06 mar Orçamento

Depois da farra do crédito e do consumo, quem vai pagar suas contas?

A expansão do crédito e do consumo traz uma realidade inconveniente: é hora de pagar as contas. Como lidar com o endividamento e livrar-se das dívidas?

por Conrado Navarro
há 2 anos

Depois da farra do crédito e do consumo, quem vai pagar suas contas?Roberta comenta: “Navarro, em 2010 consegui um emprego melhor e minha renda cresceu. Aproveitei para comprar algumas coisas que desejava há algum tempo, mas acabei me deixando levar pelos apelos de consumo. Exagerei e hoje estou enrolada, com muitas dívidas e sem conseguir aproveitar a mudança profissional. Empréstimo, financiamento, tenho de tudo. Socorro!”.

Para muitos, a compra parcelada representa a “grande sacada”: é possível comprar o produto tão esperado (normalmente caro e fora do orçamento), levá-lo imediatamente para casa e só pagá-lo “de leve”, em “suaves” prestações. Televisão nova, videogame[bb], geladeira, sofá, armário, moto, carro, praticamente tudo o que está a venda pode ser comprado assim.

Há quem diga que “a única forma de nossa família ter as coisas é comprando parcelado”. Antes de qualquer observação, escuto logo a justificativa “não fosse assim, não teríamos compromisso com o pagamento e a construção de patrimônio”. O raciocínio está em todo lugar, você deve conhecer algumas (muitas) pessoas assim.

Que é legal poder comprar tudo que a gente quer, não tenho dúvida. Mas o que fazer quando o verbo comprar está completamente desvirtuado? Quero dizer, como agir quando dinheiro não é realmente o que se tem que ter para sair da loja com esse ou aquele produto?

A realidade cobra seu preço!
Os meses de dezembro de 2011 e janeiro de 2012 foram marcados pela elevação das reservas destinadas a cobrir prejuízos com inadimplência. As chamadas provisões para créditos duvidosos cresceram em ritmo maior que o da oferta de crédito, indicando que os principais bancos temem o recente avanço da inadimplência.

De acordo com levantamento realizado pela consultoria Austin Rating, as provisões de 23 bancos de grande e médio porte cresceram 42,2% em 2011, número mais de duas vezes maior que o da expansão das carteiras destas mesmas instituições no período (19,8%).

Dados oficiais publicados pelo Banco Central deixam claros os motivos de preocupação: o percentual de atrasos acima de 90 dias nas prestações de empréstimos a pessoas físicas chegou a 7,6% do total em janeiro deste ano, representando um avanço de 33% em relação a janeiro de 2011, quando o percentual era de 5,7%.

A última vez em que os índices de inadimplência chegaram a patamares semelhantes foi em dezembro de 2009, em decorrência dos reflexos da crise – sendo o desemprego o principal fator na época.

Observado o atual estágio econômico do país, onde o desemprego atinge níveis historicamente baixos e a renda é crescente, o problema parece ser a relação do brasileiro com a abundante oferta de crédito e as facilidades na obtenção de empréstimos e financiamentos.

O economista Roberto LuisTroster resumiu bem o quadro em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo: “Os dados de inadimplência confirmam que a dinâmica recente do crédito não é sustentável indefinidamente”.

A saída passa por assumir a culpa e lidar com suas consequências
Livrar-se do endividamento sempre é possível, mas requer boas doses de humildade e coragem. Humildade para reconhecer que os principais culpados pelo problema são você e as decisões que você tomou enquanto consumia sem planejamento. Coragem para enfrentar a carga de responsabilidades e consequências que a humildade colocará diante de seus olhos.

Tente ser pragmático e ao mesmo tempo objetivo, focando seus esforços em ações com resultados práticos, palpáveis. Só assim a motivação[bb] para seguir adiante será maior que a tentação de voltar ao mundo mágico (e falso) da “terapia pelo consumo”. Experimente:

  1. Assumir a responsabilidade. Eu concordo que gastar é muito mais legal que poupar, mas é hora de encarar as coisas de uma forma mais adulta;
  2. Listar todos os seus compromissos financeiros, saldos devedores, taxas de juros, prazos de vencimento e informações de contato de cada dívida. Esse registro será sua missão de agora em diante;
  3. Registrar seus gastos e receitas de maneira que seu orçamento doméstico seja criado. Só assim você saberá exatamente onde estão os problemas (onde você gasta demais) e quais aqueles gastos que não poderão ser trabalhados;
  4. Renegociar suas dívidas de forma inteligente, preferindo quitar as dívidas mais caras e de menos parcelas primeiro. Pagar o mais caro acabará logo com o que mais prejudica seu fluxo de caixa, enquanto pagar as dívidas que estão quase no fim darão a necessária sensação de missão cumprida.

Quando tudo parecer chato e entediante, lembre-se das decisões que tomou e do ciclo perigoso que enfrentava há pouco tempo atrás. Volte ao primeiro item da lista acima e recomece. Enfrente as frustrações de cabeça erguida, afinal o problema é seu.

O que vem por ai?
Tudo indica que o Brasil voltará ao caminho de crescimento ainda em 2012, especialmente se a tendência de queda dos juros (Selic) se confirmar. Isso deve contribuir para a queda da inadimplência, mas o ritmo de expansão do crédito deverá elevar-se de forma mais comedida.

Ainda que o número de inadimplentes não assuste tanto, fica latente a necessidade de investimento[bb] e dedicação em busca de educação financeira. Afinal, independentemente da abusiva oferta de dinheiro fácil, somos nós os responsáveis por assinar os contratos e fazer mau uso do crédito oferecido.

Se você já enfrentou problemas de endividamento excessivo, que tal compartilhar conosco suas experiências e decisões que contribuíram para lidar com a situação? Use o espaço de comentários abaixo. Até mais.

Foto de sxc.hu.

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros "Dinheiro é um Santo Remédio" (Ed. Gente), “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), autor do blog "Você Mais Rico" do Portal EXAME e colunista da Revista InfoMoney. No Twitter: @Navarro.

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  • Celso

    Conrado vejo claramente uma abordagem prudente nas suas linhas …

    Saber lidar com dinheiro é uma arte para poucos em nosso país, principalmente para os mais jovens, que estão atualmente até o pescoço de dívidas.

    Trocar dívidas mais caras por dívidas mais baratas é uma boa alternativa, mas não resolve a sofreguidão compulsiva que muita gente tem – inclusive eu – que no passado também vivia desse jeito !

    A minha sorte é que a minha esposa é mão-fechada e aprendi com ela a cuidar melhor do dinheiro.

    Agradeço a DEUS por isso e digo a todos, quando necessário, que só com apoio pessoal a parcimônia com gastos se ajusta. Leva tempo, mas se ajusta !

    • http://dinheirama.com/ Conrado Navarro

      Pois é Celso, é muito importante lidar de forma inteligente com as finanças, não acha? Obrigado por sempre participar das discussões e opinar, sinta-se sempre “em casa” por aqui.
      Abração.

  • Guilherme da Costa

    Conrado, parabéns pelo artigo e pelo site! Estou aprendendo bastante com vocês!
    Eu mudei de cidade à trabalho ano passado e dois meses depois minha namorada veio morar comigo. Como estávamos começando, e eu como a Roberta, estava deslumbrado com o aumento da renda, exagerei no consumo e hoje estou começando a me livrar das dívidas que adquiri.
    Outro fato que me fez ficar nessa situação, foi uns problemas de falta de pagamento. Hoje consegui retomar o saldo que tinha no emprego anterior, e estou em um emprego mais estável.
    Minha dúvida é a seguinte: Hoje renegociei as dívidas dos meus cartões (parcelei todos), estou quitando um empréstimo e dívidas anteriores da faculdade. Com o montante que eu recebi, eu devo quitar parte das dívidas que tenho, ou continuar pagando as parcelas encarando os juros?

    • http://dinheirama.com/ Conrado Navarro

      Oi Guilherme, parabéns pela atitude e pela forma com que lida com suas finanças. Eu diria que se você já renegociou suas dívidas, isso significa que parcelou o saldo devedor e está pagando sem que novos juros sejam somados. Correto? Assim, seu fluxo de caixa está garantido, o importante agora é manter o compromisso em dia e pensar em formar poupança e investir quando isso terminar. Faz sentido?

      Grande abraço.

  • Sandra

    Conrado, estou com dívidas no cartão sérias, por diversas vezes falei comigo mesma agora vou quebrar os cartões liquidar tudo e recomeçar, é fantastico mas fica tudo sem atitude,
    não tenho salário, vivo de comissão o que gera uma espectativa muito grande eu acabo tendo
    que trabalhar muito mais e vendo muito menos, eu começo a escrever nos cadernos minhas despesas mas acabo me perdendo e como não tenho ajuda só despesa de filhos complica um pouco mais.
    enfim… não sei como fazer para iniciar esta luta o ringue é apertado e o adversário é grande.
    espero que você tenha alguma solução para estancar esta hemorragia financeira. abraços.

    • http://dinheirama.com/ Conrado Navarro

      Oi Sandra. Primeiro, parabéns pela atitude de abrir o jogo e expor principalmente aquilo que incomoda em você e suas atitudes. O que acho que deve fazer? Agir. Se quebrar os cartões fará você se sentir melhor, faça isso, mas lembre-se que são suas decisões com os compromissos já assumidos que farão diferença.

      É hora de sentar, listar as dívidas todas, anotar o que você recebe/gasta, quanto precisa para pagar tudo e então passar a negociar a situação com os credores. Quanto pode pagar? Em quantas vezes? Demonstre interesse e compromisso, a renegociação é parte do processo. Não faça o papel de vítima, nunca mais!

      Abraço.

  • Zezé

    Conrado boa noite, é o seguinte. Tenho um carro que acabei de pagar seu parcelamento, mas tenho também um cheque especial, e um cartão de crédito com aquelas taxas básicas. Para a solução do meu problema, pensei em vender meu carro, pagar meu cartão e meu cheque, terminar uma pequena obra em minha casa, e financiar um carro um pouco mais novo; Estou no caminho certo, ou na sua opinião o que devo fazer? Me acode aqui. Abraço e parabêns pelo site.

    • http://dinheirama.com/ Conrado Navarro

      Oi Zezé, obrigado por comentar e participar da discussão. Quais as possibilidades de adequar seu orçamento e renegociar a dívida sem se desfazer de seus bens? Avalie com o credor um parcelamento que funcione para você.

      Se isso não fizer sentido, o jeito é mesmo abrir mão (momentaneamente) do patrimônio para saldar tudo, então depois você se organiza para poupar e comprar outro carro. O importante é não deixar a dívida continuar crescendo, o que torná-la impagável em pouco tempo.

      Grande abraço.

  • Bernadette

    Esse artigo é um alerta. Sempre falo sobre a AUTOCONSCIÊNCIA: até que ponto temos noção da extensão de nossos gestos, gastos, da nossa capacidade de autocontrole e de priorização? Esse é um passo muito importante para colocar a vida financeira em dia.

  • Vinicius Cunha

    Realmente é muito triste está com o nome “sujo” na praça! Eu FIZ vários empréstimos, comprei muitas coisas que não precisava, e acabei com dividas até o pescoço. MAIS graças a Deus, eu busquei ajuda, informação,sobre educação financeira,e organizei minha vida. Hoje não sou mais o homem triste de antes,pelo contrário,sou feliz, porque agora eu sei gastar meu dinheiro de forma consciente,e melhor ainda, poupar. abraço.

  • http://www.livro-objeto.com.br/ Livro-objeto

    A-DO-REI esse artigo! Já passei por uma situação assim, anos atrás, e demorei muito para entender os motivos de meu endividamento. Durante minha formação financeira, mesmo que tarde (depois dos 30!), percebi que o fato de eu ter tido a oportunidade de acessar o crédito pela primeira vez na minha vida, sem conhecimento do que ele de fato era e de como administrar suas vertentes, levou-me a contrair muitas dívidas em diferentes produtos de crédito (cartões de crédito, financiamento de carro, empréstimo bancário, empréstimos com amigos e parentes…). A sensação que eu tinha era de que havia ficado muitos anos reprimida, sem poder ter o que queria e, de repente, poderia ter tudo que quisesse com o crédito oferecido – sentia-me poderosa, e contava com recebimentos extras que nem sempre vinham. Com o tempo, percebi que os produtos de um banco são parecidos com os sapatos de uma loja: há vários modelos para diferentes formatos de pés. Devemos “calçar” aquilo que melhor nos adequa e que nos ajude, de fato, a caminhar sem criar calos, bolhas ou deixar-nos exautos. Hoje, faço todas as minhas compras à vista e criei o hábito de anotar numa planilha (apelidada “descontos”) o valor dos descontos que recebi nas lojas ao longo do ano. Ao final do ano, somo tudo e vejo como valeu à pena minha reeducação. Parabéns pelo artigo, adorei os tópicos e o fenômeno descrito nele está de fato acontecendo com muita gente, especialmente a classe C e D que, felizmente, está crescendo e tendo acesso ao crédito. Abçs,
    Luciana Diniz