Capital, Capital de Giro, Capital de Giro Líquido e Outros Temas Capitais

26 abr Empreendedorismo

Capital, Capital de Giro, Capital de Giro Líquido e Outros Temas Capitais

Como deve ser feita a gestão e controle do capital de giro, ativos e passivos de uma empresa bem administrada? A gestão é a chave para o sucesso!

por Clayton Nogueira
há 2 anos

Capital, Capital de Giro, Capital de Giro Líquido e Outros Temas CapitaisO gestor é o guardião do capital a ele confiado pelos acionistas e é imprescindível que cuide deste com carinho e diligência. Para cuidar, é preciso conhecê-lo e é isso que vou abordar nesse artigo em relação ao capital de giro.

O capital, nome genérico atribuído aos recursos financeiros investidos numa empresa, pode vir dos acionistas e dos credores (Origem – lado esquerdo do balanço). Ele é então investido (Aplicação – lado direito do balanço) nos ativos em contas classificadas segundo sua liquidez, isto é, contas mais líquidas, como caixa, são colocadas em primeiro lugar e contas menos líquidas, como imóveis e equipamentos numa indústria, por exemplo, por último.

Assim, o valor total investido numa empresa é representado por todo o ativo que, por ser de natureza distinta, é classificado em ativo circulante e não circulante. Como já ressaltamos, a regra geral nos negócios é minimizar o investimento (capital), buscando, com isso, aumentar o retorno (para o mesmo lucro, quanto menor o investimento[bb], maior vai ser o retorno).

Os lucros da operação da empresa devem vir, preferencialmente, da eficiência e eficácia no uso dos ativos não circulantes (máquinas, equipamentos, softwares e marca, por exemplo) e, portanto, dado que o capital é escasso, quanto menor o capital investido no ativo circulante, maior é a parcela disponível para investimento no capital permanente.

Capital de Giro ou “de Trabalho”, como diriam os gringos
Os ativos circulantes dizem respeito àqueles ativos mais líquidos e que no curso normal das operações de uma empresa vão se transformar em caixa num período de até um ano. É por isso que esses ativos compõem aquilo que se denominou capital de giro, pois eles giram ao longo de um ano, sustentando a necessidade de liquidez (caixa) da empresa.

Numa empresa comercial, por exemplo, o caixa se transforma em estoque pela compra, que por sua vez se transforma num contas a receber pela venda, para finalmente se transformar em caixa novamente, completando o ciclo. Capital de giro, portanto, é o ativo circulante que dá liquidez às operações do dia a dia da empresa.

CAPITAL DE GIRO = ATIVO CIRCULANTE (CAIXA, CONTAS A RECEBER, ESTOQUES).

Capital de Giro Líquido (CGL)
Todos os ativos de uma empresa são financiados por recursos (fontes) representados no passivo. Os recursos do acionista no patrimônio líquido, e os recursos de terceiros de curto e de longo prazo representados no exigível a curto e no exigível a longo prazo. Aos recursos que se originam de terceiros e são exigíveis (têm que ser pagos até uma determinada data) em até um ano, convencionou-se chamar de passivo circulante.

Deste modo, dá-se o nome de capital de giro líquido à diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante, e este representa em que medida o passivo circulante financia o capital de giro (ativo circulante).

CAPITAL DE GIRO LÍQUIDO = ATIVO CIRCULANTE (-) PASSIVO CIRCULANTE

Gestão de Capital de Giro
O objetivo da administração financeira de curto prazo é gerir cada um dos itens do ativo circulante (caixa, bancos, aplicações financeiras, contas a receber, estoques etc.) e do passivo circulante (fornecedores, salários e impostos a pagar, empréstimos etc.) a fim de alcançar um equilíbrio, entre rentabilidade e risco, que contribua positivamente para aumentar o valor da empresa[bb].

Um investimento alto demais em ativos circulantes reduz a lucratividade (mais investimento em ativos líquidos e, portanto, menos rentáveis), enquanto um investimento baixo demais em ativos circulantes aumenta o risco de a empresa não poder honrar suas obrigações nos prazos pactuados (perder crédito e até se tornar inadimplente). Ambas as situações conduzem à redução do valor da empresa, que é exatamente o oposto da missão dos gestores.

Capital de Giro Positivo e Capital de Giro Negativo
Quando o valor do ativo circulante supera o do passivo circulante, significa que a empresa possui um capital de giro positivo. Essa situação (ativo circulante maior que o passivo circulante) é mais comum, por conta de dois motivos:

  • O primeiro, denominado descasamento, diz respeito à impossibilidade de conciliar as datas de pagamento com as de recebimento;
  • O segundo refere-se à incerteza associada ao recebimento dos recursos de clientes nas datas acordadas e à necessidade de a empresa honrar seus pagamentos nas datas compromissadas, sob pena de sofrer os efeitos de perda de reputação, pagamento de multa e juros cada vez mais altos e, por fim, perda do crédito e inadimplência.

Assim, um ativo circulante maior que o passivo circulante dá fôlego para o gestor lidar com o descasamento e as incertezas das entradas de caixa. Nessa situação, ativo circulante maior que o passivo circulante, o capital de giro líquido representa a parcela dos ativos circulantes da empresa financiada com recursos de longo prazo (soma do exigível a longo prazo com patrimônio líquido), os quais excedem as necessidades de financiamento dos ativos permanentes. Veja a figura abaixo:

Detalhes sobre Capital de Giro

Quando o valor do ativo circulante é menor que o do passivo circulante, significa que a empresa possui capital de giro líquido negativo. Nessa situação, menos usual, o capital de giro líquido é a parcela dos ativos permanentes da empresa que está sendo financiada com passivos circulantes, ou seja, com capitais de curto prazo, o que denota um quadro de risco, pois dívidas de curto prazo vencem antes que os ativos não circulantes comecem a gerar caixa.

Gestão de Capital de Giro no Brasil
No Brasil, provavelmente em função de nossa memória inflacionária e da elevada taxa de juros real, a gestão de capital de giro[bb] torna-se ainda mais relevante. Primeiro, nós, gestores, temos que entender o capital de giro como um mal necessário (precisamos ter estoques para amortecer desvios da demanda e falhas na cadeia de suprimentos, além de precisarmos conceder crédito e vender a prazo se quisermos vender mais e batermos nosso concorrente).

Isto posto, a meta é otimizar o capital de giro, buscando eficiência na gestão de estoques e de contas a receber de um lado, e passivos circulantes que nos financiem, de preferência sem custo do outro. Como já mencionei, nossa taxa de juros exorbitante faz com que os fornecedores de matéria-prima e serviços incluam encargos financeiros, hoje em dia de até 2% ao mês quando optamos por compras a curto prazo (30/60 dias), coisa que no exterior dificilmente ocorre. Assim, apenas as contas de salários em geral e de impostos e encargos a pagar podem ser ditos como de custo zero no financiamento do capital de giro.

Como otimizar contas circulantes (caixa, estoques, contas a receber, contas a pagar etc.) é o “X” da questão, e que pretendo explorar em futuros artigos. Até lá.

Foto de sxc.hu.

Clayton Nogueira

Diretor financeiro para a America Latina da Valspar Corporation. Graduado em Administração de Empresas com mestrado em Controladoria pela USP, MBA em Marketing pela ESPM-SP, conselheiro fiscal e de administração certificado pelo IBGC. É professor de Planejamento e Controle na FIAP e da FIA, conselheiro fiscal da Abrafati e diretor vogal no IBEF-SP.

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  • Roberto

    Ótima explicação. Esclarecedora.