A crise no setor automotivo continua a todo vapor. Mesmo assim, os aumentos nos preços dos carros permanecem constantes, ainda que existam diversas promoções para a maioria dos modelos encalhados nas concessionárias. Como se isso não bastasse, ainda há veículos com fila de espera e cobrança de ágio.

Você não acha que isso tudo parece muito confuso? Imagino que sim! É justamente por isso que o objetivo deste artigo é analisar esse cenário para que você possa compreendê-lo melhor.

Atualmente, em função de uma série de fatores ocorrendo simultaneamente, está cada vez mais difícil afirmar se um carro está caro ou com preço, digamos, razoável (claro, sempre partindo do pressuposto de que todos os carros 0km são caríssimos no Brasil).

Para ilustrar, recentemente participei do lançamento do livro do Professor Marcos Silvestre, chamado de “Os 10 mandamentos da prosperidade” em São José dos Campos, minha cidade.

Durante a palestra realizada, alguns participantes fizeram a ótima observação de que, com o aumento da inflação presenciado no Brasil, os consumidores estão perdendo a referência acerca do que é caro ou barato.

Essa discussão ainda estava na minha mente quando, no dia seguinte, um jornalista me enviou uma mensagem perguntando se eu achava que estavam muito caros três veículos orçados numa licitação. Após uma breve olhada, eu comentei que os preços pareciam normais. Ele surpreendeu-se, porque tinha ficado impressionado com os valores.

O cenário dos preços atualmente

Como já foi analisado em artigos anteriores, a atual crise é decorrente principalmente da antecipação de demanda artificial que foi promovida pelas intervenções governamentais na economia após a crise de 2008.

Em função do atual quadro de estagflação, do lado dos consumidores existe uma grande queda no nível de confiança e receio quanto à manutenção de empregos. Os orçamentos domésticos permanecem sendo impactados pela inflação, aumento do dólar, dos juros, maiores restrições ao crédito, além de recordes de endividamento das famílias.

Esse contexto ajuda a explicar o verdadeiro colapso que estamos vendo nas vendas. Observando do lado das fabricantes, existe um aumento da capacidade ociosa, elevados níveis de estoque, pressões nas margens (em decorrência de boa parte dos aspectos mencionados no item acima) e baixa confiança por conta da falta de clareza quanto ao futuro das políticas econômicas.

Diante desse panorama, algumas tendências têm surgido:

1. Aumento dos preços nominais dos carros: a maioria das fabricantes têm reajustado com frequência o preço de tabela com o objetivo preponderante de manter as margens, considerando o menor volume de vendas.

Dica: se os carros já são historicamente caríssimos no Brasil, não faz sentido pagar ainda mais por eles. Analise o histórico de preços dos carros 0km que você pretende comprar e, caso perceba que estão ainda mais inviáveis, analise com atenção a possibilidade de comprar um bom carro usado.

2. Promoções e incentivos para a venda: apesar do item anterior, levando em conta as baixas vendas, as fabricantes e concessionárias têm sido obrigadas a desovar os estoques (principalmente no período anterior a um lançamento). Por isso, realizam todos os tipos de promoções que costumamos observar nas propagandas, incluindo descontos, concessão de itens e brindes, juros subsidiados e formas “criativas” de crédito, entre outras iniciativas.

Dica: não se deixe levar apenas por promoções. Antes de mais nada, só compre se você tiver condições financeiras, mesmo nos casos de financiamentos com prazos alongados e prestações reduzidas temporariamente. Além disso, avalie os fundamentos que justificam as ofertas. Para avaliar se esses incentivos valem a pena, leia este artigo já escrito sobre o tema.

3. Manutenção de preços em novos lançamentos: isso é algo que seria inimaginável há pouco tempo. Por conta da crise e de alguns fatores pontuais (como o aumento da capacidade produtiva de algumas marcas), começam a surgir “novos” modelos com o mesmo preço dos anteriores. Apesar de ser uma mera reestilização, o caso do “Novo Focus” é um exemplo nesse sentido.

Dica: não é porque não aumentou que está barato. Entenda os motivos para a manutenção do preço e avalie com cautela o real custo-benefício, inclusive comparando com a concorrência.

4. Redução de preços: embora pareça algo absolutamente utópico, alguns casos começas a surgir, ainda que timidamente. Considerando o histórico das fabricantes em nível mundial, é bastante provável que essas reduções sejam bem restritas a casos isolados. Por enquanto, elas ocorreram em relação a carros com vendas em baixa ou por conta da intensificação da concorrência no segmento. O Kia Soul e o Renault Duster ilustram esses casos.

Dica: a mesma dica exposta no item acima permanece aplicável. Avalie o custo-benefício de um carro de forma ampla e não apenas o preço de compra. Aliás, este é um dos maiores equívocos que as pessoas cometem e tratei dele no artigo Carros: o maior erro na hora da compra. Evite-o a todo custo!.

5. Cobrança de ágio e filas de espera para alguns casos raros: como sabemos, na mídia em muitas ocasiões as exceções são noticiadas com grande ênfase. Dessa forma, é válido esclarecer que situações como a do Honda HR-V e Jeep Renegade são completamente atípicas.

Numa rápida síntese (até porque essa análise demandaria um artigo específico), o que acontece é que existia uma demanda reprimida por esse tipo de veículo (no caso, “SUVs” compactos). Cada um com suas características, estão atendendo a anseios antigos que não tinham espaço no mercado.

Além disso, muitas pessoas, de modo consciente ou não, estão optando por esses carros em substituição a modelos de outros segmentos que seriam até tecnicamente superiores.

Dica: se você está buscando carros de um segmento superaquecido, avalie se realmente você precisa de um veículo com essas características. Se chegar à conclusão de que esse tipo de carro é o ideal para o seu perfil, procure esperar as ondas de lançamento. Se isso não for possível, evite a todo custo pagar ágio, que é um dinheiro literalmente jogado no lixo.

Conclusão

As tendências expostas, ocorrendo simultaneamente e aplicadas a tantas opções existentes no mercado, acabam criando uma seríssima confusão mental na hora de avaliar o custo-benefício dos carros.

O atual cenário de estagflação compromete demais as análises, que ficam mais difíceis e complexas. Para lidar com tudo isso, o melhor caminho é filtrar todos os ruídos, buscando a realização de um planejamento efetivo em relação aos carros e às finanças.

Aliás, tenho notado que, após os anos de vacas gordas e consumismo desenfreado, as pessoas estão começando a ficar mais criteriosas em relação às compras. Nesse sentido, observo que as vendas do meu livro digital, o  “Como Escolher o seu Carro Ideal” (clique agora para conhecer), cresceram cerca de 80% nos últimos meses.

O livro traz, de forma inovadora, um roteiro completo e com todos os passos extremamente essenciais para uma compra consciente. Afinal, uma aquisição de elevado custo precisa ser realizada com sólidos fundamentos, como forma de atenuar os riscos que são tão acentuados na atual realidade brasileira.

Lembre-se de que o momento requer muita atenção e cuidado para não maltratar o seu dinheiro comprando carros que não valem o que custam.

PS: recentemente, eu e o Conrado Navarro participamos de um hangout (palestra online) promovido pela Rico. Durante cerca de uma hora, conversamos sobre o assunto envolvendo carros e finanças abordando temas que jamais foram analisados de forma tão ampla e transparente. Creio que o vídeo contém uma série de aprendizados valiosos e convido você a reservar um tempo para assistir:

PPS: Para facilitar o controle dos gastos com o seu carro, eu elaborei uma planilha completa e de fácil preenchimento. Ela permitirá cuidar melhor do seu orçamento e você pode baixá-la agora, gratuitamente, no seguinte link: →  http://bit.ly/PlanilhaCarro

Obrigado pela atenção, forte abraço e até a próxima!

Foto “Near the car”, Shutterstock.

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Comentários

  • Reinaldo Santos

    O Dinheirama que deveria ter dicas para poupar e investir nossas finanças, tem tantos artigos sobre carros que parece estimular a troca e a venda de um produto tão caro, poluente e inflacionado em nosso Brasil.

    Sinto falta de artigos com alternativas ao carro como táxi, ônibus, metrô e em especial as bicicletas que ampliaram seu destaque com a inauguração da ciclovia da Avenida Paulista em São Paulo.

    • Leandro Mattera

      Olá, Reinaldo, obrigado por comentar. Todos os artigos que escrevo envolvem a relação carros e finanças, sempre com o foco de trazer “estratégias de defesa” pensando na busca pelo melhor custo-benefício.

      Não há nenhuma intenção de estimular o consumismo. Pelo contrário, uma das minhas teses é de que as pessoas devem ficar com o carro por mais tempo, evitando trocas sucessivas, tal como foi exposto neste artigo: http://dinheirama.com/blog/2014/07/23/carros-precisamos-mesmo-trocar-tanto/

      O carro permanece sendo uma necessidade para a grande parte das pessoas no Brasil, pensado inclusive nas cidades do interior. Como você bem frisou, eles são caríssimos no Brasil e, justamente para lidar com essa situação, é que procuro escrever os artigos orientativos.

      Como sabemos, o sistema público de transporte é precário e sem integração de modais na maioria absoluta das cidades. Numa cidade como São Paulo, a efetividade de ciclovias é algo extremamente distante da realidade, bastando acompanhar o desuso em quase todas as já existentes, que também custaram demais para serem construídas.

      O Dinheirama tem uma variedade enorme de temas relevantes e creio que certamente haverá artigos comparando alternativas no futuro. Obrigado pela sugestão e abraço!

  • Paulo

    Primeiro é preciso parabeniza-lo pelo artigo, muito orientador e esclarecedor. Contudo um questionamento sempre acaba me chamando atenção. Será mesmo que todas essas estratégias são efetivas e aplicáveis? A verdade é que o carro trás consigo um gasto energético de toda forma muito alto. É preciso avaliar tais pontos mas é sábio abstrair-los um pouco para que a compra não torna-se somente uma troca, já o bem ficará conosco um tempo considerável.