Ao longo da última década temos presenciado aqui no Dinheirama histórias incríveis de leitores que começaram a transformar suas vidas através da educação financeira. Em comum, essas pessoas, não tinham (até então) a menor preocupação em desenvolver uma relação sadia com o próprio dinheiro.

Se gastar mais do que ganha e viver endividado parece ser algo comum apenas no Brasil, ao acompanhar essa entrevista com o jornalista Fábio Alves, colunista do Estadão/Broadcast, sua opinião mudará radicalmente.

Fabio morou nos EUA por dez anos e enxerga muitos pontos em comum entre brasileiros e americanos.

Fabio acabou de lançar um livro “Me acorde quando eu estiver rico” pela editora Altabooks, onde em cinco capítulos, são exploradas histórias de pessoas comuns que ficaram milionárias sem protagonizar eventos extraordinários, ou como diz o próprio escritor, “sem ganhar na loteria ou cometer atos ilícitos”. Acompanhe!

O que são dividendos? Como escolher ações que pagam dividendos?

Fábio, o brasileiro não tem culturalmente o hábito de falar em dinheiro. Você teve a experiência de conviver anos em outra cultura. A realidade americana, em termos de planejamento, investimentos e busca pela independência financeira é muito diferente da nossa?

Fábio Alves: Sim e não. Sim, no sentido de que a economia americana tem um histórico de estabilidade não somente em termos de crescimento, como também de regras que ditam o funcionamento da economia e dos mercados financeiros. Isso é importante para que empresas, investidores e consumidores possam se planejar e fazer escolhas de poupança, consumo e investimentos de longo prazo.

No Brasil, as intervenções traumáticas do governo na economia, como o confisco das cadernetas de poupança durante o governo Collor, deixaram o brasileiro inseguro para olhar sua vida financeira com uma perspectiva de longo prazo. Quem se sente seguro no Brasil de deixar seu dinheiro parado numa aplicação com vencimento em 10, 20 ou 30 anos?

No sentido de uma cultura do longo prazo, a realidade americana é muito diferente da brasileira. Por outro lado, somos todos iguais – brasileiros e americanos – no sentido de ter uma relação emocional com o consumo um tanto desequilibrada. Não à toa o nível de endividamento das famílias tanto lá quanto aqui. Nos dois países, há um hábito antigo de antecipar o consumo: em vez de acumular uma poupança para comprar, por exemplo, um carro à vista, o que levaria mais tempo para adquirir o bem, brasileiros e americanos acabam antecipando essa compra, financiamento boa parte do valor necessário, mas pagando juros elevados.

Muito da literatura brasileira de finanças foi desenvolvida em experiências americanas. Por exemplo, a questão de imóveis. O que podemos falar sobre esse sonho do brasileiro que para muitos que financiam se tornam um verdadeiro pesadelo?

F.A.: No meu livro, eu falo que a compra da casa própria é um dos mitos financeiros do brasileiro. É uma questão cultural muito forte e que nem sempre significa a melhor decisão financeira. Isso é reforçado pelo ditado aqui de que “alugar um imóvel é jogar dinheiro no lixo”, mas quantas pessoas conseguem comprar a casa própria à vista?

A maioria das pessoas entra num financiamento imobiliário por 20, 30 anos, pagando juros elevados. E juros pagos aos bancos é também dinheiro jogado fora. Obviamente que a compra da casa própria envolve outros fatores que apenas a questão financeira. Se você se apaixonou perdidamente por uma casa ou um apartamento, então não tem muito que discutir.

Mas do ponto de vista unicamente financeiro, a compra da casa própria pode não ser a melhor opção. É preciso fazer as contas de forma racional. Muitas vezes, alugar é mais vantajoso, pois pegar o dinheiro que você daria de entrada num financiamento imobiliário e aplicar no mercado financeiro pode resultar numa rentabilidade maior do que o aluguel em relação ao valor total do imóvel ou da prestação do empréstimo imobiliário.

Sem falar no exemplo de casais recém-casados que se precipitam em comprar a casa própria sem saber se o imóvel adquirido vai ser adequado para o tamanho da família, se esse casal tiver filho ou filhos, ou até se uma guinada na vida profissional de um dos cônjuges levará a uma mudança de cidade ou país. Nesses casos, o casal terá que vender o imóvel, o que pode ocorrer num momento de baixa do mercado, além de pagar taxas e impostos. Ao analisar a questão da casa própria, eu recomendo deixar a pressão social de lado e fazer uma análise financeira apenas, a não ser que a pessoa se apaixonou pelo imóvel, daí há um elemento irracional.

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Como você enxerga a relação do brasileiro com o crédito? O discurso de que os juros estão caindo pode levar as pessoas a consumirem e se endividarem mais ainda?

F.A.: O brasileiro não tem uma relação saudável com o crédito. Eles contratam empréstimos sem planejar, sem avaliar se todas as prestações vão caber no bolso, aliás, se todas as prestações vão estar limitadas a uma parcela da renda que não coloque a pessoa numa situação difícil caso uma emergência financeira aconteça, como uma doença ou o desemprego.

Quantas pessoas se colocam esse limite? Quantas pessoas dizem: não posso fazer mais uma prestação porque as minhas dívidas já ultrapassam 20% da minha renda mensal líquida? Quantas pessoas buscam uma ajuda para entender o quanto de juros vão pagar antes de contratarem um empréstimo, antes de fazerem uma dívida?

As pessoas compram por impulso, endividando-se muitas vezes de forma impensada. A queda dos juros, de fato, abre espaço para as pessoas fazerem mais dívidas, pois as prestações começam a caber no bolso. Todavia, a recessão mais aguda da história econômica recente do Brasil, em 2015 e 2016, ensinou muita gente a ter uma relação melhor com o crédito, mesmo que a lição tenha sido amarga.

Dá para ver isso nos dados macroeconômicos, pois o consumo nos últimos anos caiu mais do que a renda. Isso mostra que o brasileiro se preocupou em pagar as contas, diminuir o endividamento e montar um fundo financeiro de emergência. A pergunta é: na hora que a economia se recuperar, o emprego aumentar e os juros caírem mais, as pessoas vão seguir se comportando de maneira mais responsável como aconteceu durante a recessão? Difícil saber.

Em uma recente entrevista para o Estadão, você comentou que não enxerga um desenvolvimento (ao menos no curto prazo) do mercado de ações no Brasil. Você acredita que a queda dos juros seja mais uma vez pontual?

F.A.: A queda dos juros vai ajudar a alimentar uma demanda por ações negociadas na Bolsa de Valores. Até porque, com a rentabilidade reduzida nos fundos de investimentos e na caderneta de poupança, as pessoas vão procurar opções para fazer o dinheiro render mais.

O meu argumento é que esses impulsos na bolsa acabam não sendo permanentes porque as regras de governança corporativa ainda são frágeis em proteger os acionistas minoritários quando acontecem eventos que mudam o controle acionário das empresas, afetando, por tabela, o preço das ações.

Não são raros os exemplos de aquisição do controle acionário de uma empresa por outra em que o valor da transação acaba beneficiando os acionistas majoritários em detrimento dos minoritários. O que dizer então dos minoritários de ações de empresas do setor elétrico quando o governo da ex-presidente Dilma Rousseff interveio nas regras do setor, prejudicando as empresas?

O governo, que era o controlador das grandes empresas do setor, não se importou com os minoritários. Por essas e outras é que a bolsa brasileira tem uma volatilidade muito maior do que as americanas, por exemplo. Isso significa que é muito maior a probabilidade de um acionista minoritário precisar sacar seu dinheiro da bolsa durante um período de correção dos preços e acabar amargando um prejuízo.

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Outra questão interessante é que muita gente no Brasil associa que riqueza não é algo positivo. Olham com desconfiança e acreditam que os bem sucedidos alcançaram o sucesso cometendo alguns desvios de conduta. Como mudar essa cultura?

F.A.: Difícil, né? Até porque há uma desconfiança no Brasil de que os que ficaram milionários são aqueles que cometeram algum ilícito, como os políticos acusados de receber propinas. Não que corrupção seja um problema único do Brasil. Mas há nos Estados Unidos, na Europa e no Japão exemplos mais numerosos de pessoas comuns que enriqueceram apenas com o fruto de seu trabalho, sem mesmo ter que jogar na loteria.

No meu livro, eu conto como um senhor de 92 anos, que trabalhou como frentista de um posto de gasolina e de zelador numa loja de departamentos, que ao morrer deixou uma fortuna de US$ 8 milhões. O segredo dele foi um só: trabalhar, poupar, consumir de forma racional e ter paciência para acumular seu patrimônio. Paciência é o segredo. É olhar para a vida financeira no longo prazo, ou seja, pensar que acumular um patrimônio é uma maratona e não uma corrida de 100 metros.

Você acaba de lançar o livro “Me acorde quando eu estiver rico!” o que pode contar sobre o livro?

F.A.: O meu livro quer fazer as pessoas racionarem e traçarem estratégias para acumular um patrimônio, pensando no dia que elas deixarem o mercado de trabalho. Não é um guia de finanças pessoais tradicional. O livro conta a minha história, que voltei para o Brasil muito endividado aos 42 anos após morar 10 anos em Nova York, e de outras pessoas que enriqueceram ou que acumularam um patrimônio para viver confortavelmente na aposentadoria.

Falo de tudo isso com uma linguagem divertida, mas com muitos dados e pesquisas que vão fazer as pessoas se surpreenderem com os mitos financeiros que, muitas vezes, acabam levando as pessoas a tomarem as decisões menos vantajosas. Ao acabar os cinco capítulos do livro, garanto que o leitor vai passar a olhar diferentemente para as suas decisões financeiras, de poupança e de consumo.

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Fábio, obrigado pela entrevista. Peço por favor que deixe uma mensagem final para os leitores do Dinheirama que acompanham o seu trabalho.

F.A.: O que mais me motivou a escrever o livro foi a percepção, após ter pesquisado as histórias bem-sucedidas, de que “ficar rico” ou acumular um patrimônio razoável para se aposentar é perfeitamente possível. Sim, é possível, mesmo com o salário que a pessoa recebe no fim do mês. E que é muito mais simples do que se possa imaginar. Mas, na maioria das vezes, fazer o simples é mais difícil.

Acontece que as pessoas se perdem no meio do caminho, quer seja pela ansiedade (focando apenas no curtíssimo prazo), quer seja pela ambição (tentando ficar rico numa única tacada). O livro procura fazer as pessoas deixarem de ser guiadas apenas pelos mitos financeiros, como a cultura da casa própria a qualquer custo. Desde que eu comecei a pensar sobre qual o tipo de vida que eu quero quando eu me aposentar, a minha vida financeira deu uma guinada.

Não que eu esteja rico. Muito pelo contrário. Mas já não estou mais endividado e me encontro numa trilha rápida para equacionar como vou viver na velhice sem depender da aposentadoria paga pelo governo. Isso exigiu não somente uma mudança de escolhas financeiras, mas até mesmo de uma postura emocional ao lidar com o consumo e com o investimento.

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