O Brasil dos endividados, acomodados e investidores
Publicado por Ricardo Pereira em 13.11.2008 na seção Educação Financeira
Muitas gerações de endividados. Esse é o resultado da falta de acesso e da pouca preocupação das pessoas (de maneira geral, claro) em relação ao dinheiro, como lidar com ele e o universo de investimentos. A conclusão não é tão chocante para a maioria de meus amigos (talvez nem para você, caro leitor), mas confesso que fiquei bastante assustado com alguns números publicados em uma recente pesquisa nacional, encomendada pelo grupo responsável pela ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira:
- Nada menos que 84% das pessoas pesquisadas revelaram que não possuem qualquer tipo de investimento. Por que? Por não contabilizarem sobras de dinheiro ao final do mês;
- Outros 36% se declararam gastadores;
- 44% disseram poupar todo mês;
- 26% deles admitiram estar com o nome sujo no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) ou Serasa. Desses, 17% disseram que vão esperar a dívida caducar.
O papel da educação financeira
Observando as estatísticas apresentadas e as incoerências de certas decisões, pergunto: onde está a educação financeira? Discutimos muito sua influência, mas e daí? Que mais merece destaque nesta seara? Bom, diferentemente do que muitos costumam dizer, a educação financeira não é necessária apenas para aqueles que estão em apuros, enroscados em grandes e perigosas dívidas.
Claro, é mais compreensível notar indivíduos buscando mais auxílio quando a situação chega a um grau muito calamitoso. É o famoso “aprender pela dor”. Entretanto, independente de qual for a situação financeira das pessoas, sempre haverá espaço para boas práticas de controle, gestão financeira e investimentos.
Caso 1: o devedor
Quando a pessoas estão abarrotadas de dívidas, as práticas de educação financeira cumprem um papel importantíssimo: através de um diagnóstico da atual situação do devedor é possível adotar medidas capazes de auxiliar o devedor a voltar ao rumo ao equilíbrio financeiro.
O importante nessa etapa é dar o primeiro passo e assumir a condição de devedor. Assumir a culpa e decidir transformá-la em energia e força para sair do problema. A mudança de comportamento é fundamental, além de ser o único caminho eficiente para transformação.
Caso 2: o acomodado
Encontram-se nessa situação as pessoas que não são grandes gastadores, mas também não conseguem chegar ao fim do mês com um bom valor para aplicar e investir. Tudo que entra como receita é praticamente gasto – e, desta forma, a pessoa fica empacada, com a sensação de que não é capaz de “sair do lugar”.
A verdade é que não é nada agradável ver a vida “parada”. Quem flutua por essa situação não consegue realizar seus sonhos e quase sempre acaba considerando os objetivos como inalcançáveis. A educação financeira traz interessantes lampejos na vida dessas pessoas:
- Um orçamento bem elaborado pode transformar as finanças e fazer com que a família gaste menos do que ganha. O que sobra a partir daí pode alimentar muitos sonhos;
- O diagnóstico bem feito define o padrão de vida suportável, facilitando a adaptação da família;
- O investimento do que sobra cria o hábito de planejar o futuro e, mais importante, realizá-lo.
Caso 3: o investidor
Se você já está nesse patamar, considere-se um felizardo. Afinal, em um país de endividados, tornar-se um investidor de sucesso parece uma grande utopia. Quantas vezes já não ouvi isso. E o bacana é que esse tipo de pessoa também pode aproveitar, e muito, a educação financeira. Todos devemos sempre melhorar a maneira de lidar com o dinheiro, observando para “onde vão” os gastos e investigando como funcionam outros investimentos mais sofisticados.
A crise atual é um exemplo: muitas pessoas, desconhecendo as funcionalidades e característica do investimento em bolsa, acabaram destinando grande parte dos investimentos para o mercado de capitais. Estão assustadas. Outras, justamente aproveitando a fase de baixa, criaram novos planos de longo prazo e aumentaram suas participações em sólidas empresas de capital aberto.
Então ficamos assim: as fichas e os três tipos comuns de habitantes do cotidiano financeiro estão aqui propostos. Encontrar o seu perfil e valorizar o poder da educação financeira é atitude que só você pode tomar. Essa mudança pode significar a volta por cima ou o aumento de seu patrimônio no longo prazo. Independência financeira, cedo ou tarde, será o resultado. Afinal, você merece.
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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.
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Prezado Ricardo
Eu sou uma poupadora nata. Desde o meu primeiro salário eu fiz uma poupança. No entanto fui roubada no Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor, etc. Apliquei meu FGTS na Petrobras e na Vale e estou vendo ir para o ralo todo o meu investimento porque não soube sair na hora certa (será que alguém sabe?). Talvez teria sido melhor se eu tivesse gasto esse dinheiro com algo interessante.
Ricardo, tudo jóia?
Passei boa parte da minha vida na Inglaterra e observei que em muitas partes da Europa a educação financeira era uma questão familiar. Naturalmente, a escola reforçava a perspectiva que o aluno já adquiria em seu lar.
Claro que a história da economia européia é bem diferente da nossa. Vários fatores contribuiram para um comportamento mais pró-ativo da família na educação financeira do indivíduo.
Tudo ainda é muito novo para o brasileiro. Até o começo dos anos 90 nós convivíamos com uma inflação nefasta. O fim desses tempos nos obrigou até a aprender como fazer varejo sem depender do ‘overnight’. Naturalmente, aprenderemos e a lidar com finanças.
Abraços,
Gabriel R.
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Controlo meu orçamento desde quando ganhei meu primeiro computador em 2004.
Sempre me interessei por computador e isso me facilitou a criar uma planilha de controle de receitas e de gastos que venho aprimorando ano após ano…
Nesse ano pretendo entrar no mercado de ações, já li 3 livros sobre o assunto tô lendo o 4º e acho que no máximo em 2 meses estarei investindo de 1/³ a 2/³ do que me sobra no fim do mês da minha renda em ações.
Quero dividir em 3 terços meu investimentos.
Quanto ao assunto é uma pena que tanta gente não tenha esses conhecimentos básicos acho que a maior culpa é do governo…
…Mas me pergunto como eu não tive ajuda do governo e nem tive amigos nem parentes que me desse tal educação e sou tão consciente com meus gastos, e investimentos???
Será que a culpa é somente do governo ? Fico com essa dúvida.
Parabéns pelo Site
Nota 10!
Pois é… e o Governo, o q é q faz? Libera mais crédito pra depois se endividar…. aí depois o pessoal não vai ter mais dinheiro pra pagar, e BUM, igual a o que aconteceu nos EUA acontece aqui
Sim, e pra Miranda: não sei se você sabe, mas você pode recuperar o dinheiro roubado nesses planos, mas precisa correr e contratar um bom advogado
Bom Dia Ricardo
No dia que tivermos matéria obrigatória na escola, aprenderemos a poupar, nem que seja somente a “mágica do juro composto”. Lá nos ensinam a ser assalariados e não empreendedores e a sociedade nos ensina a sermos apenas CONSUMIDORES (basta ligarmos a TV a qualquer hora do dia). Sorte que alguns tem DINHEIRAMA para se orientar e por os pés no chão e nos tornamos EX ENDIVIDADOS para sermos INVESTIDORES.
Escutei no rádio esses dias…………. o prazo para quem foi lesado pelos planos Presser, Verão….. TERMINA EM 31 DE DEZEMBRO DESTE ANO. Portanto, vá a galope e procure os teus direitos!!!!
Ricardo,
Muito boa esta sua análise a respeito do comportamento financeiro geral das pessoas.
Muito instrutivo…
Primeiro lugar a Matemática Financeira é pouco divulgada onde deveria ser inserida com noções de aplicações econômicas….no segundo grau escolar, virou preparação para o vestibular….dai essa estatística horrorosa q vemos…..
Ou se muda a forma de ensinar ou pouca gente vai enteder sobre bolsa de valores……além do País de juros altos, onde a Caderneta de Poupança continua a + seguro apesar do rendimento pífio…..+ são reservas disponíveis, terras e imóveis enqto o regime Brasileiro ñ passar a Padrões Civilizados, além de ser o País dos Impostos…ai vai
demorar muito, pois o Financeiro dominam os Mercados Produtivos
[...] a pena ler de novo Como mencionei no artigo “O Brasil dos endividados, acomodados e investidores”, hoje a população brasileira enfrenta uma realidade perversa: em pesquisa nacional realizada pelo [...]
[...] a pena ler de novo Como mencionei no artigo “O Brasil dos endividados, acomodados e investidores”, hoje a população brasileira enfrenta uma realidade perversa: em pesquisa nacional realizada pelo [...]