13o. salário, final de ano e a busca pela felicidade
Publicado por Conrado Navarro em 16.11.2009 na seção Educação Financeira, Orçamento
Chega o final de ano e com ele o 13o salário. Estimativas do Dieese dão conta de que cerca de R$ 85 bilhões serão injetados na economia em 2009 com os depósitos do 13o nas contas dos brasileiros, valor 8% superior ao pago ano passado – no total, cerca de 70 milhões de brasileiros (trabalhadores, aposentados e pensionistas) devem ser beneficiadas, número 2,4% maior que o do ano passado.
Agora que você tem noção de alguns números em torno do 13o salário, surge a pergunta que não quer calar: ao receber o “bônus”, qual será sua função diante de seus compromissos e interesses financeiros? O dinheiro será usado para consumo (compras, presentes etc.), para poupança (investimento) ou para pagar dívidas (cheque especial ou cartão de crédito)? As respostas divergem e preocupam.
De acordo com pesquisa realizada pela Anefac (Associação de Executivos de Finanças), o principal destino do 13o será a quitação de dívidas. Veja os resultados deste levantamento feito com 624 consumidores de todas as classes sociais:
- 64% vão usar o dinheiro para pagar cartão de crédito e cheque especial, entre outras contas;
- 17% vão usar o dinheiro para comprar presentes;
- 10% vão usar o 13o para os gastos de início de ano;
- 2% vão usar o dinheiro para compra/reforma da casa;
- 1% vão usar o montante para poupança/investimento.
Resulta que pouquíssimos brasileiros consideram o dinheiro extra como uma alternativa de formar poupança e investir no futuro. Observando de outra forma, fica claro que o 13o salário está incorporado na agenda financeira das famílias e que sua chegada é bastante antecipada – gastos "em seu nome" são feitos muito antes do final do ano.
Vejamos outra pesquisa, realizada pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo), baseada em mil entrevistas realizadas em 70 cidades de nove regiões metropolitanas:
- 36,6% dos entrevistados vão usar o dinheiro para fazer compras;
- 31,7% vão usar o 13o salário para o pagamento de dívidas;
- 14% vão usar o dinheiro extra para poupança
e investimento;
- 7,3% não sabem o que vão fazer com dinheiro;
- 4,9% pagarão uma viagem;
- 4,9% usarão o dinheiro para reforma/compra de casa.
As proporções se alteraram em relação à primeira pesquisa apresentada, mas as conclusões persistem. O consumo, representado também pelos compromissos assumidos que ultrapassam o bom senso, continua líder disparado na relação com o futuro e com a qualidade de vida. Para os que se interessarem, uma análise mais detalhada desta pesquisa da ACSP pode ser encontrada em recente materia do portal InfoMoney.
Algumas reflexões
Os números estão ai e retratam como age boa parte de nossa população. Intrigado com as respostas, pensei: “Por que não investigar como pensa o leitor do Dinheirama, que tem doses diárias de educação financeira e busca trabalhar bem seu orçamento familiar?”. Abri então uma enquete sobre o uso do 13o salário, disponível na barra lateral aqui do blog. Creio que dentre aqueles interessados e engajados, educação financeira faça mesmo diferença.
No final, o problema não está no uso do dinheiro extra recebido no final de ano, mas nas responsabilidades a que seu dono se amarra sem qualquer planejamento. O que acontece?
- Porque não planejou suas despesas, passa um Natal farto, viaja no reveillón, mas parcela em condições ruins os estudos e usa o cheque especial para cobrir a necessidade de pagar impostos no início do ano;
- Porque antecipou restituição de Imposto de Renda e acabou exagerando nas compras do ano, decide usar o 13o salário para dar vazão aos desejos de um Natal repleto de presentes e um final de ano digno de comemoração. E atrasa o pagamento do cartão de crédito que ele esqueceu de guardar e que insiste em assustá-lo em janeiro seguinte;
- Porque o 13o salário evaporou ao quitar dívidas passadas, mas não se fez presente o suficiente para deixar a lição, o ensinamento. Afinal, dizem, dever um pouco faz parte e a cabeça do brasileiro funciona melhor quando se pensa em quanto ele pode pagar. Nada custa R$ 1000,00, mas sim 10 vezes de R$ 100,00. O Natal farto se garante e os impostos e novas dívidas são jogados para o ano seguinte, rolados com “jeitinho” e uso do crédito (cartão, cheque especial, CDC etc.).
Só assim...
Alguns insistem na romântica visão de que, não sendo assim, nada se conquista. E vão além: sem se endividar, o brasileiro não consegue manter em dia sua felicidade e satisfazer alguns de seus desejos. Para estes, a equação é simples: um Natal farto vale por muitos dias tristes e sem dinheiro. E concluem: para os dias tristes, há sempre um cartão de crédito, um carnê ou um especial pedaço de papel aceito como dinheiro.
Farto? Felicidade? Tristeza? Caro? Juros? Crédito? Tais fortes palavras representam muito mais para nossa capacidade de justificar que para a realidade de nossas vidas. Distorcemos as razões usadas para consumir de forma a criar uma barreira contra qualquer crítico do consumo desequilibrado. E o 13o salário é a oportunidade de fechar o ano com “chave de ouro”, comprando ou pagando por aquilo que nos faz melhores.
Ironicamente, o que nos faz melhores agora não nos diferencia assim que o ano novo começa. E a perseguição continua. Transformamos a felicidade em algo medido pela quantidade de desejos satisfeitos, sonhos realizados. O fim, muitos já descobriram, é uma família dilacerada, com dívidas insustentáveis, baixa autoestima e muita culpa. Tudo em nome da felicidade. Como se ser feliz fosse assim tão difícil.
Crédito da foto para stock.xchng.
Conrado Navarro
Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro
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Boa tarde Navarro.
Ótimo texto e em momento muito oportuno o qual passamos aqui na empresa. Vou encaminhar para meus colegas.
Parabéns pelo blog que está cada vez melhor.
Ah! O meu 13º já tem destino certo: investimentos.
Grande abraço!
Sucesso.
Eu queria escolher mais de uma opção na enquete :/ vou comprar presentes e investir um pouco.
Abraços!
Fala Leandro, tudo jóia? Escolha aquela que for representar a maior parte do 13o. salário. Se for investir mais do que comprar presentes, escolha investir. Assim temos uma idéia das preferências dos nossos leitores. Obrigado por comentar e aparecer sempre por aqui.
Grande abraço.
[...] This post was mentioned on Twitter by nandokanarski and Conrado Navarro, Eduardo Batista. Eduardo Batista said: RT @Navarro O que você vai fazer com seu 13o salário?Compras? Pagar Dívidas? Algumas reflexões pessoais no @dinheirama: http://migre.me/bHX9 [...]
Opa, Navarro, você e aqueles textos que mexem pra valer com a gente, não é? Sensacional! Parabéns pela simplicidade das palavras, mas pela profundidade das reflexões. Felicidade é tudo, mas ao mesmo tempo pode ser simples, estar nas pequenas coisas que não custam nada. O artigo está claríssimo e muito sincero. Tomara que absorvamos bem todo o seu conteúdo.
Abs.
Vou pagar as contas do inicio do ano e investir o restante...
só não da pra escolher as duas
Prezado Navarro!
Bueno! A minha gratificação natalina já tem o seu destino: em janeiro deste ano saiu a metade de 2009, junto com os valores das minhas férias, que foi para a poupança (para criar gordura num dos meus balaios financeiros). A segunda metade tem dois destinos: o IPVA antecipado do meu carrinho popular, que, de forma antecipada me dá 15% de desconto mais 5% de desconto por ser considerado um bom motorista (sem multa nos últimos anos) e o restante será aplicado no PGBL, para poder chegar nos 12% que é o limite para ser beneficiado na Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física em 2010 (ano base 2009).
De uns tempos pra cá, em torno de um ano e meio pra cá, consegui reverter a gana de gastar e ter contas pra pagar. Desde abril do ano passado TENHO GANA DE ME PAGAR PRIMEIRO e estou conseguindo.
A última que eu fiz foi me desfazer do cartão de crédito. Não que eu são soubesse usar, mas, tendo uma esposa que é comerciante, ela me disse que paga horrores de taxas toda vez que no caixa ela passa um cartão de um cliente e eu, olhando pra minha fatura do cartão, não concordeu em pagar uma anuidade pesada (4x12,00) e ver estampado nesta mesma fatura, os percentuais do dito cartão: no rotativo, juro de 14,99% a.m.; no parcelamento, 9,99% a.m.; no saque, 13,50% a.m e na mora, 13% a.m (enquanto a poupança me dá em torno de 0,50% a.m.).
Só para uma outra reflexão: é opinião de muitas pessoas, inclusive a minha, que o maior problema do aquecimento global é o longo prazo. Se o problema ambiental fosse comprovadamente algo a nos ameaçar de forma direta como um ataque terrorista iminente, todos nós bradaríamos contra a poluição, o desperdício, etc etc... Mas como já prediz a teoria dos jogos, a raça humana como um todo não troca um prazer imediato por uma perspectiva futura, seja ela boa ou ruim.
Pelo menos a maioria dos leitores do Dinheirama parece nadar contra a corrente e se preocupar com o que vem pela frente.
Não tenho vergonha de dizer que nem um centavo do meu 13º vai para investimentos. Vou usá-lo para pagar as contas do início do ano e com o restante provavelmente irei utilizar para curtir o natal com a família e também quitar parte do financiamento do meu apartamento. Não tenho outras dívidas, nem cartão de crédito. Como fiz direitinho minha lição de casa e invisti uma boa parte de meu salário todos os meses do ano, nada mais justo do que ter uma "recompensa" e poder gastar o 13º despreocupadamente.
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