A suave acomodação de cada dia
Publicado por Bernadette Vilhena em 17.2.2010 na seção Pedagogia Econômica
Trouxe para vocês hoje fragmentos de um texto interessante e do qual gosto muito, escrito pela jornalista Marina Colasanti. Ele nos faz refletir sobre esse cotidiano maluco, sobre esse ritmo alucinante que a vida acaba nos impondo e nos fazendo acreditar no estilo de vida “se não for assim, eu morro na praia”. Será que morreremos mesmo na praia ou viveremos com baixa qualidade de vida e com a saúde no limite? Vale à pena pensar nessa questão.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado por que está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus por está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que precisa. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.
A gente acostuma a andar na rua e ver cartazes. Abrir as revistas e ver anúncios. Ligar a televisão e assistir comerciais. Ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na rua na infindável caçada aos produtos.
A gente se acostuma para preservar a pele. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma. (Marina Colasanti)
Provocativo o texto, não concordam? Pelo menos algumas das frases se encaixam como uma luva em nosso comportamento “piloto automático”. Ao ler, sentimos bater forte dentro de nós e pensamos em nossa lista pessoal, em nossos desejos e sentir alguma vontade de fazer diferente.
Convido você a pensar em sua própria mudança, pois alguém já falou que enquanto pensarmos que quem deve mudar é o outro, vamos entorpecendo nossos sentidos, nos tornando cada vez tolerantes, mais resistentes e, por isto, menos capazes de intervir na realidade. Afinal, a gente se acostuma, não?
Convido vocês a partilharem seu ponto de vista sobre essa acomodação humana pela qual todos nós acabamos passando. Como ser diferente e fugir das suaves e desnecessárias imposições cotidianas? Vale a pena fazê-lo? Por quê?
Crédito da foto para stock.xchng.
Bernadette Vilhena
Pedagoga empresarial, consultora em diversas instâncias da prática educativa nas empresas e autora do livro "Dinheirama" (Blogbooks). Especialista em Gestão de Pessoas e estudos nas áreas de Ergologia, Gestão do Conhecimento e Educação no trabalho.
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Gostei muito do texto e tenho muito orgulho de pensar diferente da maioria. Nunca me acomodei. Sou movido a desafios e me entusiasmo com novas oportunidades, seja de trabalho, relacionamento com minha mulher, ou numa simples conversa.
Muito oportuno esse texto, mesmo porque a acomodação, o relaxamento, a zona de conforto, circundam nossa vida tentando nos deixar parados.
ótimo texto para se ler numa quarta-feira de cinzas, quando o ano de fato começa!
Realmente trabalhamos no piloto automático, algumas situações são quase ou praticamente impossíveis de serem mudadas do nosso costume, mas podemos fazer pequenas coisas para tentar fugir um pouco das ações repetitivas. Por exemplo, escovar os dentes com a outra mão (é mais desafiador do que se imagina), dormir do outro lado da cama e usar outro caminho para ir ao trabalho. Com isso você faz seu cérebro trabalhar em cima de uma atitude que já estava gravada e definida tirando ele da inércia.
é uma das interpretações do tema da Campanha da Fraternidade.
Ótimo o assunto tratado e melhor ainda o jeito abordado. Obrigado Bernadette pelo serviço prestado aos leitores ;D
Moro em São Paulo, capital, e me identifiquei muito com o texto da Marina. Acredito que este texto se encaixe na vida da maioria das pessoas que vivem em grandes cidades. A rotina massacrante e o consumismo incosciente fazem parte de nossas vidas e nem percebemos. O que nos mantém presos nestes pequenos vícios do dia-a-dia? Acredito que a dificuldade em mudar esteja além do âmbito de cada indivíduo. Acho que é uma doença cultural e coletiva. Por isso acredito que esta mudança interior será mais fácil de ser colocada em prática se envolvermos as pessoas ao nosso redor neste processo, principalmente nossa família. Propor novos hábitos nas empresas é um assunto recorrente, mas vale ressaltar que os gestores têm papel fundamental neste processo. Já passou da hora das empresas focarem mais em resultados pessoais ao invés de focarem apenas em resultados financeiros. Estou cansado de ver gráficos de satisfação de clientes. Quando vou ver gráficos de satisfação de funcionários?
Até me emocionei lendo este post! Voltei do Carnaval com a cabeça nas nuvens e cai na realidade com estas palavras. Viva o Dinheirama. Obrigado.
A vida me chama.
Abs.
Também gostei muito do texto.
As pequenas acomodações do cotidiano, que aparentemente são inofensivas, acabam se transformando em grandes acomodações.
Nos adaptamos com muita rapidez e facilidade a eventos que não gostaríamos de ver em nossas vidas. E quando percebemos, a mudança que deveria acontecer não aconteceu e a que não queríamos foi a que conseguimos...
Assim como o Danilo, eu me sinto bem por pensar diferente da maioria.
Quero agradecer todos os comentários!
O ponto de vista de vocês contribui muito para continuarmos essa reflexão e estimula a busca pela qualidade de vida e dias melhores.
Muito bom mesmo!
Mas infeslismente, como nem tudo são flôres, a minha constatação, é que pelo menos na grande São Paulo onde vivo e trabalho, com as pessoas em suas residencias, onde por mais que tentem, não da para esconder a sua realidade comportamental é que: De tanto se acostumar, acostumou-se a gostar da não mudança, criando mesmo aversão a esta palavra, seja em casa , no trabalho, ou no comportamento. Nasceu dai o termo " tá ruim, mas tá bom" Talvez sem santido para mim e para você, mas para muitos é a frase mais repetida no dia-a-dia. Precisa de algo para sacudí-los. Isso só acontece com um fato novo e impactante, infelismente na maioria das vezes estes fatos não são boas noticias. É claro, e ainda bem, que tudo neste mundo têm excesões.
Me identifiquei demais com o texto e por muitos anos não me deixei acomodar, mas ultimamente me peguei assim. Isso acontece, mas é bom nos darmos conta de que entramos em modo "automático" a tempo de darmos um choque e não ficarmos apenas no deixa pra amanhã, que é o meu caso. Por mais clichê que seja, o presente faz o futuro.