O endividamento, o legado e as escolhas de consumo
Publicado por Conrado Navarro em 14.12.2009 na seção Finanças Pessoais
O Ano Novo se aproxima e com ele a hora de renovar as promessas e os desejos pessoais e familiares. Na virada, nos dedicamos aos votos de um ano novo repleto de realizações, melhoras e muitas mudanças. Como sempre, voltar (ou começar) para academia, iniciar e manter a dieta, caminhar mais, passar mais tempo com a família/amigos e livrar-se das dívidas são alguns dos juramentos mais comuns nesta época.
Felizes daqueles que conseguem colocar em prática a mudança de atitude e comportamento necessária para transformar as promessas em ações – especialmente em se tratando da saúde física, emocional e financeira. Dívidas, muitos brasileiros querem aproveitar o ano que começa para traçar planos e estratégias a fim de liquidá-las. Será?
Uma recente matéria veiculada na Folha Online dá conta que a dívida dos brasileiros anda crescendo em ritmo maior que o de sua renda. Em um país cujo crescimento econômico sustentável demorou a “vingar”, a notícia talvez não surpreenda tanto. De fato, não assusta. No entanto, ao observarmos com mais atenção os dados do Banco Central, cabem algumas ressalvas.
Perfil do endividado
O número de brasileiros com dívidas acima de R$ 5.000,00 mais que dobrou nos últimos cinco anos. O total de brasileiros neste grupo passou de pouco menos de 10 milhões em 2004 para 23 milhões este ano – o total de endividados, incluindo dívidas de valores menores, ultrapassa 80 milhões. O total em crédito para o grupo de 23 milhões de brasileiros que devem mais de R$ 5.000,00 chega a R$ 430 bilhões, algo em torno de R$ 20 mil por devedor.
Os níveis de inadimplência continuam próximos dos valores auferidos no auge da crise, muito embora haja consenso de que este percentual tende a aumentar em 2010, justamente por conta da crescente procura por empréstimos e financiamentos. Muita gente está comprando agora o que já queria ter comprado no começo do ano - a crise atrapalhou um pouco - e a conta fica para o ano que vem.
A alta é compreensível - tem relação com a forte expansão do crédito para a pessoa física, especialmente para compra de veículos e imóveis -, mas, ainda assim, me preocupa. Ressalto que não se trata de criticar o consumo, afinal, aceito e lido bem com a relação econômica entre o crédito e a expansão do país. Sinto falta de esforços no sentido de orientar melhor os tomadores de dinheiro e, principalmente, seu processo de tomada de decisão.
Crédito versus planejamento
Atender famílias e pessoas com problemas financeiros tem me dado alguma autoridade para avaliar as decisões econômicas e suas conseqüências no âmbito familiar. Neste sentido, três observações merecem destaque:
- Ainda são raros os casos de famílias que mantém um orçamento financeiro detalhado, com previsões de gastos e análises sobre a evolução das despesas. Muita gente sabe quanto ganha, quanto gasta e seu perfil de consumo, mas não age de forma a comparar e acompanhar a evolução média dos gastos. O debate poderia começar de forma simples: "por que gastamos mais com supermercado este mês?" ou "O que houve com a conta de telefone celular
, que aumentou tanto?". E ainda "Na média, estamos extrapolando o gasto com lazer. Por que?"
- Poucos poupam e investem parte do que ganham para projetos e objetivos futuros. Ainda que o crédito represente a oportunidade de adiantar o consumo, seus benefícios não podem ser estendidos para as fases de emergência ou para o momento em que a saúde necessitar de maiores cuidados (geralmente, na terceira idade). Os montantes pagos pelas aposentadorias oficiais são muito menores que os valores necessários para sustentar o padrão de vida da maioria dos aposentados, que muitas vezes recorrem aos empréstimos para se sustentar. E seus anos restantes são dedicados apenas ao pagamento de dívidas;
- Somente nos últimos anos temos visto iniciativas voltadas para a educação financeira da população. Agir de forma a educar nossos cidadãos traz benefícios para a nação como um todo. Não significa usar menos o crédito, mas valorizá-lo de forma que seu uso seja racional, inteligente e sempre de forma a garantir mínimo estrago no orçamento e máxima realização, qualidade de vida. Não raro, nos vemos envolvidos no consumo que nada agrega em nosso bem-estar – muito embora seja isso que defendemos quando gastamos.
Tais comentários são pontuais. Com isso, quero dizer que foram elaborados a partir de avaliações críticas e práticas da realidade, mas sob a minha ótica, de educador financeiro, alguém que acredita que a disciplina, aliada a projetos suficientemente fortes de vida, pode transformar vidas e hábitos em razão de alegria, sucesso e felicidade.
Devemos comemorar o acesso ao crédito por uma parcela maior da população, assim como devemos comemorar a democratização do consumo de inclusão social. Devemos comemorar, é claro, o crescimento do Brasil e ascensão social proporcionada pelas mudanças econômicas. Devemos comemorar o amadurecimento da indústria, dos serviços e do comércio, hoje representativos e grandes geradores de empregos. Pois é, devemos mesmo comemorar a economia brasileira como um todo.
Só não podemos nos ver tão maravilhados com as possibilidades a ponto de esquecer que o mais importante de viver bem uma vida não são as coisas que conseguimos comprar ou ter, mas o legado familiar e o exemplo que deixamos. Viver de posses além da conta representa o desejo de deixar impressões, distorções, enquanto viver a vida como ela é justifica o que realmente se pode ter. Defendo que tenhamos tudo aquilo que desejamos ter, desde que isso seja possível – e, felizmente, quase sempre é.
Porque viver com o dinheiro dos outros é fácil, mas significa deixar um rastro de dívidas e credores. Viver dentro de seus limites pode parecer frustrante, mas dignifica, dá significado ao esforço que tanto empreendemos no dia a dia e em nossa vida profissional. E só assim se constrói algum patrimônio. Não interessa o que vão pensar, desde que a família tenha a exata noção de que trata-se do máximo possível.
Crédito da foto para stock.xchng.
Conrado Navarro
Educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente. No Twitter: twitter.com/Navarro
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Conrado, mais um excelente artigo para nossa reflexão pessoal!
É interessante observar que muitas pessoas, por falta de inteligência financeira, não usam o crédito de maneira adequada, mas sim acabam *abusando* dessa ferramenta chamada crédito. Há uma diferença clara entre uso e abuso do crédito. As conseqüências de um mau planejamento financeiro são ruins não só para o bolso, mas para o próprio bem-estar da pessoa, já que a pessoa que gasta mais nas compras parceladas acaba diminuindo o seu fluxo de caixa mensal, isto é, as sobras mensais vão ficando cada vez menores, obrigando-as a recorrerem cada vez mais a outras compras parceladas, o que, por sua vez, impacta ainda mais o seu fluxo mensal de caixa, numa espécie de círculo vicioso.
Como vc sempre desta em seu textos, é necessário atitude para querer mudar, e é sempre possível mudar, para melhor, desde que a pessoal assuma que está diante de um problema e queira resolver esse problema. Força de vontade, persistência e disciplina são alguns dos ingredientes fundamentais para uma vida financeira mais equilibrada, com reflexos notáveis no bem-estar pessoal e familiar.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus lhes abençoe!
Belo artigo, você e o Dinheirama está de parabéns pelos artigos e textos disponibilizados por aqui.
Pena que muitas pessoas que necessitam de tal orientação não tem acesso ou mesmo interesse por informações tão importantes
[...] This post was mentioned on Twitter by Conrado Navarro, Mari Hauer. Mari Hauer said: Muito legal o texto sobre escolhas de consumo, endividamento que saiu no Dinheirama! Muito bem escrito: http://bit.ly/5w8HVH [...]
Excelente artigo, única ressalva é quanto a um valor apresentado no texto, 20 milhões de brasileiros com dividas de 20 mil geram um montante próximo a 430 BI e não 430 MI.
Caros leitores, fico feliz com a repercussão do texto. A idéia é mesmo gerar reflexões, como bem pontuou o amigo hotmar. Educação financeira pode fazer muita diferença e isso significa também aprender a usar o crédito de forma consciente e inteligente.
Daniel, obrigado pelo comentário. Eu errei ao colocar R$ 430 milhões. São R$ 430 bilhões mesmo.
Abraços.
Realmente e lastimável, mas esta e a realidade do povo brasileiro que tem serias dificuldades em lidar com seu dinheiro, até certo tempo atrás eu era escravo de linhas de credito do banco a facilidade chama muita a nossa atenção, mas o nosso dinheiro escoa como aguá pelo ralo, mas graças a Deus passo a ver com outra ótica, ainda não estou no objetivo, só que muitas coisas em relação a finanças mudaram e vao continuar a mudar a cada dia, não quero fazer parte das estatísticas e é um verdadeiro alívio, pois passamos a sonhar com as possibilidade que existem para viver de forma equilibrada e e sensata quando o assunto for finanças.Quero dedicar a cada dia e manter a disciplina. Sinto ainda um sentimento de culpa quando resisto e consigo poupar, mas vejo o resultado deste árduo trabalho a longo prazo, pois tenho muito que aprender.Navarro mais uma vez excelente explanação estou fiel aos artigos leio estou lendo os posts desde o inicio do blog, quero aprender mais sobre o que já foi discutido por aqui.Grande abraço sucesso. Sou apenas iniciante, mas sou curioso.vou sugar de voces por aqui.
Conrrado,pena que esse cometário não chegue a todas pessoas que mereçam escutar e ler.muito obrigado!!
Pois é, concordo com os leitores que já comentaram aqui. Infelizmente, a mensagem não vai se propagar como deveria. Mas podemos ao menos tentar. Mandei a mensagem para amigos e familiares. O final é matador:
O Navarro diz: "Não interessa o que vão pensar, desde que a família tenha a exata noção de que trata-se do máximo possível". Simplesmente perfeito!
Adoro seus textos Navarro. As reflexões são profundas, ainda que as lições sejam bem simples. Isso não é fácil. Parabéns.
Abs.
Endividados "como nunca antis neççe pais"...
Conrado, meus parabéns! Tenho acompanhado seu blog e li seu livro. Como sugestão, escreva um artigo específico sobre hobby. Muita gente gasta um absurdo nessa modalidade de "prazer" e eu já fui assim! Especificamente, existem hobbys que são muito prazerosos mas caros: aeromodelismo, kart, etc. Faça uma abordagem nesse sentido, creio que o artigo renderá alguns pontos e é um assunto legal!. Crie uma espécie de fórmula do tipo: Você deve gastar com hobby X% do seu orçamento.
Ué , por isso que quee a maioria da populuação está individada.
Os Bancos são as as instituições mais ricas depois do governo ,os Bancos já fazem os próprios correntistas se endividarem , e depois o governo que vem com vários impostos absurdos que não são convertidos para benefício para os cidadãos , tudo isso gera um grande desiquilíbrio que resulta na corrupção e facilitação de roubo ,ser empresário num país onde tudo isso é mal investido e ainda roubado , é um desafio.
E o culpado todo mundo sabe , é o governo como sempre, que não cuida de seus cidadãos.