Consumo, estabilidade e poupança: o paradoxo da classe C
Publicado por Conrado Navarro em 06.4.2009 na seção Finanças Pessoais
Em encontros com amigos e diante de familiares sempre procuro conversar de dinheiro – até porque é disso que vivo. Nestas conversas, sempre lanço a seguinte pergunta: “a falta de dinheiro o preocupa?”. Adivinhe qual a resposta mais comum? Pois é, parece que o dinheiro é motivo de preocupação, especialmente quando temos compromissos para honrar e dívidas para pagar. A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) decidiu realizar uma pesquisa mais abrangente neste sentido, entrevistando mil pessoas no final de fevereiro:
- A segurança é o maior motivo para preocupação de brasileiros, com 37% dos votos;
- A falta de dinheiro para honrar contas aparece em segundo, com 24% das opções;
- O temor de perder o emprego, quem diria, aparece em terceiro, com 10%;
- Educação, com 9%;
- Precariedade dos serviços de saúde, com 8%;
- Inflação, 6%;
- Qualidade da infraestrutura, 2%;
- Distribuição de renda, 2%;
- Outros, 2%.
A segurança em primeiro lugar. Em um país como o Brasil, a primeira posição é óbvia. No entanto, confesso ter ficado um pouco surpreso com a segunda maior causa de preocupação dos brasileiros. Afinal, com a visível desaceleração da economia era de se esperar que o desemprego assustasse mais. Que nada, "apenas" 10% da população pensa nisso. O dinheiro, pois sim, preocupa nada menos que ¼ dos entrevistados.
Comprar é fácil. Mas quem paga?
A verdade, me parece, é que o brasileiro entrou de vez na onda do consumo. Nada demais ou de errado, já que a economia trilhou excelentes rumos até meados do ano passado. O problema está na atitude “comprar primeiro, pensar em pagar depois”. Se há preocupação excessiva com a capacidade de pagamento, há nítida falta de planejamento. Será que não andamos comprando coisas demais?
Isso me lembra o resultado de outra pesquisa, realizada pela agência de publicidade McCann Erickson, divulgada no mês passado: a classe C brasileira quer consumir mais, não poupa, mas exige estabilidade econômica para colocar seus planos em prática. Com a palavra Aloísio Pinto, vice-presidente da empresa e um dos responsáveis pelo estudo:
“O desejo prioritário da classe C é hoje consumir sem preocupação e aprender a se comportar como classe media. (...) Têm a necessidade de priorizar os gastos, carregam sempre alguma pendência financeira, mas não sofrem a falta de alimentos. (...) É curioso perceber que a classe C deseja consumir mais, mas não demonstra a preocupação em mudar de classe”.
Fonte: Folha Online – 11/03/2009
Consumir sem preocupação pressupõe planejamento. Ou não? Logo, as constatações da pesquisa da McCann são ainda mais sérias:
- Apenas 38% dos entrevistados disseram ter o hábito de poupar dinheiro;
- Ainda assim, 45% das pessoas afirmaram utilizar a poupança como se fosse uma conta corrente, sacando o valor para gastos mensais e etc.;
- Falando em dinheiro, 47% afirmaram já terem feito empréstimos bancários. Quase todos (91%) apontaram a burocracia como principal problema na obtenção do crédito;
- Mas, é claro, 82% dos entrevistados afirmaram que a estabilidade econômica é prioridade.
Onde fica o esforço pessoal e o interesse em planejar?
É claro que quase todo mundo deseja estabilidade financeira. Mas, será que estamos dispostos a colocar em prática os hábitos capazes de fazer desta estabilidade uma situação sustentável e de longo prazo? Os dados da pesquisa não me ajudam a acenar positivamente com a cabeça. Então será a estabilidade econômica só mais um sonho? Se queremos mudar este quadro, sugiro:
- Que você poupe mais. Guarde algum dinheiro e estabeleça alguns objetivos. Se trocar a mobília da casa ou garantir o ensino superior dos filhos são alguns de seus sonhos, passe a investir mensalmente algum dinheiro para atingi-los;
- Que você use menos o crédito farto disponível por ai. Pare de pagar tudo usando as intermináveis parcelas. Junte o dinheiro, negocie e pague à vista. Deixe o crédito para operações mais importantes e interessantes, como a compra de um imóvel por exemplo;
- Que você se informe melhor. Experimente ler algum livro de finanças pessoais e conhecer um pouco melhor as ferramentas disponíveis para controlar seu dinheiro. Implemente um orçamento doméstico rigoroso, controle os pequenos gastos e conheça novas e boas alternativas de investimento
.
Alguns leitores dirão que as dicas são velhas, simplistas e repetitivas. Cansativas, talvez. Provavelmente, vocês estão certos. Tomara que de tanto repeti-las e incansavelmente trabalhá-las, eu possa finalmente ver lotada minha caixa de e-mails com mensagens afirmando que as pesquisas aqui citadas não mais representam a realidade da maioria de nossa população. Até lá, insistirei loucamente no assunto!
------
Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.
Crédito da foto para stock.xchng.
Conrado Navarro
Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro
Mais sobre Conrado Navarro Outros textos de Conrado Navarro

























Insistir na educação financeira sempre faz bem, ainda mais que a maioria das pessoas, não foi criada com esse principio! A consciencia veio lendo o blog desde o inicio e discutindo-o com amigos e a namorada.
# Apenas 38% dos entrevistados disseram ter o hábito de poupar dinheiro;
Quando li esta parte. Fiquei feliz, iria até defender os tupiniquins, porque 38% é um número respeitável - para um país em desenvolvimento. Mas em seguinda veio o: "Ainda assim, 45% das pessoas afirmaram utilizar a poupança como se fosse uma conta corrente, sacando o valor para gastos mensais e etc." Aí eu fiquei muito triste. É necessário uma reformulação cultural, ou estaremos mortos.
Pois, não me surpreende muito que a falta de dinheiro assusta mais. Porque que é o problema mais importante de não ter emprego? Sim, FALTA DE DINHEIRO. Então a pergunta em esta pesquisa é um pouco problemática, já que uma resposta está quase 100% incluída em outra.
Com o resto concordo plenamente. No shopping sempre me assusta como alguem pode comprar um Tênis em 10 vezes? De pois de 10 meses um tênis bom usado já não existe mais. Ou que vi faz pouco tempo em um banco: pague o IPTU em atê 24 vezes???? E o IPTU do ano que vem, como vai pagar isso??? Em ate 48 vezes????
Aqui no Brasil você atê que tem que procurar o preço a vista. Sempre escrito bem pequeno, escondido embaixo dos valores das parcelas, que são tão mais atraentes. Multiplicado por 10, 12, o 24 vezes nem são tão atrativos mais. Mas quem quer lembrar da matemática na hora de comprar uma televisão LCD de 52 polegadas, para logo em casa notar que nem é tão legal em uma sala de 2 metros e com os programas não digitais...
O problema é exatamente esse Conrado. As pessoas as vezes até se preocupam com a estabilidade, e são extremamente perseverantes... durante uma semana... (risos)... Esse é o longo prazo do brasileiro..
"dinheiro – até porque é disso que vivo"
todos nós caríssimo.
abraço,
parabéns pelo texto
“O desejo prioritário da classe C é hoje consumir sem preocupação e aprender a se comportar como classe media. (…) Têm a necessidade de priorizar os gastos, carregam sempre alguma pendência financeira, mas não sofrem a falta de alimentos. (…) É curioso perceber que a classe C deseja consumir mais, mas não demonstra a preocupação em mudar de classe”.
A Classe C descobriu agora o prazer do consumo. Por isso, não pensa em poupar, em ascender financeiramente. Hoje um classe C pode financiar um carro bem novo, motos, eletro domésticos bem sofisticados... enfim, não pensa em ganhar mais, mas em consumir mais.
O comentario do Douglas foi na mosca, hoje a classe C pensa em consumir mais e não em ganhar mais.
Parabéns Navarro.
Pessoal, estou enroscado... Estou fazendo TCC sobre clube de investimentos e tenho uma dificuldade imensa em citar como se comporta os poupadores brasileiros, Navarro voce ajudou bastante com sua pesquisa!