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O cartão de crédito dos meus sonhos

12comentários

O cartão de crédito dos meus sonhosSemana passada, quando li a notícia sobre o novo cartão de crédito que oferece parcelamento das compras em até 200 meses, enviei um e-mail para o Navarro perguntando se eu poderia escrever alguma coisa para o Dinheirama nesse sentido.

Inicialmente a minha ideia era falar um pouco sobre as armadilhas dessa nova modalidade de crédito (nem tão nova assim) e confrontar a ideia defendida por alguns de que o problema não é o cartão, mas o uso que as pessoas fazem dele.

Mas…

Resolvi falar um pouco sobre o cartão de crédito dos meus sonhos, um cartão de crédito que não existe no mercado, mas que deveria existir.

Não se trata de um cartão que oferece juros menores do que os cobrados no rotativo atualmente, nem um maior prazo de parcelamento, nem custos reduzidos de aquisição e operação para os lojistas.

É um cartão de crédito que realmente funcione para todos como uma ferramenta capaz de ajudar no controle das finanças e não como um perigo potencial para o superendividamento.

O meu cartão de crédito dos sonhos é um cartão que vem com algumas opções pré-estabelecidas, mas que podem ser modificadas pelo titular do cartão através de um SAC, após o pagamento da primeira fatura. Entre essas opções estariam:

  • Limite de 10% da renda do titular;
  • Bloqueio para compras parceladas onde incidam juros;
  • Bloqueio para pagamento mínimo;
  • Bloqueio para saque.

A ideia aqui é utilizar o viés do status quo, ou seja, fazer uso (ético e sustentável) daquela nossa tendência de deixar as coisas como estão.

Algumas empresas utilizam esse viés quando nos oferecem, por exemplo, um bem ou serviço com um preço absurdamente inferior ao normalmente praticado (ou até mesmo gratuitamente) por um determinado período de tempo. Ao término deste período, o preço volta ao normal, mas você continua recebendo o bem ou serviço (e pagando por ele) – a menos que você procure cancelar o contrato. As assinaturas de revistas são o exemplo clássico.

A probabilidade de você continuar pagando o preço cheio pelo bem ou serviço (manter as coisas como estão) é muito maior do que a probabilidade de você se dar ao trabalho de cancelar o contrato.

A razão de ter as opções pré-estabelecidas atreladas ao limite e ao parcelamento está ligada à nossa incapacidade de substituir as contas mentais pelas continhas de somar e subtrair com lápis e papel (ou planilhas, como queira).

A grande maioria das pessoas decide se compra ou não em função do valor da parcela e, o que é pior, normalmente se esquece de somar a nova parcela às anteriores dentro de seu fluxo de caixa. E, quanto menor o valor da parcela, maiores são as chances de você usar a conta mental.

O comércio varejista sabe bem disso. Basta prestar um pouco de atenção às propagandas para perceber que o valor em destaque (e em alguns casos o único valor mencionado verbalmente) é o da parcela.

Já que as contas mentais são um perigo – e não, nós não vamos substituí-las pelas contas de lápis e papel só porque temos um cartão de crédito ou só porque sabemos que esse é o melhor caminho –, o cartão de crédito dos meus sonhos exibe em cada comprovante de compra o limite disponível atualizado.

Bem, e só para provocar mais um pouquinho, o contrato do meu cartão de crédito dos sonhos é automaticamente cancelado pela operadora se o titular efetuar o pagamento mínimo por cinco vezes, consecutivas ou não, nos últimos 12 meses de vigência do contrato.

A inspiração aqui veio da Lei 9.656 sobre a regulamentação dos planos de saúde. Em seu artigo 13, parágrafo único, inciso II, a Lei 9.656 proíbe a suspensão ou rescisão unilateral do plano, “salvo por fraude ou não pagamento da mensalidade por período superior a 60 dias, consecutivos ou não, nos últimos 12 meses de vigência do contrato, desde que o consumidor seja comprovadamente notificado até o quinquagésimo dia de inadimplência”.

Acho que para aqueles que já sabem utilizar um cartão de crédito, essa nova modalidade não seria problema algum. Mas, para aqueles que não sabem fazer um uso adequado da ferramenta, acho que seria um grande empurrão para escolhas mais acertadas.

Em meio a tantas iniciativas no setor das finanças, como a proposta do Código de Defesa do Consumidor enviada ao Senado que visa a atacar o superendividamento das famílias e a regulação das instituições financeiras do país (um dos aspectos que compõem o tripé de atuação da ENEF), quem sabe alguém não se inspira nas minhas provocações…

Afinal, sonhar não custa nada (nem endivida ninguém!). Você não gostaria de usar um cartão de crédito assim, dos sonhos?

Foto de sxc.hu.

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Adriana Spacca Olivares Rodopoulos

Mais informações

Economista e especialista em Psicologia Econômica ambos pela PUC-SP. Atualmente coordena o Projeto Escolhas e Educação da Clínica de Psicologia Altavista e integra o Grupo de Estudos sobre Psicologia Econômica supervisionado pela Dra. Vera R. de Mello Ferreira.

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  • http://www.facebook.com/epdasilva Eduardo Pereira da Silva

    Por favor Adriana Spacca, assim que ficar sabendo do lançamento de tal “cartão dos sonhos” me avise, apesar de usar o meu com cuidado, seria realmente uma mão na roda. rsrsrs
    Excelente post, parabéns.

  • Glauce Borges

    Que ideia excelente! Eu adoraria um cartão assim, apesar de usar o meu com cautela… mas ainda acrescentaria uma informação no comprovante de cada compra: o valor atual da fatura! Imagina se vc passar o cartão e já saber ali mesmo qual é o valor atualizado da sua fatura até aquele momento? Mais mão na roda impossível.
    Parabéns pelo texto =)

    • Glauce Borges

      Pensei nas pessoas que têm parcelas e mais parcelas pequenininhas acumuladas. Essa pessoa acabou de pagar a conta e mentalmente acredita que o saldo é reiniciado, zerado, pra ela começar a comprar novamente. Passa o cartão no supermercado mesmo e quando sai o comprovante, já leva o susto: Valor parcial da fatura R$ 512,00. Ela vai se dar conta de q não, não pode voltar a comprar como se a fatura tivesse sido zerada quando foi paga.

      • Adriana

        Essa é a principal ideia. Já pensou se fosse assim, quantas pessoas que o hoje estão enforcadas, poderiam estar bem… Atrocidades financeiras, meu caro.

  • http://www.livro-objeto.com.br/ Livro-objeto

    Ei, Adriana, adorei seu artigo. Fiquei horrorisada com a possibilidade de haver um cartão de crédito que parcele compras por 200x….. muita gente passaria 15, 20 anos trabalhando para pagar dívidas e juros. Parabéns pelo artigo, excelente! Abçs,
    Luciana Diniz

  • Boli51

    Mas sabe por que o cartao de crédito dos seus sonhos nunca vai existir? Porque é justamente dos incautos que as empresas de crédito vivem. Elas já contam com isso! Elas sabem que numa sociedade de consumo as pessoas compram primeiro e pensam depois. Se esse cartao fosse criado, por exemplo, por medidas governamentais, todas essas empresas fechariam as portas pois a mina de dinheiro estaria esgotada.
    Quando trabalhei num aeroporto na Europa, percebi que os clientes judeus sempre pagavam com dinheiro, nunca com cartao (o que nos dava um trabalhao pois nao estávamos preparados para receber moeda, só cartao – hehehe!!!). Um dia, numa hora mais calma, resolvi perguntar a um deles por que só eles faziam isso.
    A resposta foi para mim uma licao de vida (entendi por que nao existe, fora de Israel, judeu pobre) e um grande ensinamento: “Judeu só gasta o que cabe no bolso e nao o que ainda está – ou ainda virá – no banco!”.
    E lá fui eu abrir caixa-forte, cofroes, cofres e cofrinhos até chegar à caixinha de dinheiro para dar o troco para ele, que ele poderia ter-me dado como gorjeta, pois era coisa pouca. Mas ele nao deu. Hehehe!!!

  • Charle miranda

    gostei muito desse texto, acho que realmente esse modelo seria o cartão ideal
    parabéns pela ideia.

  • Enilda ivanna Irammar

    10 Anos sem compras!!!NUNCĨ….Quero meuamerica expresscard!

  • Paulo Henrique Fracaro

    Olá Adriana.
    Para o controle, melhor ainda que o lápis e papel ou planilha é o Dinheirama Online!
    abraços

  • http://www.guilhermeazevedo.com.br/ Guilherme Azevedo

    Seria legal também um cartão supertecnológico que no momento da compre te fizesse algumas perguntas to tipo: Você realmente quer isso? Realmente precisa? Merece? Você pode comprar (ai entra a questão histórica – limite e pagamento mínimo)? e quinta pergunta: você deve comprar?

    Um cartão desses iria deixar a compra tão chata que as pessoas desistiriam de comprar na hora. Só comprariam o que realmente for necessário mesmo. rs.

    Abraços,
    Guilherme Azevedo – Planejador Financeiro Pessoal / LifeC.O.A.C.H.

  • Matthaeus

    Já viram o cartão da saraiva? Promete incríveis benefícios como anuidade grátis para sempre e taxa de manutenção grátis. Tentei analisar e ler o contrato, mas preciso de uma segunda opinião.

  • http://www.facebook.com/willianfernan Will Fernandes

    o trecho “o cartão de crédito dos meus sonhos exibe em cada comprovante de compra o limite disponível atualizado” é muito interessante. E o melhor, não é nada impossível. Isso já ocorre com os VRs, como VisaVale, Sodexo, etc.

Quem já falou do Dinheirama?

Enxergo o Dinheirama como uma das principais fontes de informação sobre educação financeira e investimentos na internet. Não porque não existem outras iniciativas com informações úteis, mas sim porque o Dinheirama fala tanto ao público experiente quanto para o público iniciante nessas áreas, e nesse último caso, faz com uma didática admirável e extremamente difícil de se encontrar por aí. Me ajudou muito, me ajuda e ainda me ajudará bastante, com certeza.

Bernardo Pina

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