ao seu comentário ou mesmo uma defesa ao governo Lula.
Mas o tema do discurso dele ontem ele vem repetindo desde a última semana. Quando ele disse para as pessoas consumirem foi feito uma ressalva, que no meu ponto de vista faz toda a diferença: “Ninguém precisa gastar mais do que tem, mas quem planejou algum ato de consumo para o fim do ano, não deixar os planos para trás”.
Acho que vale o registro, afinal ninguém é de ferro e o consumo consciente é mais do que útil é necessário para o crescimento da economia e do país.
Abraço
Gostaria de pergunta se vc, Navarro, ja viu o filme de nome “Zeitgeist”… Sobre a parte 3 do filme… Fiquei muito perdido depois de ver este filme, se parte do que foi colocado alí for verdade.. Mas como saber se eh verdade?
Celina e Ricardo, vocês comentaram situações muito pertinentes. As duas observações são válidas, acho que as entendi bem. A Celina comentou principalmente sobre a relutância do presidente em admitir que os efeitos da crise podem ser sérios e do seu deboche (por vezez vimos o Lula falando do FMI, usando frases tipo “Crise? Que crise?” e etc.) E, você, Ricardo, dá o recado de forma claríssima: se pararmos de consumir e de fazer as coisas, a economia vai sofrer ainda mais.
Voltando ao tema principal do artigo, tem-se o debate: o que podemos fazer para levar o debate econômico para mais gente e de forma mais dinâmica? Que desafio, hein?
Abraços a todos.
Conrado, essa é uma discussão interessantíssima e mais do que pertinente. Vivemos em um País onde o índice de analfabetísimo é altíssimo. Outrossim, o índice de analfabetísmo financeiro é infinitamente maior, mas ainda bem que isso não se reflete apenas no Brasil.
Mas de qualquer forma, em um País pouco se lê e muito se assiste a programas de televisão, acredito que a melhor forma de levarmos o debate econômico e de forma mais dinâmica, seria através de programas televisivos, como o já existente em uma determinada TV por assinatura.
É claro que a leitura com sua correspondente compreensão é a melhor solução, mas já que o brasileiro é um dos povos que menos lê no mundo, acredito nessa solução intermediária da televisão. Afinal, não é só de “desgraças” que vive o povo, principalmente os menos favorecidos.
Um abraço à todos
Muito bom o artigo. A diversidade de mídias existentes são suficientes para atender a todo tipo público, porém, o resultado não é bem assim. A forma de transmitir a informação, a partir de uma perspectiva mais pessoal, é necessária para atrair tais públicos. As idéias levantadas são bem interessantes.
Nesta segunda-feira, estive assistindo uma palestra sobre a Bovespa em minha universidade (não sei se o Navarro estava lá). Foi excelente a palestra. Tanto a forma didática dos slides até as perguntas mais complexas da platéia tornaram uma experiência rica para todo o público (para todos os níveis de conhecimento sobre o assunto). Trazer assuntos interessantes e, acima de tudo, importantes para ambientes de fácil acesso dos leitores ou ouvintes trás ótimos benefícios. Visto, alias, a grande procura pela palestra.
Bom é isso. abraços.