As verdades, os perigos e os mitos da dívida externa brasileira

04 jul Economia

As verdades, os perigos e os mitos sobre a dívida externa brasileira

A dívida externa brasileira está em níveis perigosos? Conheça a história da dívida externa, um pouco sobre FMI, reservas internacionais e economia brasileira.

por Conrado Navarro
há 3 anos

As verdades, os perigos e os mitos da dívida externa brasileiraGuga comenta: “Navarro, ontem escutei meus pais conversando sobre a dívida externa brasileira e seu montante. Parece que leram em algum jornal que a dívida continua crescendo e está em patamares considerados elevados. Gostaria de entender melhor o que é exatamente a dívida externa e se devemos mesmo nos preocupar com o nível em que ela se encontra atualmente. O que a dívida externa representa? Por que senti nos meus pais um ar de preocupação? Obrigado”.

Há muito que o termo dívida externa é destaque em nosso cotidiano econômico. Mais do que isso, há uma geração que vê no termo “dívida externa” um sinônimo de encrenca. Questione seus amigos, familiares e parentes com algo tipo “O que a dívida externa representa?” e veja as reações: “FMI”, “roubo”, “calote”, “moratória” e “Sarney” serão algumas respostas comuns.

Abordarei neste texto o básico sobre a dívida externa, sua definição, um pouco de sua história e aproveitarei para comentar os dados divulgados recentemente sobre sua crescente alta. A ideia é completar o excelente artigo de Ricardo Pereira, aqui mesmo no Dinheirama, intitulado “Entendendo a dívida externa brasileira”. Ainda que alguns termos sejam técnicos demais, farei o possível para manter a explicação em tom simples e didático.

O que é divida externa?
Trata-se do montante de débitos de uma nação originados de empréstimos feitos no exterior. Estes empréstimos são feitos com bancos estrangeiros, governos de outros países ou instituições financeiras internacionais (FMI – Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial etc.). Em outras palavras, a dívida externa representa tudo aquilo que um país (em âmbito geral) deve em caráter internacional.

Como assim, todas as dívidas internacionais do país?
A dívida externa contempla todos os empréstimos realizados por um país, incluindo ai as esferas de governo (federal, estadual e municipal) e setor privado. Ou seja, a dívida externa não é o valor devido pelo governo aos “gringos”, mas do país como um todo (incluindo empresas).

Um pouco de história
Complementando o artigo do Ricardo, cabe citar alguns períodos históricos em que a dívida externa foi fator de destaque na economia e no noticiário especializado. Usando como fonte uma matéria recente da Folha de S. Paulo, cito:

  • Ano de 1973: Auge do chamado “milagre econômico”, período marcado pela alta dos preços do petróleo. O forte desenvolvimento dos países desenvolvidos forçou a queda dos juros, deixando o dinheiro “mais barato”. Governos periféricos, Brasil inclusive, “aproveitaram” para se endividar no exterior. A dívida era de US$ 14,9 bilhões neste período;
  • Ano de 1979: Momento marcado pelo segundo “choque do petróleo”. A inflação assola diversos países, que são obrigados a elevar seus juros. A dívida brasileira cresce com a alta das taxas e atinge US$ 55,8 bilhões;
  • Ano de 1983: Tanto o Brasil quanto outros países assumem as dificuldades em pagar suas dívidas externas, recorrendo então ao FMI. A dívida alcançou US$ 93,7 bilhões neste período;
  • Ano de 1987: O então presidente José Sarney anuncia, em rede nacional, a moratória da dívida externa brasileira. Cabe lembrar que o governo era responsável por quase 85% da dívida externa brasileira neste período, ou seja, o perfil da dívida era tal que os credores haviam emprestado majoritariamente ao governo brasileiro (e não ao setor privado). As dívidas alcançaram US$ 121,2 bilhões;
  • Ano de 1994: As negociações iniciadas depois da moratória finalmente são concluídas, o que permitiu ao Brasil retomar os pagamentos aos credores e restaurar parte de sua credibilidade internacional (o que significa, na prática, oportunidade de tomar novos empréstimos). A dívida era de US$ 148,3 bilhões;
  • Ano de 1999: Brasil tem que recorrer uma vez mais ao FMI e sua dívida aumenta para US$ 241,6 bilhões;
  • Ano de 2005: Com a economia em ascensão, melhor gestão e ajudado pelo ótimo cenário internacional, nosso país acumula reservas em dólar e paga suas dívidas com o FMI. O Brasil passa a ser credor, ou seja, possuir mais dinheiro em reservas que o montante tomado em empréstimos. Dívida era de US$ 169,5 bilhões;
  • Ano de 2011: A crise internacional trouxe uma nova onda de juros baixos – as taxas são “jogadas para baixo” a fim de aquecer a economia. O dinheiro “lá fora” ficou mais barato e uma nova onda de empréstimos no exterior acontece. A dívida atual é de US$ 284,1 bilhões, mas o Brasil continua credor (possui US$ 336 bilhões em reservas internacionais).

O que devemos entender a partir de tanta informação?
Dois aspectos são essenciais para se estabelecer o correto cenário econômico atual em torno da dívida externa brasileira:

  • Perfil da dívida. Apesar da crescente dívida externa brasileira, repare que o montante relacionado ao dinheiro emprestado diretamente ao governo caiu (e continua caindo). Em 1985, 85% do total devido era responsabilidade do governo (dos contribuintes, em essência), enquanto apenas 15% eram do setor privado. Atualmente, o percentual do Estado é de 25%, contra 75% do setor privado;
  • Situação do país em relação aos empréstimos internacionais. As décadas que marcaram os problemas com a dívida externa mostravam um Brasil mal gerenciado, sem capacidade de poupar. O país não tinha como pagar sua dívida externa, já que não possuía dólares “em caixa” para essa operação. Hoje, a situação é outra: temos US$ 336 bilhões em reservas, dinheiro mais que suficiente para pagar a dívida externa, caso fosse necessário pagá-la de uma única vez.

Por que uma empresa brasileira pega dinheiro lá fora?
Porque a realidade dos juros e prazos de pagamento do empréstimo é bem diferente da encontrada no Brasil. Taxas menores e melhores condições de pagamento são fatores atraentes e que tornam melhores as margens dos produtos fabricados/comercializados por aqui (ou mesmo exportados a partir do Brasil). A contrapartida é que a dívida é em dólar – se a cotação mudar, a dívida pode ficar cara demais.

Não há perigo em a dívida externa continuar crescendo?
A resposta não é tão simples. O fato de termos reservas nos dá tranquilidade, é verdade, mas o endividamento excessivo e a dependência externa trazem consigo um perigo: o quadro favorável (juros baixos, economia em crescimento, cotação do dólar e reservas em níveis inéditos) pode mudar, tornando a dívida excessivamente alta e com pagamento complicado.

Imagine uma eventual alta expressiva do dólar, por exemplo. Se o cenário mudar e as dívidas ficarem elevadas, as empresas com empréstimos lá fora terão que reajustar seus preços e condições de venda/produção, atrapalhando seu crescimento (e do país em geral). Seus produtos não serão mais tão competitivos e seu custo de produção pressionará suas margens – a gestão privada se complica.

Conclusões
Cabe ressaltar que este artigo retrata minha opinião. Considerando o perfil da atual dívida externa brasileira e nossa situação econômica, não acredito que os atuais níveis de endividamento sejam danosos (ou mesmo perigosos). Faça as corretas interpretações: isso significa que estou no grupo dos conservadores. As coisas vão bem, mas o ritmo de alta da dívida externa precisa ser controlado de perto. A discussão sobre o nível da dívida externa pode se transformar em um bate boca sem fim, por isso prefiro a visão histórica e relativizada (como a que apresentei aqui). Sua conclusão é o que interessa.

Medidas como o recente aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) dão mostra de que o governo está prestando atenção no tema. Depois de conviver com sérios problemas em decorrência da irresponsabilidade com o dinheiro público, fica fácil entender porque a dívida externa costuma causar calafrios em muitos lares brasileiros. Parece que aprendemos a lição. Tomara.

Foto de sxc.hu.

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros "Dinheiro é um Santo Remédio" (Ed. Gente), “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), autor do blog "Você Mais Rico" do Portal EXAME e colunista da Revista InfoMoney. No Twitter: @Navarro.

Leia todos os artigos de Conrado Navarro
  • http://www.pauloeduardo.com Paulo Rezende

    Navarro, tudo bem?

    Ok, entendi a dívida e entendi a atual situação da dívida brasileira, agora fica a pergunta:

    Se o Brasil possui mais reservas do que a dívida e poderia pagar essa dívida com essas reservas se essa fosse cobrada de imediato, por que não o faz mesmo sem que haja essa cobrança explicita.

    Eu sei que muitas outras questões estão em jogo como a lucratividade dessas reservas frente aos juros cobrados pela dívida, acordos de parcelamento dessa dívida com os credores, etc, etc, mas gostaria de uma visão mais técnica sobre porque não paga-la de imediato.

    Desde já obrigado.

    • William Bonaparte

      Se apenas 25% da DE é de responsabilidade do goveno, ou melhor NOSSA, porque pagamos + de 700 e nesse ano serão mais de 900 bilhões ?

  • Celso

    Conrado Navarro, bom dia !

    Extrai do seu excelente artigo, um parágrafo inteiro. Vejamos …

    … “Ano de 2011: A crise internacional trouxe uma nova onda de juros baixos – as taxas são “jogadas para baixo” a fim de aquecer a economia. O dinheiro “lá fora” ficou mais barato e uma nova onda de empréstimos no exterior acontece. A dívida atual é de US$ 284,1 bilhões, mas o Brasil continua credor (possui US$ 336 bilhões em reservas internacionais). ”

    Lendo este texto, tive a nítida impressão de que nós estamos sendo enganados !

    Por que ?

    Simples ! A imprensa toda e o próprio governo têm divulgado aos 4 ventos, por assim dizer, que a dívida externa brasileira acabou e não é verdade !

    No fundo existe sim dívida externa, mas as reservas internacionais superam o estoque atual e isto sim deveria ser informado, concorda ?

    Um forte abraço !

  • http://umanosemcompras.blogspot.com/ Marina Paula

    Excelente artigo! Muitas vezes as pessoas escutam esse termos no seu dia a dia e até têm uma ideia do que significam mas não o compreendem corretamente. Pessoalmente, eu não sabia que a dívida externa incluía os empréstimos realizados pelo setor privado e agora, com sua explicação, ficou muito mais fácil compreender algumas coisas que eu leio por aí.

  • Victor Fernandez Nascimento

    Tenho um dúvida parecida com a do Paulo Rezende, já que o Brasil tem condições de pagar toda a dívida poque não paga ?

    afinal essa dívida, como todas outras acabam sofrendo correções dos juros ?
    isso é o que eu não entendo muito bem ainda.

    Mesmo o governo hoje ser retentor de pouca porcentagem da dívida, ele poderia pagar as dívidas de empresas particulares e assumir a responsabilidade de cobrança com juros e correçoes destas dívidas, nao poderia ?

    um abraço !

  • Adonay

    É bom saber que: a divida externa tem diminuído mas a interna tem crescido excessivamente. Qual a sua opinião sobre isso: melhor uma dívida externa ou uma dívida interna?

  • http://financasforever.blogspot.com Everton Ricardo

    Pessoal, a dívida é mais ou menos assim:
    Imagine no caso da compra de algo para alguém, com o dinheiro de terceiro – nesse caso, tudo vira uma festa, pois nada mais importa, nem a qualidade do produto, nem o quanto custa, e muito menos se irá ou não levar qualquer satisfação ao usuário.
    Tudo isso é muito lamentável, mas convenhamos, com apenas raras exceções, é a pura realidade da vida contemporânea.
    Esse é o nosso governo!!!
    Abraços a todos!!

  • Leonardo

    Não acho que a dívida foi paga pelo exposto abaixo:

    BRASIL – DÍVIDA INTERNA E DÍVIDA EXTERNA
    SAIBA O QUE LULA FEZ DE 2002 A 2010 COM A “DÍVIDA INTERNA/EXTERNA” DO BRASIL.

    Você ouve falar em DÍVIDA EXTERNA e DÍVIDA INTERNA em Jornais e TV, como nem todos entendem. Vamos explicar:
    DIVIDA EXTERNA
    É uma dívida com os bancos estrangeiros, o FMI e outras instituições no exterior em moeda externa.

    DÍVIDA INTERNA
    É uma dívida com bancos nacionais em R$ (moeda nacional) no país.
    Então, quando LULA assumiu o Brasil, em 2002, devíamos:

    DIVIDA EXTERNA = 212.000.000.000.00 USD = 640 Bilhões de Dólares
    DIVIDA INTERNA = 640.000.000.000.00 R$ = Seiscentos e quarenta Bilhões
    Total da dívida = 852 Bilhões (dólares e reais)
    Em 2007 Lula disse que tinha pago a dívida externa.
    E é verdade, só que ele não explicou que, para pagar a dívida externa, ele aumentou a dívida interna:

    Em 2007 no governo Lula:
    Dívida externa = 0 Bilhões
    Dívida interna = 1, 400 Trilhão
    Total da dívida = 1, 400 Trilhão
    Ou seja, a dívida externa foi paga, mas a dívida interna quase dobrou.
    Agora, em 2010, você pode perceber que não se vê mais na TV e em jornais algo dito que seja convincente sobre a dívida externa quitada.
    Sabe por quê? É que ela voltou… Vejamos:

    Em 2010 no governo Lula:
    Dívida externa = 240 Bilhões Voltou maior (28 bilhões de dólares)
    Dívida interna = 1,650 000.000.000.000.00 Trilhão
    Total da dívida = 1,890 Trilhão
    OU SEJA
    No governo LULA, a dívida do Brasil aumentou em 1 trilhão!!!
    Daí é que vem o dinheiro que o Lula está gastando no PAC, bolsa família, bolsa educação, bolsa faculdade, bolsa cultura, bolsa para presos, dentre outras mais bolsas… e de onde tirou 30 milhões de brasileiros da pobreza !!! E não é com dinheiro do crescimento, mas sim, com dinheiro de ENDIVIDAMENTO.
    Compreenderam? Ou ainda acham que Lula é mágico? Ou que FHC deixou um caminhão de dólares para Lula gastar?

    • Ana Cleidel

      Porque vc acha que os estrangeiros estão querendo vir para o Brasil?? Vc acha que os brasileiros estão querendo voltar dos Estados Unidos porquê? E o que dizer da distribuição de renda? E outra, quem fez a dívida é que deveria pagar. Se vc não pagar as suas dívidas alguém paga p vc?? Que idiotice, ora, faça-me o favor! Querido, leia a história do Brasil, e descubra a origem da dívida. Não foi governo Lula quem fez os dois últimos empréstimos, foi o FHC para piorar a situação. E sabe quem pagou?? O Lula. Se informe mais…

    • Misael

      Qual a fonte Leonardo? Pegar coisas da Internet, sem embasamento econômico algum, é irresponsabilidade!

  • Joao Paulo

    O pior de tudo e saber que todos estao sendo enganados,como o Brasil tem a polulaçao de baixo estudo fica muito facil.
    A divida interna seria entao a falta de pagamento dos serviços prestados a polulaçao e a bancos?
    Parabens pelo site.
    grato,

    • http://dinheirama.com/navarro Conrado Navarro

      Oi João Paulo, obrigado pelos comentários. Os principais credores da dívida interna brasileira são, normalmente, bancos públicos e privados que operam no país, mas também pessoas físicas que compram títulos diretamente (Tesouro Direto).

      Abraços.

  • http://financasforever.com Everton Ricardo

    A dívida interna é o que o Conrado disse. Já a falta de pagamento é o calote. Que foi o que aconteceu com a Argentina tempos atrás. E é o que todos estão ( ou estavam?) com medo de que a Grécia iria fazer. Deixar de pagar seus credores, que no caso da Grécia, são os bancos internacionais, Banco Central Europeu e outros países que detém os títulos públicos gregos.
    Abraços!
    @everton_ric

  • Rafaelchalegre

    Por que o Brasil não paga sua dívida externa, uma vez que tem como pagá-la. Não seria mais seguro?

  • val

    Concordo com o Rafaelchalegre

  • Marcos

    Dinheirama Não pode ser parcial e o texto parece ser tendencioso.