A crise “boi de piranha” e o noticiário corporativo
Publicado por Conrado Navarro em 10.11.2008 na seção Economia Geral
Lidar diariamente com o noticiário econômico e com dúvidas e opiniões de clientes, amigos e leitores tem lá seu lado sombrio. Agora, por exemplo, só se fala da crise. “A crise derrubou o crédito e a venda de carros despencou” é a frase do momento, já que semana passada foram anunciadas estatísticas desanimadoras do setor. A sentença “Alguns comerciantes disseram que a crise já está afetando seus negócios e que estão perdendo clientes” sintetiza o sentimento das ruas, de quem vive do consumo e do interesse em consumir. Crise, crise e mais crise.
Contaminar-se com o pessimismo típico destes ciclos é a coisa mais fácil do mundo. Aliás, ver-se pessimista e ainda transformar-se em profeta do apocalipse parece ser a atividade de muita gente, inclusive de grandes (e inteligentes) amigos. Alguns, no entanto, relutam. Num bate-papo de final de semana, ouvi, de um grande investidor, o comentário que originou este artigo: “A coisa está tão feia assim? Sinceramente, acho que muitos estão usando a crise como desculpa para justificar mudanças e decisões delicadas. Não parece justo”.
Balancei. Inúmeras reportagens, matérias técnicas e observações de empresários e executivos popularam minha cabeça enquanto o nobre colega desferia sua crítica aos “aproveitadores” - denominação que ele tratou logo de usar. Férias coletivas? É a crise. Corte de custos? Culpa da crise. Demissões? Crise, de novo. Troca de diretores? Exigência da crise. Vendas congeladas? Efeito colateral da crise. Então é assim?
Choveu demais? Alagou? É a crise!
O raciocínio por trás da interpretação desses acontecimentos não pode ser tão simplista. É fato que inúmeros desdobramentos e efeitos negativos, oriundos da grande crise financeira mundial, têm aparecido também no Brasil. Mas quanto das mudanças é possível atribuir aos reais eventos originados pela crise? Quanto é possível atribuir aos modelos operacionais e decisões estratégicas de cada setor e/ou empresa?
A discussão passa por dois caminhos, cujas reflexões nos levam a diagnosticar padrões perigosos de gestão:
- Fatores cíclicos capazes de prejudicar os resultados. A escassez de capital fez diminuir o número de financiamentos e empréstimos nestes últimos meses. O fato, discutível na esfera prática, existe e foi amplamente divulgado. Se determinadas empresas, com as automobilísticas, têm suas vendas atreladas à facilidade de crédito e financiamentos na ponta de consumo, é natural observar resultados piores e necessidade de novos planos. Aqui, a conjuntura certamente impacta.
- Fatores administrativos e estratégicos comprometendo resultados. A exposição cambial excessiva, praticada por grandes empresas nacionais (Sadia, Aracruz e Grupo Votorantim, por exemplo), transformou resultados positivos em grandes prejuízos ou diminuição drástica de caixa operacional. Uma estratégia de aposta, em níveis acima do limite acertado entre administração e acionistas, colocou empresas em estado de alerta. Aqui, a conjuntura impacta, mas em decorrência de práticas duvidosas, feitas sem a anuência dos donos da empresa (acionistas).
Não dá para culpar só a crise, não é mesmo? Claro que um terceiro caminho, dado pela combinação das possibilidades já apresentadas, também existe e está em curso. Empresários e executivos têm a difícil missão de interpretar sinais do mercado, da empresa e dos clientes e transformá-los em ações que beneficiem os acionistas. Como fazer isso em tempos tão turbulentos?
O exemplo mais recente
O jornal Folha de S. Paulo publicou, ontem, trechos de um comunicado da VCP (Votorantim Celulose e Papel), empresa do Grupo Votorantim, onde executivos alertam para o perigo da crise e enumeram diversas atividades e políticas para reforçar o caixa e os resultados. O documento começa assim: “A atual crise econômica mundial, com desdobramentos e duração ainda não previsíveis, exige ações imediatas de todos os setores e organizações, inclusive do Grupo Votorantim”.
Suspensão de reembolso de quilometragem, redução de eventos externos como reuniões e workshops que representem custos de hotelaria e viagens, manutenção de apenas uma impressora colorida para atendimento de uma das unidades da empresa, suspensão de contratação de consultoria externa, de recrutamento interno, de promoções, de novas transferências entre unidades e cancelamento do programa de estágio de nível superior são algumas das ações apontadas.
Seria irresponsabilidade demais julgar a atitude da empresa. Nada disso, não tenho esta pretensão. Cabe apenas observar que, depois de um prejuízo de R$ 586 milhões decorrente da exposição cambial, o momento é oportuno para que grandes mudanças operacionais sejam postas em prática - já que pouca ou nenhuma resistência deve ser imposta por equipes, gerentes e diretores. Diante da “crise”, impossível agir de outra forma.
Neste sentido, a crise “boi de piranha” mostra-se essencial para grandes empresas, como também para grupos e companhias dispostas em dilemas estratégicos importantes. Você ainda vai ler e ouvir a desculpa “é a crise” por algum tempo, acredite. Independentemente da origem do problema - se por efeitos reais da crise ou desobediência administrativa -, o momento exige mudanças, mas também mais transparência.
Então é possível crescer na crise? Crise é oportunidade?
Claro. Ora, algumas empresas estão tratando de aproveitar a tal “oportunidade” para colocar em prática decisivas ações, tudo em prol de sua sobrevivência, de melhores resultados e maior lucratividade. Itaú compra, opa, funde-se com o Unibanco; Grupo Votorantim anuncia grande plano de contenção de gastos e geração de caixa. Nós (eu, você, ele), no lugar desses executivos, faríamos a mesma coisa. Certo? Errado? Desculpa esfarrapada? Exagero?
Sim, também é verdade que muito exagero tem sido usado para referir-se à crise como força motivadora para certas atitudes. Afinal, a crise também está claramente representada como um momento de grandes exageros. Mas, enquanto a justificativa “são os efeitos da crise” funcionar, alimentaremos a dúvida sobre sua legitimidade e propósito. Que paire a dúvida, desde que em benefício da certeza de um amanhã melhor para acionistas, cidadãos e nação.
Crédito da foto para stock.xchng.
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11 comentários
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Conrado,
Algumas facetas do mercado financeiro se mostram mais pessimistas que outras. Eu, por exemplo, estou ligado aos pequenos bancos. Esses possuem muito motivos para estarem pessimistas né? Com o dinheiro mais caro e a fome dos sessionários, não sei se o “novo modelo” dá espaço para esses guerrilheiros operarem. Não necessariamente o dólar que entrará no país, estará dentro desses bancos. No setor de consignado então, estamos observando gigantes como Caixa, BB e Itaú arrasando quarteirões e comprando carteiras. Com um spread ridículo, será impossível para que os pequenos consigam operar…
Não estou ligado a nada na bolsa de valores, mas também consigo entender tal pessimisto. Nossas empresas de commodities respondem a 8% de nosso GDP. Até ai tudo bem, mas se levarmos em consideração que gigantes como a Petrobrás entre outras do setor são responsáveis por mais de 40% de nosso pregão, ai há novamente motivos para o pessimismo…
Abraços,
Gabriel, seus comentários são sempre muito pertinentes. Obrigado pela colaboração e parabéns pelo trabalho no seu blog. Pois é, eu entendo perfeitamente sua visão e compartilho das mesmas dúvidas quanto ao futuro. O artigo trata de levantar esta questão de forma até um pouco provocativa.
- A crise vem sendo usada como desculpa?
- Se tudo é culpa da crise, como opinar e variar decisões diante das opiniões de consumidores, especialistas e cidadãos?
Grandes decisões têm sido tomadas. Muitas delas em “decorrência da crise”. Mas será que são interessantes? Acertadas? Boas para o país? Ruins? A discussão é bem interessante e agradeço, mais uma vez, pela sua participação.
Grande abraço.
Conrado,
Sabe que eu sou na verdade muita mais um profissional de Marketing (minha paixão) ao invés de executivo do mercado financeiro. Nessa caminhada que entrei para aprender mais sobre o mercado que atuo no momento , o Dinheirama está sendo essencial para que eu consiga me virar nessas reuniões malucas com outros executivos.rs Obrigado mesmo!
Concordo com vc , parece que absolutamente tudo se deve por causa dessa crise. Mesmo a questão da redução tributária (ainda essecial) já deveria ser aplicada antes dela… Por exemplo, antes da crise, nosso país já exibia um triste índice entre os lugares mais difíceis do mundo para se fazer negócios. Na mais nova edição do estudo Doing Business, do Banco Mundial, o Brasil subiu da posição 126 para 125 no ranking de 181 países.
Conrado, achei no meu arquivo uma entrevista que fiz com o professor mais importante da minha vida (Francisco Madia) sobre a história do Banco Itaú. Vou colocar aqui pq acredito que vc irá curtir bastante.
http://blip.fm/profile/HRMercantil/blip/1101463
Eu gostaria de enviar nossa revista a você e ao Ricardo, para qual endereço eu mando?
Abraços,
Gabriel
Concordo plenamente. Muita gente da a desculpa da crise para tudo. Mas essa desculpa pode virar uma faca de 2 gumes…
Se por um lado empresas conseguem por em prática planos e medidas que em outros tempos não seriam tão fáceis de serem implantados para conseguierem reduzir custos, por outro essas desculpas acabam por injetar mais medo no mercado.
Imaginem quantas pessoas estão deixando de gastar, de comprar, de movimentar a economia por ouvir por todos os lados a desculpa de que a crise esta fazendo as empresas reduzirem custos, demitirem, diminuirem a produção… Imaginem qual o impacto sobre potenciais compradores de carros 0 Km ao ouvirem que as empresas estão preparando férias coletivas para diminuir a produção. É óbvio de que eles desistam por hora de realizar a compra pois preferem poupar seu dinheiro diante de uma crise tão feia, o que acaba por diminuir a venda de veículos. Mas isso não acontece somente em grandes empresas, até a padaria da esquina utiliza a crise como justificativa para aumento dos preços.
Falava-se muito de crise de confiança (estranhamente nas ultimas semanas não tenho ouvido mais falar tanto nesse termo) e essa atitude, que em muitos casos pode ser consideranda irresponsável, só faz gerar mais desconfiança e incertezas.
Navarro,
Ótimo texto Navarro!
Realmente muitas mudanças aconteceram e estão acontecendo em decorrência da crise, mas achar que elas podem ser desculpa para manipular falhas chega a ser cruel demais. Acho que elas são mais ossos do ofício.
Vivemos em um mundo onde felizmente ou infelizmente (depende de cada um!) dependemos de lucro e diante das adversidades (prejuízo) devemos agir. Não quero ser mais um a pregar o que todos já estão cansados de dizer: “o mundo é globalizado”, e as reações ocorrem de imediato. Acredito que muitos leitores investidores em ações do seu blog, se não migraram para outro tipo de investimento mais seguro nesse momento, pelo menos está pensando.
Mudanças bruscas sempre ocorrem em cenários pessimistas. Qual o motivo de mudar drasticamente durante a bonança? No máximo fazemos alguns ajustes para seguir tendências.
Não estou apoiando as ações pessimistas que algumas empresas estão tomando, mas quem está no mercado sabe que trabalhamos com projeções e quando essas são pessimistas ,o que temos que tentar é pelo menos nos preparar e adequar a ela.
Pena que ainda não vivemos em um mundo mais comprometido com a sustentabilidade em todos os sentidos. Enquanto isso não ocorre, temos que jogar o jogo com as cartas que temos.
Um forte abraço
Com crise se cresce!
O sucesso a longo prazo depende mais da sobrevivência em períodos de crise aos de crescimento em épocas de grande desenvolvimento.
Tem um ditado chinês que diz: “Na crise, enquanto uns choram, outros vendem lenços.”
Crise pode ser oportunidade sim. Concordo com o Tiago.
abs
Para muitos este momento é de crise, mas para mim não.
A tempo venho estudando como funciona o mercado de fundos de ações e percebi que este momento é o ideal para entrar nele. Fiz isso a 13 dias e nao me arrependo pois pra mim está sendo o início de minha suficiencia finceira.
Realmente qualquer coisa que ocorre é culpa da crise! aqui na empresa estão sendo demitidos funcionários, sendo remanejados, cortando compras e até apagando as luzes!. Ao comprar bens choram muito porque a crise está nos deixando ‘apertado’. Esses dias fomos comprar areia de construção e nosso fornecedor informou que a areia subiu devido ao dolar! será que era importada? Enfim, essa crise é uma grande oportunidade para que sejamos futuros milionários.
[...] estou novamente falando da bendita crise sem me dar conta. Ela, a crise “boi de piranha”. Mas, confesso, hoje é um daqueles dias em que o assunto não poderia ser outro. Afinal, sofri [...]
[...] estou novamente falando da bendita crise sem me dar conta. Ela, a crise “boi de piranha”. Mas, confesso, hoje é um daqueles dias em que o assunto não poderia ser outro. Afinal, sofri [...]