Por Dany Rogers e Victor Manuel Barbosa Vicente

Em seu livro de ensaios “Múltipla Escolha”, a escritora Lya Luft enreda sobre diversos temas que molda a nossa existência e, de forma bem compreensível para quaisquer leitor, expõe ideias e reflexões que nos ajudam a entender melhor as nossas vidas.

Entre os temas abordados, recorrentemente fala sobre a velhice e a naturalidade que deveríamos tratar o processo de envelhecimento; mas que não o fazemos.

Em um de seus ensaios ela fala que a velhice “devia ser aguardada e recebida como uma amiga há muito anunciada”.

Porém, infelizmente, a maioria de nós ignora o fato de que seremos velhos, e por causa disso, deixamos de nos programar para quando ela chegar. Temos a tendência de vivermos apenas o presente e deixar o futuro “ao acaso”.

Esse imediatismo e concepção de vida são muito ruins para as suas finanças no longo prazo, e, consequentemente, para quando estiver com a idade mais avançada.

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Pensar em sua aposentadoria hoje é um ato de inteligência

Estudos feitos pelos pesquisadores Harold Elder e Patrícia Rudolph, da Universidade de Alabama, reforçado pelo trabalho “Situação social do idoso no Brasil: uma breve consideração” de Márcia Barbosa Mendes e outros colegas, mostram que pensar hoje em sua velhice e participar de atividades de planejamento financeiro para ela têm um impacto positivo significativo na satisfação com a aposentadoria.

Essa constatação é resultado do diagnóstico destas pesquisas de que enquanto envelhecemos a nossa renda vai diminuindo e que pensar hoje no amanhã tornou-se uma decisão estratégica para uma vida de paz e tranquilidade na velhice.

De acordo com o IBGE, existem hoje aproximadamente 26 milhões de idosos no Brasil, representando em torno de 13% da população.

E dados do Instituto Brasileiro de Economia da FGV e da Fipecafi mostram que nem sempre nessa faixa etária o reajuste acompanha a inflação.

Ou seja, o poder de consumo fica cada vez menor, e o idoso, na maioria das vezes, não tem como trabalhar e nem fazer algum tipo de atividade que aumente a sua renda, ou pelo menos que recomponha o seu poder de compra.

Isso pode tornar essa fase da vida mais triste, dolorosa e angustiante. Além de tornar-se um problema social muito sério uma vez que temos uma grande quantidade de idosos no país.

Para edificar uma vida digna na velhice é importante que desde jovem haja uma preparação para garantir a aposentadoria. E pensar em suas finanças deve fazer parte desta programação.

É fundamental esse planejamento financeiro uma vez que, além de sua renda diminuir, os gastos neste período, como um bom plano de saúde, de alimentação selecionada e com remédios, são muito maiores. E o pior: não podem ser cortados.

Mas infelizmente os dados não são animadores quando falamos em planejamento financeiro para a aposentadoria.

Uma pesquisa do instituto do envelhecimento da Universidade de Oxford mostra que 48% dos brasileiros de classe média entre 40 e 49 anos não estão preocupados em sobreviver financeiramente na aposentadoria.

E eles também acreditam que a sua principal fonte de renda nesta etapa da vida será proveniente do Governo.

Essa dependência governamental é muito grave, não podendo confiar única e exclusivamente no INSS em um país como o nosso.

Diante disso, é importante você iniciar por conta própria o seu planejamento financeiro se realmente quiser uma vida melhor quando for aposentar. Isso é um ato de extrema inteligência.

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A mente como principal aliada de sua aposentadoria

É pouco provável que você consiga ter uma velhice com boa qualidade de vida se não tiver meios financeiros para tal.

Dessa forma, para não ter na velhice uma inimiga é de suma importância que você planeje as suas finanças para essa etapa da vida, fazendo com que ela realmente seja “a melhor idade”.

Antes de mais nada, você deve ter em mente que o futuro próspero e cheio de riquezas que sonha pode não ocorrer.

Evite o otimismo irreal (viés de julgamento que leva você a acreditar que seu futuro será muito melhor e mais brilhante do que de outras pessoas), pois ele pode lhe prejudicar bastante no longo prazo.

Você deve ter consciência que as suas rendas podem não aumentar como planejou e que a sua velhice poderá ser muito ruim se isso realmente ocorrer.

Não estamos aqui para mudar a “rota” do que deve ser feito e também não temos nenhuma pretensão de lhes iludir.

Por isso, enfatizamos que a única maneira de ter uma velhice com maior estabilidade financeira é deixar de consumir hoje e começar a poupar pensado nela.

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Dicas para ajudar a ter uma poupança para a aposentadoria

Porém sabemos que não é tão simples assim deixar de consumir e iniciar uma poupança para a aposentadoria mas tentaremos lhe ajudar com algumas dicas:

  • Evite sair de casa com cartões de crédito pois ele é um grande vilão das compras por impulso. Apenas saia com eles quando já estiver decidido (em casa) sobre a compra e o parcelamento que realizará;
  • Sempre que for realizar alguma compra, elabore uma lista com tudo aquilo que você realmente necessita. A chance de você se dispersar e comprar algo desnecessário é menor;
  • Começar a guardar pouco dinheiro é a melhor forma de iniciar uma poupança porque você não sentirá falta desse valor ao longo do mês. Se você nunca guardou dinheiro, sugerimos que inicie imediatamente uma poupança com 3% de sua renda;
  • Crie o hábito de poupar para a sua aposentadoria e nunca deixe de praticá-lo até que esta ação torne algo automático para você;
  • Deposite em sua poupança logo após receber o seu salário/renda, antes mesmo de pagar qualquer conta. Ao fazer isso você se sentirá bem consigo mesmo tendo a sensação de que está com a vida financeira saudável;
  • Dan Ariely, um dos maiores especialistas do mundo em Psicologia e Economia Comportamental, juntamente com outros pesquisadores do Banco Mundial, encontraram resultados consistentes sobre o aumento da poupança de indivíduos simplesmente pelo fato deles receberem lembretes regulares via SMS (uma no início e outra no final da semana) falando para eles pouparem. Indivíduos que receberam as mensagens pouparam mais de 150%, em média, quando comparados com individuos que não receberam. Por quê, então, você mesmo não programa esse lembrete em seu celular?;
  • Fique atento para não utilizar a poupança como investimento por muito tempo porque ela é importante somente para iniciar a sua jornada no mundo dos investimentos tendo em vista que seus rendimentos são muito baixos;
  • A poupança não é a única opção, e nem a melhor para investimentos de longo prazo tal como a aposentadoria. Procure conhecer um pouco mais sobre investimentos em títulos de renda fixa que é uma excelente alternativa para guardar dinheiro para a sua velhice;
  • Faça um plano de previdência privada, mas tenha total certeza sobre isso antes de fazê-lo. Não faça (e queremos ser mandões aqui mesmo) de forma alguma por impulso e com uma simples conversa com seu gerente de banco. A saída do mesmo antes do seu real objetivo (a aposentadoria) é extremamente cara.

Acreditamos que com essas dicas você poderá ter uma velhice com mais qualidade de vida, dignidade e muito mais divertida.

Conclusão

E que essa realidade dos idosos de hoje sirva de lição para os jovens se prepararem melhor, agora, para o futuro, seja construindo uma poupança, seja realizando outros investimentos para o mesmo fim.

Todos os idosos aposentados ou não, deveriam desfrutar de sua velhice com dignidade. Não deveria ser doloroso ficar velho no Brasil. Abraços.


Dany Rogers é Doutor em Finanças pela EAESP/FGV, professor do curso de Administração da FACIP e coordenador do Núcleo de Educação Financeira (NEF) da Universidade Federal de Uberlândia. Possui diversos artigos em Finanças Comportamentais.

Victor Manuel Barbosa Vicente é Doutor em Administração pela UnB, professor da FACIP e membro do Núcleo de Educação Financeira (NEF) da Universidade Federal de Uberlândia. Entusiasta de estudos que combinam finanças e aspectos socioculturais do indivíduo.

NEF - Núcleo de Educação Financeira
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