A obrigação da empresa é pagar aquilo que deve aos funcionários: salário, benefícios e outras remunerações, em dia e em sua integralidade – nada além disso. E não é função do empregador “se meter” na vida financeira dos funcionários. O que os funcionários fazem com o dinheiro que ganham é problema deles.

O que você acha do parágrafo acima? Aqui entre nós (e deixando de lado as boas práticas de Recursos Humanos e pensando só pelo lado financeiro), eu acho que ele está certo. Não vejo por que o empregador deveria, de alguma forma, se preocupar com a vida financeira do funcionário.

Num mundo ideal, o empregador paga aquilo que foi combinado, o empregado usa o dinheiro que recebe como bem entender, todos ficam felizes e tudo acaba bem. Mas, na vida real, as coisas não são bem desse jeito.

Empregadores, em sua maioria, cumprem a parte deles. Muitos empregados conseguem gerir suas finanças com maestria, vivendo bem com aquilo que recebem, mas uma parcela cada vez maior de empregados vem demonstrando uma grande inabilidade na gestão do dinheiro que recebe (aliás, os números de endividamento das famílias brasileiras nos últimos anos mostram isso com clareza).

E por que isso deveria ser problema do empregador? Por uma simples razão: as empresas estão sofrendo danos colaterais por conta da inaptidão financeira de seus funcionários.

Em 2013 eu lancei, com apoio de instituições de renome como a Anefac, a ABRH-SP e a ABTD, um ebook de distribuição gratuita chamado “Guia de Educação Financeira no Ambiente de Trabalho”, voltado para profissionais de RH, empresários e assistentes sociais.

No material (que pode ser baixado em www.andremassaro.com.br/GEFAT) eu menciono várias pesquisas feitas no exterior, entre elas uma particularmente impressionante, feita pela PricewaterhouseCoopers nos EUA, que mostra que 97% dos funcionários de empresas utilizam horas de trabalho para cuidar de assuntos financeiros pessoais, e 22% destes utilizam pelo menos cinco horas por semana para essa finalidade.

Isso representa horas remuneradas perdidas e destruição de valor para o empregador. Agora você começa a acreditar que a educação financeira dos funcionários é, SIM, um problema do empregador? O empresário pode reclamar, pode se sentir injustiçado (com razão), mas no final, ele acaba pagando a conta.

E como tentar cessar, ao menos em parte, essa perda de valor? Investir em programas de educação financeira para os empregados é uma saída. Não é uma solução perfeita, pois, infelizmente, muitas pessoas são resistentes ao assunto (até por envolver mudança de hábitos).

Mas é possível recuperar uma parcela significativa desse valor desperdiçado e ainda ter vantagens adicionais, como empregados mais conscientes, mais engajados e reforçar a imagem da empresa como entidade socialmente responsável, que se preocupa com seus funcionários e com a sociedade como um todo (afinal, não devemos esquecer o efeito multiplicador da educação financeira nas famílias e círculos sociais dos empregados).

Nos Estados Unidos, a instituição mais atuante no estudo dos impactos da educação financeira em organizações, o PFEEF (Personal Finance Employee Education Foundation) estima que o ROI (retorno sobre o investimento) de programas de educação financeira em empresas é de três para um. Ou seja, para cada dólar investido, a empresa ganha três dólares em economias ou recuperação de produtividade.

Então, se você é empresário ou gestor, e acredita que a educação financeira dos funcionários não é problema da empresa, analise os números e pense novamente.

Foto “Positive diagram”, Shutterstock.

André Massaro
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Comentários

  • Rômulo Fuzo

    André, falou tudo.
    Um funcionário com suas finanças saudáveis trabalha mais tranquilo, rende mais, pede menos adiantamento, mta menos serviço… e por aí segue!
    Empresas sérias pensam nos detalhes, e esse tipo de investimento economiza em muita dor de cabeça.