Favelas começam a receber bancos e lojas de varejo
Publicado por Ricardo Pereira em 19.11.2009 na seção Finanças Pessoais
Alguns são categóricos ao afirmar que o Brasil passa por uma nova ordem econômica. Pois os bancos e financeiras, além de muitas empresas dos mais diversos setores, começaram a descobrir um grande filão nas chamadas classes D e E. Uma prova disso é que um dos maiores bancos brasileiros acaba de anunciar a abertura de sua primeira agência dentro de uma favela, em São Paulo.
Essa notícia é significativa sobre dois aspectos:
- Fica claro que as empresas começam a enxergar alternativas atraentes para negócios também nessas comunidades. Em outra comunidade de São Paulo, uma grande loja de comércio varejista já tem lá uma de suas lojas, vendendo dinheiro
disfarçado de produtos;
- Essas mesmas empresas percebem que os brasileiros de baixa renda costumam ser bons pagadores – e, desta forma, ótimos clientes. A lógica é simples: para não ter seu nome incluído nos cadastros negativos, tais pessoas honram seus compromissos a fim de poder contar sempre com o crédito. Diferente dos mais ricos que, muitas vezes, compram um bem caro e dão o calote.
Olhando sob a ótica do educador financeiro, acho fundamental que as pessoas tenham acesso a empresas e, em última análise, ao crédito. Entretanto, é importante que esse crédito seja acompanhado de informação e conscientização. Não basta oferecer sonhos a altas custas, quando muitas vezes o que a população precisa é de um pouco de suporte para apenas conseguir colocar sua vida nos eixos.
Acredito que existe sim um potencial importante nesse novo tipo de consumidor oriundo das classes mais pobres, mas me questiono se essa iniciativa não acabará levando as pessoas em direção a um novo patamar de endividamento, ou mesmo à compra de produtos financeiros ruins para o cidadão, como títulos de capitalização, por exemplo.
A tendência é que esse tipo de iniciativa se multiplique à medida que os resultados positivos comecem a surgir. Espero e torço, de coração, para que dê certo. E dar certo significa oferecer mais dignidade e oportunidade ao brasileiro, lucrando e podendo crescer como empresa. Fica a sugestão para os que pretendem investir neste sentido: que tal adotar um projeto de educação financeira e levá-lo para essas comunidades?
As pessoas precisam de dinheiro, é claro, mas precisam aprender a usá-lo com sabedoria e planejamento. Inteligência financeira, bom senso e informação podem fazer muita diferença – e é essa nossa filosofia por aqui.
Crédito da foto para stock.xchng.
Ricardo Pereira
Educador financeiro, palestrante, autor do livro "Dinheirama" (Blogbooks), trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
Mais sobre Ricardo Pereira Outros textos de Ricardo Pereira

























Já tem uma agência se não me engano do Banco do Brasil na Rocinha aqui no Rio de Janeiro. Até acho uma boa medida, afinal encurta a distância do morador da favela até um lugar onde ele possa retirar seu dinheiro, pagar contas, consultar o gerente e tudo mais. Entretanto, como em tudo há um lado negativo, esse nem seria o endividamento das pessoas, afinal elas já consumiam os produtos e serviços oferecidos pela loja e pelo banco, mas sim a insegurança dentro do lugar. Não é algo que foi erradicado, e tá bem longe de ser. Nada impede que os bandidos realizem um ou mais assaltos na loja e no banco, mesmo com segurança reforçada ou não. Não dá pra pensar que eles ficarão parados se a oportunidade tá tão perto deles. É como achar que bandido não rouba carro na própria área pra não assustar os moradores.
Muito bom o artigo parabéns.
E concordo que antes de qualquer "bolsa familia, esmola e etc" precisamos de um bolsa "educação financeira".
Abraços..
[...] This post was mentioned on Twitter by Lucio and Gaston Pirez, Dinheirama. Dinheirama said: Favelas começam a receber bancos e lojas de varejo - http://ow.ly/DRY7 [...]
Oi Ricardo. Tudo bem?
Realmente as coisas estão mudando muito no Brasil. A reportagem da The Economist (com o Brasil na capa) demonstra isso claramente. O Bradesco já tem uma agência na Rocinha também. É uma lógica simples: o Governo e a iniciativa privada chegam a um bairro e a violência começa a cair.
Ainda teremos muito crescimento pela frente.
Abraços!
É lindo ver que a exploração dos "amigos do rei" chega as favelas. Agora será a vez das classes C, D e E pagarem as contas do rei e seus amigos via juros extorsivos.E como disse esse rapaz, Gledson, as coisas estão mudando muito no Brasil: para pior! Citar a reportagem da Economist como grande triunfo é ridículo! E como dizer que o jornal Valor Econômico é digno de respeito por suas matérias de crescimento da economia graças ao enPACado ou a Petromentira que sempre são seguidas de "propagandas governamentais". Ou os brasileiros acordam para a realidade ou correm o risco de viverem no infeliz (mas verdadeiro) 1984 de G. Orwell.
Caro Gledson,
Não sei onde que a violência caiu, na Rocinha.
Eles não assaltam os bancos, porque os "meninos" não querem....