Repercutiu bastante nas redes sociais e na imprensa em geral, inclusive internacional, a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal (PF) no fim de março. Diversos mandados de busca e prisão direcionados a executivos e fiscais ligados à indústria alimentícia foram notícia em todo lugar.

O alvo da PF eram frigoríficos e empresas de processamento e comércio de carnes e embutidos que teriam pago propina para que fiscais liberassem produtos com características diferentes das exigidas pela lei (carne vencida, misturas não autorizadas e coisas parecidas).

Os supostos casos de corrupção envolvendo fiscais e frigoríficos mexeram inclusive com a balança comercial, derrubando as exportações de carne e criando uma nova “neura” em diversos países compradores (você deve se lembrar que isso já aconteceu outras vezes, como no caso “vaca louca”).

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Somos todos corruptos? É normal?

Toda a enorme repercussão do caso reacendeu também um importante debate sobre o modo dominante de ser e viver no Brasil: a corrupção. Todo mundo age assim, faz desse jeito, portanto para ser capaz de viver e “se dar bem”, é preciso aprender a “jogar o jogo”. Você concorda com isso?

Para uma análise mais cuidadosa e profunda, o ideal é abstrairmos a situação dos frigoríficos, das empreiteiras e outros casos conhecidos e focarmos na nossa situação particular. Nos nossos parentes, filhos e irmãos. No nosso vizinho.

O cidadão desce do apartamento com seu cachorro e o coloca para defecar no jardim externo do seu próprio condomínio, sem recolher o cocô depois? Já interpelei vários moradores fazendo isso. A explicação padrão: “Os cachorros da rua fazem suas necessidades aqui, o pessoal do prédio faz isso também, virou o banheiro dos cachorros”.

O proprietário da loja aproveita que a cidade não tem o sistema de estacionamento rotativo ainda em operação e vai bem cedo estacionar seu carro em frente à própria loja, deixando-o lá o dia todo.

Muito “esperto”, afinal assim ele termina o dia de trabalho e seu carro está ali, bem perto e prontinho para ele ir embora. Deixar a vaga para um possível cliente? Imagina! A resposta: “Que se dane, afinal algum outro comerciante vai acabar pegando essa vaga mesmo”.

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O resultado é cômico: 7:30 da manhã a rua está lotada de carros, mas o comércio só abre as 9h. Azar. O importante mesmo é diminuir ao máximo o esforço da pessoa física e dane-se a pessoa jurídica. E sua lojinha não prospera, é claro.

O cidadão vê o lugar vazio e ignora a sinalização de estacionamento proibido, afinal de contas serão apenas alguns minutos até ela sair e resolver o que precisa resolver.

“Amigo, você não pode estacionar ai, é faixa amarela e a sinalização com as placas é clara”. A resposta: “Todos os dias muita gente faz isso, a gente vai aqui do lado rapidinho, é sempre coisa simples e vou liberar o lugar em 10 min no máximo. Tranquilo”.

O trânsito está pesado na estrada e, de repente, um congestionamento se forma. A velocidade cai drasticamente e enormes filas tomam a rodovia. Não demora 5 minutos e o acostamento começa a ser frequentado.

Um carro. Dois. Três. Uma fila. Um caminhão. Um ônibus. O fluxo no acostamento se intensifica e a área se transforma no “corredor dos espertos”, com os motoristas de lá lançando aquele olhar maroto de “eu vou chegar na sua frente”, sabe?

Um pouco de carne de cabeça de porco na linguiça? Tem regulamentação para isso, inclusive. Colocar um pouquinho mais do que o permitido? Tranquilo, não vai ser isso que vai matar o consumidor não.

Boi velho, carne ruim, validades manipuladas, embutidos com papelão? Ninguém vai morrer e as adulterações são pequenas, coisa que realmente não prejudica o organismo. “Faz parte, todo mundo faz”, né?

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Conclusão

Nós não percebemos, mas nossos cachorros estão defecando no meio da nossa sala, enquanto nós, cidadãos, fazemos questão de dizer que apenas o cachorro do vizinho é fedido, desordeiro e nojento.

Precisamos admitir que falhamos brutalmente no quesito cidadania e nas coisas mais simples e ridículas do convívio social. Sem isso, nenhuma máscara cairá e o rumo das coisas por aqui seguirá o mesmo de sempre: um lado fingindo que engana e o outro fingindo que acredita.

Quando a hipocrisia se soma à leniência, impunidade e à ausência de atitude e humildade, criamos a sociedade perfeita ideal para quem só sabe defecar fora do lugar – e somos assim administrados há muito tempo.

Infelizmente, eu não faço ideia de como mudar esse quadro, mas acho que o mínimo começa com a mudança de postura no âmbito individual-familiar. Mais humildade, principalmente, para reconhecer a enorme falha de caráter que é transmitida como um estilo de vida.

Não sei se somos todos podres ou se apenas estamos podres. Se somos, então não há muito o que fazer! Se estamos, há esperança para as futuras gerações. Só o tempo dirá. O que você pensa sobre isso tudo? Registre sua opinião no espaço de comentários e até a próxima!

Conrado Navarro
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Comentários

  • Thiago Guedes Pereira

    É impossível dizer que não juntar o coco do cachorro seja igual a vender carne podre. Esta é a logica do débil Leandro Kanalha. Se esta logica encontrasse eco no direito seria muito interessante. O cara matou alguém? prisão perpetua. O cara roubou uma panela de pressão? prisão perpetua. O cara passou pelo sinal vermelho? prisão perpetua. Peidou no elevador? Prisão perpetua. Não, eu não sou corrupto e não me identifico e nem compactuo com corruptos e reso para as pessoas fugirem do senso comum e quando alguém tentar colocar todos na mesma panela alguém levante o dedo e dica “AQUI NÃO”.

    • Oi Thiago, obrigado por comentar. Primeiro: AQUI NÃO! Eu sou um grande defensor de que não exista uma mesma panela para todos e assino embaixo do que escreveu, inclusive acho que temos o mesmo ponto de vista e eu sinto por não ter me expressado tão bem. O que penso é que o bom senso é a chave para tudo e que os pequenos delitos cotidianos tem um potencial enorme de se transformarem em atos toscos e condenáveis se não forem devidamente repreendidos (claro que cada coisa com seu devido peso, sem a loucura do exercício que você propôs no direito). Meu ponto é que muitas vezes nos pegamos criticando atos que são reflexos de uma cidadania não exercida da forma conveniente e nem sempre refletimos sobre nossas responsabilidades neste sentido. Não posso generalizar e peço desculpas por isso, mas o objetivo foi mesmo fazer um texto capaz de convidar mais e mais pessoas para essa discussão. Por isso agradeço muito por sua contribuição. Forte abraço.

  • Christian Hartung

    Quando eu faço = me dar bem, ser esperto.
    Quando os outros fazem = corrupção.

  • Irineu

    Concordo com o que foi escrito mas também existem os tons de cinza…
    Por exemplo, quanto à estacionar em local proibido.
    Eu vou todo domingo visitar meus sogros com minha filhinha pequena para ela ter contato com os avôs. A prefeitura deixou a rua deles proibida estacionar inclusive no domingo quando ali não tem trânsito pelo péssimo planejamento urbano que eles fazem.
    Quando parei na rua do lado, quebraram o vidro do meu carro e levaram meu estepe e tive um prejuízo de mais de 2 mil reais que ninguém me compensou e desvalorização do meu carro.
    Agora tenho que parar no local proibido em frente ao prédio deles, pois de domingo não tem guarda multando ali e o porteiro pelo menos não deixa roubarem os carros…

    É isso ou não visito mais os avôs da minha filha nunca

  • Carlos Ricardo Gomes

    Hipocrisia é a palavra que descreve o assunto e que praticamos cotidianamente:
    – Se falto ao trabalho é descanso merecido. Se o colega falta é vagabundagem;
    – Se furo o sinal é só porque estou atrasado. Se o outro o faz é imprudência;
    – Se eu fraudo a declaração do IR é justo, pois ganho pouco. Se o outro frauda é crime.
    Errar faz parte da nossa essência, mas errar sistematicamente e conscientemente atualmente é normal.
    Afirmou, ainda que em caráter hipotético, que estamos fadados a um futuro pior que o presente, principalmente devido a banalização da educação e ao aumento populacional… mais ignorância em número é grau.

  • Abner Garcia

    Acredito que nossa natureza seja podre sim – e com educação, valores, princípios e práticas diárias para não nos conrropermos – venceremos a nós mesmos. Esse é o detalhe.