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A crise financeira, atitude e o abismo da sociedade

13comentários

A crise financeira, atitude e o abismo da sociedadeDesde que o mundo é mundo, ou melhor, desde que o mundo experimentou a primeira crise financeira (ao que tudo indica na Roma antiga, em 88 A.C.), surge nesses momentos um grande pessimismo, que aos poucos começa a se enraizar e fazer parte do dia-a-dia das pessoas. São muitos os argumentos técnicos e financeiros que surgem nestes períodos para embasar atitudes administrativas e medidas drásticas, como cortes de custos, ajustes de salário/jornada e até demissões em massa.

Mas, o que acontece hoje no Brasil? Como definimos os reflexos da crise em nossos resultados e em nossas empresas? O Presidente Lula, no alto de sua grande popularidade (que acaba de bater mais um recorde), deixa claro que quem apostar contra o Brasil se dará mal. Tirando sua posição, algumas de suas opiniões e acertando alguns “pingos dos is”, concordo com ele.

O primeiro ponto que merece nossa atenção é que nem a pessoa mais pessimista do governo imaginava que a crise chegaria de forma tão forte ao país – por esta razão, provavelmente não nos preparamos adequadamente e fomos pegos “de calças curtas”.

O crescimento, o consumo e as mudanças
É importante notar que durante o período de bonança poucas pessoas guardaram dinheiro[bb] e se dedicaram a viver dentro de um padrão financeiro realista. Pior, as pessoas se endividaram muito e começaram a usar mais as ferramentas de crédito (como cartão e cheque especial) como complemento de renda.

O consumo correu solto e pontuou o crescimento da indústria e do setor de serviços, levando ao povo brasileiro produtos e opções que antigamente eram exclusivos de pessoas com faixa de renda muito altas. Um bom exemplo disso são os serviços de Internet banda larga e TV a Cabo, que se popularizaram bastante.

Outro setor que experimentou um crescimento enorme nas vendas foi o automobilístico. Entretanto, aqui cabe uma ressalva muito importante: em sua maioria, as pessoas compraram carros de forma parcelada, usando o farto crédito, entrando em financiamentos longos e, quase sempre, muito caros.

Com o desemprego e a queda da renda observada já no último trimestre de 2008, alguns indicadores preocupantes começaram a aparecer. Entre eles está a taxa de inadimplência no setor automobilístico. Aliás, muito se fala sobre o potencial devastador que a inadimplência nesse setor pode trazer para a economia brasileira. Tomara que o pior não aconteça.

A contaminação, o pessimismo e as escolhas
Voltando para o raciocínio inicial, as crises são cíclicas e agem também no aspecto comportamental das pessoas. O pessimismo é um como um vírus letal que afunda de forma grotesca ótimos negócios, ótimas empresas e grandes países. Ora, quem tem dinheiro[bb] não investe, nem gasta.  Quem tem sua renda comprometida prioriza gastos fundamentais, como alimentação, moradia e transporte. E lá se vai mais uma parcela do carro sem pagar.

São escolhas. Escolhas muito difíceis, aliás. O fato é quem opta pelo imediatismo se vê enrolado até o pescoço no endividamento. Aliás, qual é mesmo o número de brasileiros endividados? 80 milhões, algo muito próximo de 80% da população economicamente ativa. Muita gente, não é mesmo?

Quanto ao governo brasileiro, o caminho é um só: Incentivar o crescimento econômico. Como? Para começar, que tal poupar o dinheiro público, diminuir gastos de custeio da máquina pública e priorizar os investimentos? Assim criam-se empregos e se prepara o país para os desafios do crescimento após o fim da crise – ela há de ter fim.

Atenção especial com os juros básicos da economia e o spread bancário. Não dá pra levar bem uma economia[bb] com as taxas reais de juros praticadas atualmente. É preciso uma reforma tributária real para que as empresas possam produzir e as pessoas de maneira geral não vejam seus rendimentos se direcionarem a serviços de péssima qualidade e ineficazes.

Programas sociais são bons, justos e necessários, mas o que sobra deles de aprendizado e preparação para as pessoas? E se os governantes mudarem e os programas forem extintos? Portanto, é preciso mais: é preciso que o as pessoas estejam aptas a seguir em frente, se qualifiquem e aprendam que crises podem representar grandes oportunidades.

——
Ricardo Pereira é educador financeiro e palestrante credenciado pelo Instituto DiSOP, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

Ricardo Pereira

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Educador financeiro, palestrante, Sócio do Dinheirama é autor do livro "Dinheirama" (Blogbooks), trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama. No Twitter: @RicardoPereira

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  • http://yahoo Eduardo

    Ricardo parabéns pelas linhas, ánalise crítica e realista, vamos esperar o que vem por aí, e não esquecer de investir, pois depois da tempestade vem a bonança!!
    abraço

  • Giuliano Oliveira

    Ricardo, seu texto abordou com perfeição as fontes da crise (brasileira). Ao fazer um paralelo com o modo de vida americano, temos as nossas similaridades e diferenças. Realmente a cultura do consumismo é uma das raízes podres do nosso modo de vida. Todos estão endividados aqui tal como lá. Quando aprenderemos a planejar ações de longo prazo, pensando em nossos filhos e netos, ações a acontecerem em 30 – 40 anos? Queremos um governo forte para ajudar a economia em momentos como esse, mas não suportamos mais o aumento dos gastos públicos com salários e desperdícios desnecessários. Queremos investimentos em infra-estrutura para gerarmos empregos e termos um país mais competitivo para o pós-crise. Chega de esmola para o povo, a solução é trabalhar ainda mais.

  • http://www.fgsolutions.com.br Gabriel Carlini Vieira

    Concordo com todos os pontos mencionados Ricardo. O Brasileiro tem muito pouco conhecimento sobre educação financeira. Com a facilidade do crédito, muitas pessoas compraram carros em mais de 50x com parcelas altíssimas e não pensaram mais pra frente. Agora chega o desemprego com a crise, e lá se vai o valor das dívidas aumentando exponencialmente.

  • Eduardo Severino

    Crises podem sim representar grandes oportunidades para quem aprendeu e pretende buscar a educação financeira, reservando parte do salário ou renda, comprando a vista e evitando gastos desnecessários, no meu caso hoje não sinto a crise pois não tenho crediários a pagar e procuro comprar a vista tudo o que preciso. Nada mau para quem a pouco tempo atrás estava com 6 empréstimos! VIVA A EDUCAÇÃO FINACEIRA!!!

  • alpha

    jah tinha lido o artigo dos 80% endividados mas me espantei de novo.

  • douglas

    Se o Brasil está ou não preparado para a crise é o que poderemos ver somente adiante, mas mesmo que a crise se torne mais intensa em nosso pais, com certeza não será com tanta intensidade como em paises desenvolvidos é óbvio.
    Mas o consumismo é o grande vilão da economia, pois no Brasil vivemos somente uma pequena parte deste consumismo, pois somente os americanos são responsaveis por aproximadamente 40% do consumo mundial e nos brasileiros somos influenciados por este consumismo. Mas existem grandes diferenças culturais entre os mesmos.Pois desde cedo o americano tem melhor acesso a informação e nos brasileiros temos poucas chances de uma educação de qualidade.
    Vejamos como a midía nos influencia e de certo modo nos manipula com propagandas e propagandas que dizem que devemos ter isso ou aquilo para sermos felizes.E o que me vem a pergunta: Será mesmo que preciso de tudo isso para ser feliz?

  • Glauce

    Encontrei o blog por acaso e achei muito interessante. Estou aprendendo zilhões de coisas que antes nem parava para pensar. Passarei a lê-lo todos os dias! Parabéns pela qualidade das matérias e, claro, muito obrigada pela dedicação a elas! =)

  • Daniel Pondé

    gostei muito do artigo, parabéns mais uma vez Ricardo.

  • Amorim

    Copo meio cheio, meio vazio

    Creio que estamos no caminho certo discutindo esse assunto. Parabéns!
    Para que haja o certo tem que haver o errado, senão não teriamos o conceito de certo.
    Para que haja educação financeira para a população, primeiro ela tem que gastar muito, sofre as consequencias em épocas de crise. Observadores, pensadores e politicos percebem a situação e discutem em vários canais de comunicação, e chega-se a conclusão que a população precisa de educação financeira. Em muitos países do mundo o processo foi assim. Lento, mas é assim. O Brasil começa a passar pelo mesmo processo.

    Mas continuo sentindo que que aqui, como em outros posts do site, temos muitos anti-lula, que não analiza a situação como um todo. Sempre ouço aqui a frase: “chega de dar dinheiro pro povo”. Esses, se fossem um pouquinho mais gananciosos, e outros um pouquinho mais corajosos, continuaria a frase: “dê pra min”.
    Existem dois modos de se investir os recursos do estado. Um é todo recusrso em infra estrutura. Outro é uma parte em infra estrutura e outra parte em subsidio financeiro em populações de classe baixa (isso inclui bolsa familia, renda minima, primeiro emprego,etc).
    O primeiro é o mesmo que enriquecer ainda mais os grandes empresários (além claro de criar vários postos de trabalho, claro, mas isso significaria apenas 0,5% dos recursos diretos, e os outros 99,5% ficam com vários empresários, inclusive extrangeiros). O segundo é o mesmo que dividir com os dois, ricos e pobres. Se isso não fosse certo, vários outros países não fariam subsidios de classe baixa, agricola, industrial, etc.

    Outra frase ótima: “o consumismo é o grande vilão da economia”. Esses são os do “copo meio vazio”.
    O consumismo (inclua-se também aí o subsidio do governo para a “classe baixa” para os que são do contra ), faz a loja vender, que faz a fábrica produzir mais, que contrata mais mão de obra, que encomenda mais matéria prima, que gera mais emprego. Mais empregos estimula mais pessoas em faculdades (que já é uma realidade, pois há 15 anos atrás isso era pra poucos), gerando mudança de status social (tirando muitos da faixa de subsidio financeiro do governo), criando uma mente mais aberta para aceitar mudandas, gerando uma sociedade mais educada, mais ciente de seus direitos e deveres.
    Pronto.
    Resolve muitos problemas.

    Vamos mudar o titulo da matéria: A crise financeira, atitude da sociedade

  • http://www.dinheirama.com Ricardo Pereira

    Bom dia, todos os amigos que deixaram os comentários no artigo. Como sempre gosto de mencionar quem faz o sucesso do Dinheirama são os leitores.

    Alguns comentários seguiram no sentido de politizar o artigo, levando a discussão para o governo Lula, quando o que pensamos no artigo foi discutir o que se espera de um programa social em momentos de crise, como o atual.

    A crítica ao Bolsa família é clara, ela é um meio de remediar uma situação, ela não resolve o problema real do Brasil que é a baixa instrução da população e a falta de preparo para criar uma mão de obra especializada que lá na frente consiga caminhar sozinha sem ajuda das autoridades.

    Concordo que no momento de falta de empregos, temos que pensar em garantir o mínimo para a sobrevivência do ser humano, mas se nos contentarmos apenas com isso, iremos aceitar a péssima situação da maioria da população e nos acomodar com a distribuição de renda no Brasil. Dar dinheiro ao povo é fugir da responsabilidade, ou um pai fica tranqüilo em apenas dar dinheiro ao filho sem instruí-lo como gastar bem?

    Ninguém aqui é contra o consumo. Pelo contrário sempre defendemos que todo mundo deve realizar os sonhos, sejam eles comprar um carro, uma casa, um celular novo. O que defendemos é que para chegar lá, ao invés de se atolar em dívidas para consumir sem critério é possível poupar e em pouco tempo comprar o que quiser. Simples assim!

    O Título do Artigo não mudará se a mensagem nele contído for absorvida, sem ideologismo.

    Forte abraço!

  • Amorim

    Ricardo, o negócio não é “remediar uma situação”, é uma ação certa a se fazer. Em muitos países do mundo existe isso, inclusive Alemanha,EUA, e outros. Em todos países do mundo existem os ricos e os necessitados, e um governo não pode deixar os necessitados a mercê da sorte. Esse assunto no Brasil é polemico porque existem muitos de baixa renda, consequentemente o sibsidio é um valor muito alto, e quando o valor é muito alto $$$$$, fazer crescer a inveja e a ganancia. Em países ricos esse valor é baixo, então quem mexe com “dinheirama” não se importa, o assunto nem é nota de rodapé de jornal.
    Conheço algumas pessoas que recebiam esse subsidio, e acredite, os que saíram dela, estão felizes por conseguir uma oportunidade de ter uma renda propria e melhor.
    Faça uma pesquiza e descubrirá que muitos países usam o artifício de subsidio a população de baixa renda, até na Alemanha existe o sibsidio a estimulo à Natalidade, e foi muito polemico quando foi aprovado.
    Ainda sobre subsidios, já conhece o montante que o governo EUA concede a agricultura e é uma grande discussão na OMC. Considere o Brasil um país novo, democracia nova, muitos ajustes a se fazer. Não podemos comparar e equiparar com outros países bem desejáveis.
    Em se tratando de Brasil, olhe para trás e veja que houve muitos avanços, estamos melhorando, leva tempo. Investimento de longo prazo. Não estou tentando mudar um pontos de vista, mas mostrar que existem outros pontos de vista a considerar.

  • http://www.maiscommenos.net/blog/?p=447 Nanny Costa

    Oi, Ricardo.

    Excelente artigo! Programas sociais não podem se limitar a bolsas-auxílio, assim como as grandes corporações precisam assumir sua parcela de responsabilidade com a sociedade. O consumo pelo consumo não deve ser incentivado, e a idéia do lucro pelo lucro também deve ser abolida.

    Dinheiro só é bom quando gera benefícios para todos os envolvidos, e isso inclui o meio-ambiente. E não estou falando de programas socio-ambientais. Falo de colocar o dedo na ferida e questionar as bases do atual sistema.

    “Em economia, a crise assinala o encerramento de um ciclo. Durante a crise, um processo de destruição de valor cria os fundamentos para o início do ciclo econômico seguinte.” Demétrio Magnoli em O Grande Jogo.

  • http://GOOGLE NATALIA

    OI COMO FAZ PRA VER UMAS IMAGENS DA SOCIEDADE E ECONOMIA NO BRASIL MELHOR

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Quem já falou do Dinheirama?

Conheci o Dinheirama justamente numa fase "transitória" de minha vida... num momento onde estou em processo de total metamorfose e mudança de frequência mental. O Dinheirama está sendo pra mim uma carta de frequências, ajudando a sintonizar minha mente onde ela nunca esteve, no oceano de conhecimento da Educação Financeira, mar que nunca tive oportunidade de navegar no sistema educacional tradicional. Só devo agradecer!

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