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Inteligência financeira contra a euforia do baixo IPI

10comentários

Inteligência financeira contra a euforia do baixo IPICristiano comenta: “Navarro, a recente redução do IPI para alguns eletrodomésticos tem gerado grande euforia nos consumidores. Parece que o objetivo da medida – reaquecer a economia e fazer as pessoas voltarem a consumir – será alcançado. No entanto, muitos compram simplesmente porque o produto está ‘em promoção’, sem observar qualquer regra de planejamento ou mesmo necessidade. Dito isso, onde fica a lógica da medida? E que raciocínio deve ter o consumidor?”

Consumir é um ato que representa a necessidade de inserção social (palavras muito diferentes de inclusão social), especialmente quando se trata da parcela da população por muito tempo sem acesso ao que hoje se considera essencial para uma vida mais rica e confortável. Como sempre digo, não há nada de errado em consumir e alinhar sonhos e desejos à tendência de aumento de renda e produtividade[bb]. Assim, fica fácil enumerar pelo menos três pontos que definem a importância do consumo:

  • Mais empresários lançam seus produtos e novidades. O país cresce, “fatura mais”, gera mais empregos e oportunidades de trabalho. O ciclo ganhar-gastar-crescer toma corpo;
  • Aumenta a competitividade. Com mais opções, o consumidor pode comprar melhor e as empresas têm que criar produtos diferenciados e mais acessíveis. Basta pensar no exemplo clássico do celular, sua facilidade de aquisição e preços cada vez menores;
  • A economia se fortalece. O giro de capital movimenta as esferas econômicas que sustentam o país, seus investimentos em capacidade produtiva e programas sociais. O dinheiro circula, como há de ser, e é aplicado onde faz diferença (em tese).

O contra-ponto está no lado do consumidor, que tanto trabalha para receber seu salário e benefícios e acaba gastando-os de forma imprudente e não planejada. Apesar do já ressaltado valor econômico e social do consumo, sua equação prática e moral não é tão simples. Consumir muitas vezes significa comprometer prioridades familiares, destruir sonhos e cair em um problema crônico de endividamento – e essa realidade aflige milhões de cidadãos de nossa nação. Tenho certeza que você conhece pelo menos uma família com graves problemas financeiros.

A relação entre consumidor, governo e economia
Muitos comentários e mensagens recentes tratam as ações tomadas pelo governo de forma superficial. A questão deve ser pensada de forma menos partidária e mais pragmática. Neste sentido, proponho duas reflexões:

  • Até que ponto as eleições do ano que vem influenciam as decisões do governo no combate à crise? Pense de outra forma: um ano economicamente fraco, com maior desemprego e sem oportunidades de consumo para os grandes eleitores do país diminuiria muito a aprovação e satisfação com o governo? Em quanto?
  • Até que ponto as medidas tomadas realmente reanimam a economia e permitem que o quadro seja revertido? Ou: incutir juros mais baixos nas transações, incentivar o consumo através de concessões tributárias e facilitar o acesso ao crédito trarão o ciclo produtivo ao seu nível satisfatório, com empregos e crescimento? Quando?

A ausência da hipocrisia, característica típica de meus textos, não deixa espaço para qualquer tentativa de manipulação política. A verdade é que ambas as reflexões têm que ser realizadas em um mesmo contexto, com os vieses e conseqüências cuidadosamente trabalhados de forma a melhorar o país. Em suma, trata-se de observar o Brasil enquanto conjunto formado por política, bom senso, conhecimento técnico e tácito e boa vontade. Se nossos representantes assim o fazem, ou deixam de fazer, já não me meto a opinar.

Logo, é no mínimo interessante notar o apetite do governo em promover medidas anti-crise. Mas, ao que parece, o movimento é assim intenso para “correr atrás” do tempo perdido, quando havia a impressão de que seríamos atingidos por uma “marolinha”. Agimos tarde? Parece que sim, mas em economia[bb] tudo é muito mais complicado (e simples) do que parece. Acertar pode ser tão difícil quanto prever erros e acertos. Criticar, ufa, é sempre mais fácil.

Consumamos, pois, mas com inteligência financeira
A esta altura você está achando o texto politicamente complexo e financeiramente pobre demais. Você não tem razão. O breve insumo sobre a nossa economia e sobre as complicadas decisões que fazem parte do dia-a-dia de uma equipe de governo é material precioso para que possamos formar opinião sobre um ano que se mostra repleto de mudanças e desafios. Sugiro que as inflamações partidárias sejam finalmente deixadas de lado para que possamos debater o consumo consciente, uma das razões de existência deste espaço.

Comprar porque há redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) representa uma decisão inteligente? Por que? Enquanto muitos vendedores e consumidores nem ao menos entendem a razão para a queda do imposto e se endividam para aproveitar a “oferta do ano”, outros usam o momento para aproveitar suas planejadas economias para melhorar seu padrão de vida. Ambos consomem, mas apenas um grupo se beneficia.

Uns têm prioridades. Outros as vêem como armadilhas contra a realização pessoal. Imediata, é claro! Comprar porque custa menos não sinaliza, nem de longe, uma boa compra. Parcelar, levar para casa um carnê que vai penalizá-lo durante meses e comprometer seu orçamento não é nada saudável. E pegam no meu pé porque eu sou contra o parcelamento. Pois é, sou contra.

Assim como sou contra quem compra, mesmo à vista, aquilo que lhe serve apenas como consolo emocional. Sou contra apimentar o já incipiente e desvalorizado preparo das pessoas para lidar com dinheiro[bb] com doses de euforia, consumismo e culto ao esbanjamento. Pagar o melhor preço sem se endividar e sem sacrificar prioridades e planos para a família e a hora de diminuir o ritmo, isso sim é comprar bem. Tudo o mais é passível de opiniões azedas de minha parte.

Inteligência financeira significa separar o que querem que você compre daquilo que você planejou e se preparou para comprar. Se agora custa menos, ótimo. Se não, paciência. Afinal, se você planeja e sustenta um orçamento equilibrado, vai comprar e realizar seu objetivo mais cedo ou mais tarde. Ou melhor, na hora certa. Não adianta inflar artificialmente (leia-se com dinheiro que você não tem) sua teia de bens quando o futuro é incerto. Para estes, a casa sempre cai – e nisso não há intervenção federal que dê jeito.

——
Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro

Mais informações

Educador financeiro, tem MBA em Finanças pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks) e autor do blog "Você Mais Rico" da Revista Você S/A. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: @Navarro.

Leia todos os artigos de Conrado Navarro

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  • Link Curto: http://bit.ly/xcZtJi
  • Carmen

    Meu filho.

    Pela sua linha de raciocínio concluo que devemos identificar o que o governo planejou e preparou para não cair nas armadilhas das campanhas políticas em favor da realização dos interesses do pessoal que está lá.

    Será que vamos conseguir mesmo escapar do forte apelo emocional ou vamos persistir na busca pelo consolo através de doses de euforia, consumismo e culto ao esbanjamento?

    Inteligência financeira também significa separar o que querem que a gente engula daquilo que merecemos de verdade.

    Se o governo realmente se importasse há muito teria planejado um orçamento equilibrado e sustentável em benefício de todos nós e teria atingido as metas prometidas desde a primeira camapanhas, ou melhor, na hora certa.

    Não adianta tentar inflar artificialmente (leia-se com dinheiro que nós não temos) a economia quando o futuro é incerto. A esta altura fico torcendo para que a casa caia para os interessados de plantão e que nós saibamos virar o rumo das coisas.

    E por falar nisso, cadê os dez milhões de empregos que o Lula prometeu? Alguem se lembra disso???

  • Matteo

    “E por falar nisso, cadê os dez milhões de empregos que o Lula prometeu? Alguem se lembra disso???”
    Pois é – eu tinha me esquecido disso ! Aonde estão estes empregos ? Só se forem 10 milhões de FAMILIARES q tem “direito” de viajar pelo mundo com dinheir publico.

  • http://aartedevender.blogspot.com A Arte de Vender

    Inteligênci financeira se aprende em casa. Com ou sem ajuda, quem não tem organização financeira vai viver sempre na dívida.

    A baixa do IPI vai ajudar quem trabalha na construção civil e quem quer ter sua casa própria. Ponto!!
    Governo nenhum cria a utopia. =/

    Gostei do post.

  • Bruno

    Carmem disse:
    “Pela sua linha de raciocínio concluo que devemos identificar o que o governo planejou e preparou para não cair nas armadilhas das campanhas políticas em favor da realização dos interesses do pessoal que está lá. ”

    O Navarro disse que prever erros e acertar é extremamente difícil. Pelo seu comentário, você dá a entender que não compreendeu o que isso significa.

    “Será que vamos conseguir mesmo escapar do forte apelo emocional ou vamos persistir na busca pelo consolo através de doses de euforia, consumismo e culto ao esbanjamento?”

    Se vamos conseguir ou não, isso não tem nada a ver com o governo, tem?

    “Inteligência financeira também significa separar o que querem que a gente engula daquilo que merecemos de verdade. ”

    Errado, na minha opinião. Não é inteligente eu comprar algo só porque acho que “mereço”. Merecer é uma coisa, necessitar é outra, e a maioria das pessoas não necessita do que acha merecer.

    “Se o governo realmente se importasse há muito teria planejado um orçamento equilibrado e sustentável em benefício de todos nós e teria atingido as metas prometidas desde a primeira camapanhas, ou melhor, na hora certa.”

    Masis uma vez, digo: será que aconteceria isso mesmo? Política é algo complicado e não depende só do Executivo. E outra: como um governo planejar um orçamento equilibrado sem saber o que está por vir? Planejamento governamental é muito diferente de planejamento familiar. E será que o governo realmente não se importa?

    “Não adianta tentar inflar artificialmente (leia-se com dinheiro que nós não temos) a economia quando o futuro é incerto. A esta altura fico torcendo para que a casa caia para os interessados de plantão e que nós saibamos virar o rumo das coisas.”

    Para mim o futuro é sempre incerto. E seria melhor torcer que a casa não caia para ninguém, não é mesmo?

    “E por falar nisso, cadê os dez milhões de empregos que o Lula prometeu? Alguem se lembra disso???”

    Você ouviu o Navarro dizer que deve-se deixar o apelo partidário de lado ao analisar essa questão?

    Carmem, você leu o texto imbuída de uma perspectiva de esquerda, o que a levou a apontar alguns pontos citados pelo Navarro como resultado de atitudes negativas do governo, quando o próprio Navarro deixou claro que não é por aí. Não faça mais isso, é feio.

  • http://www.monthiel.com Monthiel

    Engraçado. O filho escreve um post sensacional, a mãe comenta, e o de fora critica. eu gosto tanto da blogosfera justamente por causa disso.

    Navarro, sinceramente, a redução do IPI não significou absolutamente nada para mim. Estou iniciando meus planos e economias agora, e quando eu tiver o dinheiro suficiente para comprar o que planejei, o governo já terá reembolsado todo esse dinheiro da redução atual.

    Forte abraço e sucesso
    @monthiel

  • http://www.emailfake.com.br Lucas

    Realmente a redução do IPI não mudou nada nos meus planos, confesso que seria melhor aproveitar para algumas compras, mas vai contra o meu planejamento.
    A única coisa que me assusta por agora é a poupança.

  • leandro

    sou meio cetico em relacao a esse giro do dinheiro consumir tem qcomprar bblabla pra se manter empregado,
    entao pq o salaraios nao sao ajustados melhor pra quer eles possam comprar mais entao.
    acho q tem alguem nessa historia q nao quer parar de aumentar a % de lucro.

  • john

    aumentar salários não seria uma solução também. Pare e pense, quantos milhões o governo teria que arrecadar a mais para poder cobrir o aumento de salário?
    reduzir os impostos foi uma grande sacada do governo, de cara parece que o governo irá perder milhões em arrecadaçães certo? Mas não é bme isso que está acontecendo, com a redução a economia acelereu, pessoas estão comprando desesperadamente quase, resumindo, quanto mais vendem, mais impostos o governo arrecada. O governo se aproveita do povo, mas se não fosse assim, a economia iria “por agua abaixo”. O mundo é dos espertos!

  • leandro

    entao a unica solucao para vida de espertos sem oportunidades seria uma rebeliao , visando uma individual e pessoal?

    ao mesmo tempo q vemos crise , logo em seguida eh mostrado outro tema dizendo q pessoas q estao com coisas mais caras sao melhores, enquanto isso tem gente q nao tem nem o basico.
    eh isso q fala ao ser assaltado, o mundo eh dos espertos tenho tudo isso por sou mais esperto?! hauhauahuahauhau
    eh por isso q me sinto satisfeito com o padrao basico de vida q tenho, o resto eh farsa e marketing alias marketing bm mal feito.

  • Henrique

    “Inteligência financeira significa separar o que querem que você compre daquilo que você planejou e se preparou para comprar. Se agora custa menos, ótimo. Se não, paciência. Afinal, se você planeja e sustenta um orçamento equilibrado, vai comprar e realizar seu objetivo mais cedo ou mais tarde. Ou melhor, na hora certa. Não adianta inflar artificialmente (leia-se com dinheiro que você não tem) sua teia de bens quando o futuro é incerto. Para estes, a casa sempre cai – e nisso não há intervenção federal que dê jeito.”

    Esse foi o que precisava “ouvir”, estava num dilema, me endividar para aproveitar o ipi reduzido de carros ou aguardar ter a grana para poder comprar a vista o carro sonhado para trabalhar? Eu posso aguardar até o ano que vem, pretendo comprar a vista.
    Penhorar a alma é viver num purgatório.

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