23 out Educação Financeira Finanças Pessoais

Como dar mesada para os filhos?

Como dar mesada para os filhos? Educação financeira é mais do que trocar comportamento por dinheiro. Entenda como a mesada ajuda nesse processo.

por Bernadette Vilhena
há 9 meses

dinheirama-post-como-dar-mesada-filhosTenho visto muita distorção em relação ao uso da mesada e isso me preocupa. O assunto é sério, merece atenção e informação. Vejo famílias adotando certas “metodologias” que comprometerão a relação das crianças com o dinheiro e seus desdobramentos.

Explico: fazer da mesada instrumento de condicionamento infantil é o caminho mais fácil e desastroso dentro das relações humanas. Um exemplo dessas práticas é vincular a mesada ao cumprimento de tarefas ou condutas sociais.

Esses condicionamentos ferem o ato de educar e passam longe da Educação Financeira Infantil. Adotar a mesada ou o oferecimento de dinheiro pegando o atalho do “toma lá, dá cá” é uma decisão preguiçosa!

A mesada deve ser uma ferramenta na aprendizagem financeira e não deve, jamais, ser usada como objeto de troca. Perde-se todo o sentido, por exemplo, quando a vinculamos ao desempenho escolar, como punição a comportamentos ruins ou recompensa por atos de cidadania.

Educação não é troca comercial

Ás vezes fica difícil entender a barganha que é feita por algumas famílias. É antipedagógico atrelar perda ou ganho de dinheiro da mesada a ações cotidianas naturais como tomar banho, reclamar de alguma coisa, desobedecer e, pasmem, perder alguns centavos da mesada cada vez que for para a cama dos pais à noite.

Não critico aqui a intenção dos pais, pois acredito que sejam as melhores, mas como educadora eu preciso trazer outras informações com o objetivo de enfraquecer tais métodos, estimular a reflexão e a busca por condutas mais apropriadas.

Vejo que, por desconhecimento de práticas mais adequadas ou por entenderem as relações humanas sob a ótica capitalista, muitos pais acabam se perdendo quando o assunto é dinheiro. No futuro ,as chances de dificuldade de relacionamento pessoal e de trabalho por parte dessas crianças é algo a ser pensado. Lembre-se que os exemplos na infância possuem um peso grande na vida adulta.

As condutas dos pais formam, fixam crenças, norteiam escolhas e ações de seus filhos. A mente infantil absorve todos os estímulos rapidamente, os quais contribuirão para a formação do Eu. O que foi absorvido se manifestará mais tarde em pensamentos e atitudes.

Quando o dinheiro é associado de forma equivocada com cooperação, respeito, expressão de emoções, autocuidado, responsabilidade como cidadão, as crianças estão sendo condicionadas a fazerem tudo em troca de algumas moedas. Esse não é o conceito inteligente de mesada.

Essa é uma forma perigosa de compreender a vida e seus propósitos. Onde ficará, por exemplo, a solidariedade e a livre cooperação na cabeça dessas crianças?

Verdadeiras relações humanas não encontram ressonância no mercantilismo. Não se compra respeito, tolerância, fraternidade ou amizade sincera. Muitos estão confundindo a realidade, pois permanecem distraídos com a massificação de tudo e acabam quantificando as relações com seus filhos.

Atalhos e distorções perigosas no uso da mesada

Educar um filho dá trabalho mesmo. Tem momentos em que o cansaço fala mais alto e se não estivermos centrados em nosso propósito de formação, acabamos optando pelos atalhos: cedemos às birras, damos presente porque queremos sossego, temos atitudes baseadas no senso comum, não colocamos limites, compramos porque todo mundo compra, “compramos” o comportamento e o cumprimento de regras e por ai vai.

Só que educação envolve a formação do indivíduo em sua totalidade. Educar integralmente nossos filhos é desenvolver o senso crítico, prepará-los para que enxerguem além do óbvio. Só assim construiremos caminhos para uma vida mais leve, feliz e longe das distorções que vemos por aí.

Distorções essas que a maioria insiste em chamar de evolução, modernidade e outros adjetivos atraentes. A família é a base, ela é decisiva para a formação de cidadãos conscientes e mais saudáveis emocionalmente. O contrário disso é regressão!

E a mesada? Educar financeiramente é ensinar que o dinheiro é um recurso finito e necessário. Que, quando bem compreendido e administrado, nos proporciona uma vida material confortável e qualidade de vida.

Dinheiro é um meio e não um fim em si mesmo. Para tudo isso é preciso mudar modelos internos que muitos de nós, adultos temos! E tudo isso começa com a mesada. A Educação Financeira Infantil começa dentro de cada pai, mãe ou responsável.

O tema chega a ser desconfortável, pois toca em pontos sensíveis do nosso cotidiano. Mas é preciso colocar o assunto em pauta para a construção de novos modelos. É o que acredito como mãe e educadora financeira!

Convido você a fazer parte dessa discussão e partilhar sua forma de compreender esse tema. Use o espaço de comentários abaixo para isso. Abraço e até a próxima.

Foto teaching kids, Shutterstock

Bernadette Vilhena

Pedagoga empresarial, consultora em diversas instâncias da prática educativa nas empresas e autora do livro "Dinheirama" (Blogbooks). Especialista em Gestão de Pessoas e estudos nas áreas de Ergologia, Gestão do Conhecimento e Educação no trabalho.

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  • Anônimo
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  • Carlos Reche

    Excelentes reflexões. Parabéns à autora!

    Não tenho filhos, ou seja, experiência zero no assunto. Mas sou da opinião de que educar dá trabalho, exige atenção, envolvimento e muita paciência dos pais, e não tem como ser diferente.

    Pode parecer menos desgastante (e, talvez, seja mesmo) condicionar o valor da mesada a pequenas coisas como comportar-se, escovar os dentes, arrumar a cama etc., mas isso pode estourar lá na frente, caso a criança não entenda a importância dessas lições e acabe crescendo com alguns valores distorcidos.

    • Bernadette Vilhena

      Grata pelas colações Carlos!
      Abraço

  • 100004352320289

    Parabéns Bernadette, faltava um texto como esse para melhor esclarecer o real valor da mesada. Sou pai de um menino de 3 anos e entendo perfeitamente essa necessidade de aplicar os conceitos da educação financeira logo cedo.

  • 100004352320289

    Parabéns Bernadette, faltava um texto como esse para melhor esclarecer o real valor da mesada. Sou pai de um menino de 3 anos e entendo perfeitamente essa necessidade de aplicar os conceitos da educação financeira logo cedo.

  • 100004352320289

    Parabéns Bernadette, faltava um texto como esse para melhor esclarecer o real valor da mesada. Sou pai de um menino de 3 anos e entendo perfeitamente essa necessidade de aplicar os conceitos da educação financeira logo cedo.

  • Lucas

    Tem até uma foto que circulou muito no facebook da planilha de mesada de um pai…muitos acharam que aquilo era um bom exemplo, mas também fiquei pensando que não era muito certo…parabens pelo texto, agora fico esperando outro com dicas de como tratar a mesada ^^

    • Jonatas Santiago

      Estou com o Lucas nessa. Aguardando dicas de como tratar a mesada com os filhos…

    • Bernadette Vilhena

      Isso mesmo Lucas! Sobre a tabela que circulou esta abordagem
      NÃO me agrada. Educar financeiramente um filho vai além de punições ou
      recompensas. Muito além…. A mesada é um ótimo aliado dentro da
      educação financeira das crianças. Cada família opta por um caminho. Eu
      particularmente prefiro usar a mesada de outra forma…. Ensinar usar os
      recursos com sabedoria e tranquilidade.

  • wwww

    Interessante o assunto. Parabéns! Entretanto, para completar aguardo orientações de como tratar a mesada com os filhos.

  • Bernadette Vilhena

    Aos leitores que estão solicitando orientações de como tratar a mesada, logo acima no corpo do artigo a direita, estão disponíveis links para esse tema.

  • Itaici

    Adoro o tema. Na minha casa minha filha (16 anos) tem mesada… compra crédito para o celular…. sorvete…, supérfluos. (não falta nada para ela, dentro de minhas possibilidades e do que entendo como necessário) enfim, cada real que ela economiza, dobro no investimento. Além dela ter quer ler artigos de educação financeira e até alguns livros de educação financeira. Me preocoupo muito porque o pai é filho de gerente de banco. Ele adora um empréstimo, fala inclusive que quem não deve não tem nada. Daí nasce minha preocupação com a educação financeira dela. Ela tem compreendido a importância de plantar para colher no futuro. Passou no CEFET e aí o que eu investia em sua educação, escola particular, agora é investido TD.