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Adam Smith: idéias que não devemos esquecer

Publicado por Alexsandro Bonatto em 08.1.2009 na seção Economia Geral

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Adam Smith: idéias que não devemos esquecerEm tempos de crise econômica, a primeira vítima normalmente é o livre comércio e a primeira atitude é a regulação dos mercados. Apesar do que os países componentes do G-20 têm declarado, a história mostra que sempre depois de uma crise os países tendem a aumentar o protecionismo. Da mesma forma, logo que estouram bolhas as bolsas[bb] e os mercados tendem a ser mais regulados, com direta intervenção da autoridade estatal. Aqui não resta dúvida: os governos americano e europeu vêm sendo obrigados a entrar como sócios em instituições financeiras consideradas sólidas até bem pouco tempo.

Contudo, em tempos de insegurança e pessimismo quanto ao funcionamento dos mercados, e em última instância do próprio capitalismo, nada melhor que lembrarmos do economista que lançou as bases do pensamento liberal: o escocês Adam Smith com a publicação do livro “Indagações sobre a natureza e as causas da riqueza das nações", em 1776.

O livro se concentra em uma meta particular: descobrir leis que expliquem como conquistar a riqueza[bb]. E tais leis estariam no desejo humano de melhorar suas condições de vida. Smith descobriu um “... desejo de melhorar a nossa condição, um desejo que, embora geralmente calmo e desapaixonado, vem conosco do útero, e nunca nos abandona até que nós vamos para o túmulo”.

Entre o nascimento e morte “... existe um instante escasso e talvez único no qual qualquer homem está tão perfeita e completamente satisfeito com a sua situação, que não tem nenhum desejo de alteração ou melhoria de nenhum tipo". Existiria ainda “...uma certa propensão na natureza humana (...) para negociar, permutar e trocar uma coisa por outra (...) isso é comum a todos os homens". Para aumentar a riqueza das nações, Smith argumenta que a sociedade deveria explorar essas tendências naturais.

A seguir apresentamos alguns tópicos sobre o pensamento exposto no livro “A Riqueza das Nações”:

Egoísmo: seria uma rica fonte natural de prosperidade, pois nossas ações visam única e exclusivamente nosso próprio benefício. Numa passagem famosa, temos:

“Não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que nós contamos com o nosso jantar, mas pela consideração do seu próprio interesse”.

Mesmo aqueles que gostam de abater gado, fabricar cerveja ou fazer pães não gostariam de fazer isso todos os dias se eles não fossem recompensados pelo trabalho. No livro “O Economista Clandestino”, de Tim Harford, encontramos uma alegoria muito interessante sobre os benefícios do egoísmo de Smith:

“Eu, de forma egoísta, compro cuecas, mas ao fazê-lo transfiro recursos para as mãos dos fabricantes de cuecas e não faço mal a ninguém. Os trabalhadores na indústria têxtil da China, onde a cueca é fabricada, buscam de forma egoísta o melhor emprego, enquanto os empresários buscam, também de maneira egoísta, contratar os empregados mais capazes. Tudo isso beneficia a todos. Os bens são manufaturados apenas se as pessoas quiserem comprá-los e são produzidos pelos mais aptos a fazê-lo. Motivos talvez egoístas são postos a serviço de todos”

Mão invisível – livre mercado: apesar de ser o egoísmo de cada um que rege suas ações, as pessoas podem se mover por diferentes caminhos e, ainda assim, se harmonizar e ajudar um ao outro – mas não intencionalmente. Noutra afirmação clássica, Smith declara que se todos procurarem promover o seu próprio interesse, a sociedade prospera como um todo:

“Ele (...) nem pretende promover o interesse público, nem sabe o quanto ele o está promovendo (...) visa apenas ao seu próprio ganho, e está nisso, como em muitos outros casos, guiado por uma mão invisível para promover um fim que não era parte de sua intenção”

Essa mão invisível simplesmente simboliza o verdadeiro orquestrador da harmonia social – o livre mercado. O escritor Todd G. Buchholz, em seu livro “Novas idéias de economistas mortos”, dá o exemplo de John, um jovem escultor que um belo dia resolve esculpir estátuas de grandes abutres para vender em sua comunidade. Nem preciso dizer que o mercado para esculturas de abutres não é lá muito grande, o que faz John rapidamente desistir dos abutres e passa a produzir mesas, produto esse que encontra uma melhor acolhida entre seus vizinhos.

Divisão do trabalho: o exemplo clássico de Smith é a fábrica de alfinetes, onde ao invés de cada trabalhador começar do arame até chegar ao alfinete acabado, seria mais inteligente dividir o trabalho entre os diversos processos de produção, ganhando-se agilidade e produtividade.

Honestidade: para Smith, a honestidade é a melhor política na condução dos negócios. Quando há um cenário de confiança entre os agentes, as operações se dão de forma mais fluida, sem a participação de intermediários ou ferramentas que atestem a validade do que está sendo proposto. Em outras palavras ganha-se tempo e dinheiro. Para Smith:

“A natureza, quando formou o homem para a sociedade, dotou-o de um desejo original de agradar e de uma aversão original a ofender os irmãos. Ela lhe ensinou a sentir prazer quando o avaliam de maneira favorável e dor quando o avaliam de maneira desfavorável.”

Ele ainda acrescentou:

“O êxito da maioria (...) quase sempre depende da simpatia e da opinião favorável dos semelhantes; e sem uma conduta toleravelmente regular, é raro obtê-las. O bom e velho provérbio, portanto, segundo o qual a honestidade é sempre a melhor política, se mantém, em tais situações, e quase sempre é verdadeiro.”

Como vemos, são princípios simples, mas descritos com a genialidade de Smith, que nortearam o pensamento liberal e a forma de fazer negócios nos últimos 200 anos de economia capitalista. Infelizmente, de tempos em tempos parece que alguns desses ensinamentos são esquecidos e acabam sendo substituídos por outros nem tão brilhantes. O resultado é conhecido: escuridão do pensamento, pobreza e crises financeiras.

Bibliografia

  • ARIELY, Dan. Previsivelmente irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões. Tradução de Jussara Simões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
  • BUCHHOLZ, Todd G. Novas Idéias de economistas mortos; tradução de Luiz Guilherme Chaves e Regina Bhering. Rio de Janeiro: Record, 2000.
  • GONÇALVES, Carlos e GUIMARÃES, Bernardo. Economia sem truques: o mundo a partir das escolhas de cada um. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
  • HARFORD, Tim. O economista clandestino. Tradução de Fernando Carneiro. Rio de Janeiro: Record, 2007.
  • MCMILLAN, John. A reinvenção do bazar: uma história dos mercados; tradução de Sergio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar E., 2004.

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Alexsandro R. Bonatto, economista e com MBA em Gestão Empresarial, é professor universitário, instrutor e sócio da Ventura Corporate, empresa de treinamentos corporativos. Tem mais de 13 anos de experiência no mercado de crédito.

Crédito da foto para stock.xchng.


Imagem de Alexsandro Rebello Bonatto

17 comentários

  1. Imagem do comentarista
    Eduardo nienkoetter

    bom texto.

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    alpha

    "Mesmo aqueles que gostam de abater gado"

    soh um psicopata gostaria de viver com a morte de outros seres.

    smith estava certo quanto ao egoismo mas estava imcompleto, aih veio John Nash e terminou o pensamento mudando 150 anos de economia. Realmente, a crise foi inflamada pela falta de honestidade nos emprestimos ninja.

    mão invisível = Lord Jacob von Rothschld

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    Excelente, texto.
    Princípios sábios que parecem estar esquecidos e hostilizados ante a crescente sanha protecionista atual.

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    alpha

    vc eh ventura que gere o Ventura Hedge Cambial FIM ???

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    Hedger

    Um dos melhores textos que li aqui no dinheirama!

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    [...] Continue lendo este artigo… [...]

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    Renan

    Primeiro lugar: Parabéns pelo excelente texto.

    Segundo: Minha opinião....

    Concordo que sempre que ocorrem grandes crises o protecionismo e a intervenção estatal surgem como a grande salvação dos problemas.
    Mas acredito que as crises tornam a surgir sempre que "a ameaça se torna distante" e a "vigilancia" relaxa a sua intervenção.
    O mercado, aparentemente tem o poder de trazer os agentes economicos de volta a uma condição "ideal" de equilibrio. Mas apenas aparentemente. A natureza das mercadorias que são negociadas, a má distribuição das informações entre os agentes, a infinidade de capacitações diferentes que uma pessoa pode obter, as forças políticas que não seguem o racional econômico entre muitas outras coisas, constituem-se em elementos geradores de imperfeições e externalidades que impedem com que a condição "ideal" de equilibrio seja plenamente atingida como prevê o Sr. Adam Smith. Dado isso, é extremamente improvável (diria que um golpe de muita sorte) que apenas a força do egoismo de cada individuo produza o melhor resultado para a sociedade.

    Por isso que eu acredito que a intervenção estatal, quando baseada em um estudo profundo dos mecanismos de funcionamento de cada mercado, é extremamente positiva e capaz de produzir resultados sociais superiores ao livre mercado.

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    Gostei muito do texto, parabéns!
    É o que eu penso em relação a muitas coisas, todas elas movida ao interesse de ambas as partes.

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    Daniel Pondé

    gostei do texto.
    parabéns
    abraço

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    Marcos J.

    John Nash completou: " O melhor resultado ocorre quando as partes procuram a opção que simultâneamente atenda seus anseios pessoais e o do grupo"
    A cena do bar, da loira, dos amigos e amigas é clássica no filme "Uma Mente Brilhante".
    É obvio que o pensamento evoluiu desde 1776, e devemos ser cuidadosos com adoção e aceitação de idéias de 200 anos atrás. Muitas contunuam válidas, mas com certeza foram aperfeiçoadas. ( Ninguém gostaria de ser tratado por um médico de 1776)

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    Bruno

    as teorias de Smith e da Mao Invisivel sao (desculpem o teclado) muito boas e fazem parte do pensamento economico classico. O problema eh que nao devemos achar que essa teoria se aplica realmente na pratica para o beneficio geral de todos. Isso era o que ele acreditava ha 200 anos e o que muito gente acreditou nos ultimos 20 anos, mas no mundo real os individuos nao possuem igualdade de poderes, pelo contrario, ha abismos fenomenais de poderes. Se nao ha equilibrio de poderes entre os individuos os interesses individuais de uns serao atendidos enquanto o de outros nao serao atendidos. Logo eh uma utopia acredita que ha melhora geral para toda a comunidade quando cada um luta apenas pelos seus proprios interesses.

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    [...] de economistas mortos”, dá o exemplo de John, um jovem escultor que um … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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    Eve Rand Janes Dias

    amei todos os textos!!!

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    Nelma Fançony

    Estou a me formar em economia,e espero do fundo do coração dar um grande contributo, para o desenvolvimento e expanção desta área do saber, e ser uma fiel seguidora de Adam Smith( 1723 - 1790) não simplismente por ser o pai da Economia mas pela grande sabedoria que carregou nos seus ,anos de vida que ainda são utéis nos dias de hoje.
    É de mencionar o livro a riqueza das nações que clareia todos os aspectos necessários, para um estudo perfeito da Economia, focando no assunto em questão que é a mão ínvisivel que no âmbito da imperfeição do ser humano e âmbição acarrectada pela maioria é meio defícil só para ´não dizer complicado ter uma concorrência perfeita, mas temos uma grande queda para a imperfeita.

    Um grande abra~ço a todos que incansavelmente estudam,e, elaboram trabalhos ligados a Economia.

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    [...] mortos”, dá o exemplo de John, um jovem escultor que um … fique por … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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    Luciene

    Texto básico, mas que traz um bom embasamento para quem quer entender as idéias de Adam Smith, agradeço a contribuição.

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