01 dez Ações e Derivativos

Insiders, informações privilegiadas e o mercado de ações

Anderson comenta: “Navarro, percebi que é muito comum notar, especialmente em tempos de crise, notícias sobre negócios realizados na bolsa de valores através de informações privilegiadas. O termo insider é amplamente usado pela mídia e por livros da área, mas confesso que não compreendo bem a lógica de suas operações. Investidores assim ganham por ter […]

por Conrado Navarro
há 6 anos

Insiders, informações privilegiadas e o mercado de açõesAnderson comenta: “Navarro, percebi que é muito comum notar, especialmente em tempos de crise, notícias sobre negócios realizados na bolsa de valores através de informações privilegiadas. O termo insider é amplamente usado pela mídia e por livros da área, mas confesso que não compreendo bem a lógica de suas operações. Investidores assim ganham por ter acesso antecipado a certas informações? Existem outras formas de manipular cotações e preços de ativos? Há fiscalização? Muito obrigado”.

Tratar da negociação de ativos é uma questão muito interessante. Enquanto a grande maioria dos investidores “compra e vende empresas”, muitos preferem “comprar e vender notícias”. Se há que as compre, é porque também existem aqueles interessados em vendê-las. Isso nos remete a um importante conceito inerente ao mercado de ações[bb] e à negociação de títulos: a Hipótese de Eficiência do Mercado, ou simplesmente HEM.

Deixando o “economês” de lado, a HEM está baseada na afirmação de que a cotação de uma ação reflete as informações disponíveis sobre a empresa que a emitiu. Segundo Fama (1970), três condições são suficientes para que a HEM se verifique na prática:

  1. Inexistência de custos de transação nas negociações de títulos;
  2. Disponibilização de todas as informações sem custos para todos os participantes do mercado;
  3. Concordância geral de expectativas entre os investidores, quanto aos efeitos das informações sobre os preços atuais das ações, assim como sobre suas distribuições futuras.

Perceba que tais condições, e conseqüentemente a verificação da HME, dificilmente são encontradas. Destaque essencial para o item 3, que pressupõe concordância e racionalidade entre investidores e negociadores de ativos. Como e onde ficam as reações emocionais, o medo e as decisões tomadas em meio a situações de grande volatilidade?

HEM e as informações privilegiadas
A rápida conceituação sobre a Hipótese de Eficiência de Mercado (HEM) é importante para que possamos compreender a obscura tática utilizada por investidores[bb] e analistas cujo interesse é manipular o sistema. Ora, se um dos pressupostos de justiça na negociação de ativos é a universalização da informação, usar informações privilegiadas significa trapacear, certo? Claro!

Mas, como assim? É simples. Suponha que duas empresas de capital aberto estejam negociando uma fusão. Enquanto a negociação é sigilosa – ou seja, a maioria dos participantes do mercado não sabe de nada -, apenas executivos e diretores tratam da questão. Se o desenrolar da conversa for positivo (a fusão estiver mesmo saindo), tais pessoas podem decidir comprar muitos papéis da empresa antes de divulgar a notícia da fusão ao mercado.

Eles montam suas posições, anunciam a mudança e ficam à espera de uma grande valorização, o que geralmente acontece. Trata-se de uso de informações privilegiadas, ferindo o princípio de acesso da informação por todo o mercado em um mesmo momento. Então, a discussão recai sobre outra questão: mas, o que é uma informação relevante, capaz de ser caracterizada como parte de uma mudança artificial das cotações? A CVM responde:

“Informações relevantes, doutrinariamente, são aquelas que podem influir de modo ponderável na cotação dos valores mobiliários de emissão da companhia, afetando a decisão dos investidores de vender, comprar ou reter esses valores”

Ora, mas se um diretor ou presidente de empresa sabe, por conta de detalhes internos da empresa e que passam por sua anuência, que a empresa sofrerá forte desvalorização, ele não pode simplesmente liquidar suas posições particulares e pular fora? Não, não pode. Parece simples, mas não é. A CVM tem uma força-tarefa que investiga compra e venda de ações[bb] em períodos de crise ou fusões, que também age quando vê um enorme volume de operações por parte de participantes relevantes do mercado. Acompanhe alguns casos:

Outras formas de manipulação
Existem ainda pelo menos outras duas formas de tentar manipular as cotações de ativos e ações, além do uso indevido de informações privilegiadas:

  • “Espuma”: Trata-se da divulgação de informações não verificadas e não confirmadas sobre determinadas empresas, com o único objetivo de tentar manter os preços em uma tendência ou simplesmente revertê-la;
  • Análises propositalmente erradas: Trata-se do uso de má fé por parte de analistas e instituições, indicando informações e recomendações artificialmente criadas a partir das “espumas” ou de interesses próprios. Segundo Luís Nassif, isto se dá principalmente pela falta de parâmetros para analisar tanto o desempenho de empresas da nova economia como de economias emergentes.

Pois é, segundo a CVM manipular informações e usá-las para ganhar mais (ou perder menos) é um ato ilícito e que merece severa punição. Infelizmente, em um mercado longe da eficiência (HEM), repleto de atitudes emocionadas e só explicadas através da moderna psicologia, descobrir tais fraudes nem sempre é fácil. Pena. Enfim, Hoje aprendemos mais sobre esta realidade. Que o novo conhecimento seja útil para sua formação de investidor. Útil no bom sentido, claro!

bb_bid = “74″;
bb_lang = “pt-BR”;
bb_name = “fixedlist”;
bb_keywords = “investir dinheiro,investidor,bolsa de valores,mercado de ações,TV LCD,PC”;
bb_width = “600px”;
bb_limit = “6″;

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros "Dinheiro é um Santo Remédio" (Ed. Gente), “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), autor do blog "Você Mais Rico" do Portal EXAME e colunista da Revista InfoMoney. No Twitter: @Navarro.

Leia todos os artigos de Conrado Navarro
  • Alfredo Ritche Kockers

    E são esses caras que tiram os dinheiros dos TROXAS que continuam aqui com a papagaiada do “estou nessa para o longo prazo” e perderam metade do dinheiro que ganharam trabalhando uma vida toda.

    E o dinheirama não acha ruim.

  • Valdir Leonardo Welter

    Olá,
    Meu nome é Valdir, estou realizando o trabalho de final de curso na Universidade de Brasília, o qual versará sobre a influência das notícias veiculadas na mídia sobre o mercado de ações, especificamente sobre o mercado de opções.
    Assim, tenho algumas perguntas a fazer cujas as respostas servirão de subsídio para o trabalho que realizarei. Ficarei muito agradecido se puderem ser respondidas.
    1) As notícias realmente influenciam as cotações das ações e, conseqüentemente, o mercado de opções?
    2) Como surgem os “boatos” que influenciam as cotações e que no fim acabam não se confirmando?
    3) Os investidores se deixam influenciar pelas notícias que afetam o mercado de ações, mesmo aquelas de agências não muito confiáveis?
    4) Quais as agências de notícias mais confiáveis cujas informações influenciaram o mercado de ações em 2008?
    5) É mais ariscado investir em ações ou em opções, qual alternativa dá o maior retorno e qual tem maior risco?
    6) Como a variação da cotação do ativo objeto (a ação) afeta o prêmio?