Home Economia e Política 10 Mentiras sobre nossa Economia defendidas pelo Governo Dilma

10 Mentiras sobre nossa Economia defendidas pelo Governo Dilma

por Felipe Miranda
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Numa √©poca de mentiras universais, dizer a verdade √© um ato revolucion√°rio. Se George Orwell estivesse por ai, seria prontamente acusado de terrorismo eleitoral. Enquanto insistirem em falar mentiras sobre os ‚Äúneoliberais‚ÄĚ, cumprirei o compromisso de falar verdades sobre o governo.

H√° dois elementos constrangedores envolvendo o governo Dilma: a incompet√™ncia e a desonestidade intelectual – essa √ļltima conhecida popularmente como h√°bito da mentira.

Inventam o que querem para evitarem a mudan√ßa de endere√ßo. Abaixo listo as dez mentiras que mais me incomodam, cujas implica√ß√Ķes ao seu patrim√īnio podem ser substanciais. Restrinjo-me a quest√Ķes de economia e finan√ßas. N√£o imagino que a mitomania limite-se a essa √°rea, mas prefiro manter-me no escopo, por uma quest√£o de pertin√™ncia deste espa√ßo.

Ao n√£o reconhecer os erros, mant√©m-se a rota errada da pol√≠tica econ√īmica. Bateremos de frente com uma crise financeira em 2015.

1. ‚ÄúA crise vem de fora‚ÄĚ

Esse √© o discurso oficial para justificar a recess√£o t√©cnica em curso no Brasil. O que os dados podem nos dizer sobre isso? Comecemos do mais simples: o crescimento econ√īmico do Governo Dilma ser√°, na m√©dia, dois pontos percentuais menor √†quele apresentado pela Am√©rica Latina. Nos governos Lula e FHC, avan√ßamos na mesma velocidade dos vizinhos.

Indo além, há de se lembrar que a economia mundial cresceu 3,9% em 2011, 3% ao ano entre 2012 e 2013, e deve emplacar mais 3,6% em 2014. Nada mal.

Comparando com o pessoal mais aqui ao lado, especificamente Chile, Col√īmbia e Peru, exatamente aqueles que adotaram pol√≠ticas econ√īmicas ortodoxas e perseguiram uma agenda de reformas na Am√©rica Latina, cresceram 4,1%, 4,0% e 5,6% ao ano, entre 2008 e 2013.

Enquanto isso, a evolução média do PIB brasileiro na administração Dilma deve ser de 1,7% ao ano.

A retórica oficial, desprovida de qualquer embasamento empírico, continua ser de que a crise vem de fora. Aquela marolinha identificada pelo presidente Lula, lá em 2008, seis anos atrás, ainda deixando suas mazelas.

2. ‚ÄúA pol√≠tica neoliberal vai aumentar o desemprego‚ÄĚ

N√£o h√° como desafiar o √≥bvio de que o produto agregado (PIB) depende dos fatores de produ√ß√£o, capital e trabalho. Ora, com o PIB desabando por conta da pol√≠tica econ√īmica heterodoxa, cedo ou tarde bateremos no emprego.

Podemos não conseguir precisar qual a exata função de produção, ou seja, de como o PIB se relaciona com o nível de emprego, mas não há como contestar a existência de relação entre as variáveis.

O crescimento econ√īmico da era Dilma √© o menor desde Floriano Peixoto, governo terminado em 1894, subsequente √† crise do encilhamento. H√° uma transmiss√£o √≥bvia desse comportamento para o emprego.

Os dados do Caged de maio apontaram a menor geração de postos de trabalho desde 1992. Em sequência, junho foi o pior desde 1998. E julho, o pior desde 1999. O dado de setembro, recém divulgado, foi o pior desde 2001.

Quem vai gerar desemprego √© a nova matriz econ√īmica – n√£o o fez ainda simplesmente porque essa √© a √ļltima vari√°vel a reagir (e a √ļnica que ainda n√£o foi destru√≠da).

3. ‚ÄúA oposi√ß√£o quer acabar com o reajuste do sal√°rio m√≠nimo‚ÄĚ

Essa é uma mentira escabrosa, por vários motivos. O primeiro é trivial: o candidato da oposição (embora pareça haver dois, há apenas um) já se comprometeu, em dezenas de oportunidades, em manter a política de reajuste de salário mínimo.

Ademais, quando Dilma se coloca como a protetora do salário mínimo, está simplesmente contrariando as estatísticas. O aumento real do salário mínimo foi de 4,7% ao ano entre 1994 e 2002, de 5,5% ao ano entre 2003 e 2010, e de 3,5% ao ano entre 2011 e 2013.

Ou seja, o reajuste do mínimo na era Dilma é inferior àquele implementado por Lula e também ao observado no período FHC. Ainda assim, Dilma se coloca como o bastião em favor do salário mínimo.

4. ‚ÄúA pol√≠tica neoliberal proposta pela oposi√ß√£o vai promover arrocho salarial‚ÄĚ

Esse ponto, obviamente, guarda relação com o anterior. Destaquei-o mesmo assim porque denota a doença de ilusão monetária ou uma tentativa descarada de enganar a população.

Arrocho salarial j√° vem sendo promovido pela atual pol√≠tica econ√īmica, por meio da disparada da infla√ß√£o. O sal√°rio nominal, o quanto o sujeito recebe em reais no final do m√™s, n√£o interessa per se. O relevante √© como e quanto esse numer√°rio pode ser transformado em poder de compra – isso, evidentemente, tem sido maltratado pela leni√™ncia no combate √† infla√ß√£o.

Precisamos dar profundidade mínima ao debate. Se você consegue aumentos sistemáticos de salário acima da produtividade do trabalhador, a contrapartida óbvia no longo prazo é a inflação, que acaba reduzindo o próprio salário real.

O que os ‚Äúneoliberais‚ÄĚ querem √© perseguir aumentos de produtividade maiores e duradouros. Isso permitiria dar incrementos de sal√°rio substanciais, sem impactar a infla√ß√£o. Caso contr√°rio, aumentos do sal√°rio nominal ser√£o corro√≠dos pela infla√ß√£o.

5. ‚ÄúO Brasil quebrou tr√™s vezes‚ÄĚ

O Brasil quebrou uma √ļnica vez, em fevereiro de 1987, no governo Sarney, quando foi decretada a suspens√£o do pagamento dos juros da d√≠vida externa. Quebrar √© uma defini√ß√£o expl√≠cita e at√© mesmo t√©cnica, ligada √† morat√≥ria, o que √© bem diferente de recorrer ao FMI, grosso modo um acesso a um dinheiro barato, sem mito ou f√°bula.

Durante o governo FHC, houve tr√™s empr√©stimos do FMI: i) durante a transi√ß√£o do c√Ęmbio fixo para flutuante entre 1998 e 1999; ii) durante a crise de 2001, ano especialmente dif√≠cil por conta da quebra (verdadeira) da Argentina; e iii) em 2002, por conta da chegada ao poder de Lula, que impusera aos mercados grande incerteza e, por conseguinte, enorme fuga de capitais.

Bom, mas como verdades não são o forte da campanha, logo ouviremos de novo sobre as três vezes que o Brasil (não) quebrou.

6. ‚ÄúA pol√≠tica monet√°ria foi exitosa‚ÄĚ

A frase foi proferida por Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, em semin√°rio nos EUA sobre pol√≠tica monet√°ria. A infla√ß√£o brasileira j√° estourou o teto da meta, de 6,50% em 12 meses, ignorando o princ√≠pio b√°sico de um sistema de metas, em que o centro do intervalo deve ser perseguido. A banda de toler√Ęncia de dois pontos existe apenas para abarcar choques ex√≥genos.

O IPCA de setembro aponta varia√ß√£o de 6,75% em 12 meses, estourando o limite superior do intervalo. Transformamos o teto no nosso objetivo e represamos cerca de dois pontos de infla√ß√£o atrav√©s do controle de pre√ßos de combust√≠veis, energia e c√Ęmbio. Esse √© o tipo de √™xito que esperamos da pol√≠tica econ√īmica?

7. ‚ÄúPrecisamos de um pouco mais de infla√ß√£o para n√£o perder empregos‚ÄĚ

Para ser justo, a frase, ao menos que seja de meu conhecimento, n√£o foi dita ipsis verbis por nenhum membro do governo. Entretanto, a julgar pelas decis√Ķes e diretrizes de pol√≠tica monet√°ria, parece permanecer o racional da administra√ß√£o petista.

O velho trade-off entre inflação e crescimento, em pleno século XXI? Bom, antes de entrar no debate acadêmico, pondero que poderia até ser verdade se houvesse, de fato, crescimento. Conforme supracitado, não é o caso.

Ignorando esse fato e fingindo que vivemos crescimento econ√īmico pujante, a quest√£o sobre o trade-off entre infla√ß√£o e crescimento parece apoiar-se numa discuss√£o tacanha sobre a Curva de Phillips. O debate at√© faria sentido se estiv√©ssemos nos idos de 1970. Dai em diante, Friedman, Phelps e outros destru√≠ram o argumento de mais infla√ß√£o, mais emprego.

A partir da síntese de 1976, naquilo que ficou batizado de crítica de Lucas, com trabalhos posteriores sobretudo de Kydland e Prescott, a fronteira do conhecimento passou a incorporar a ideia de que o trade-off entre inflação e desemprego existe apenas a curtíssimo prazo.

Ao trabalhar com uma inflação sistematicamente mais alta, rapidamente voltamos a um novo equilíbrio, com nível de preços maior e o mesmo nível de emprego original. E, sim, o espaço aqui está aberto para o pessoal da Unicamp rebater o argumento de Lucas (professor Belluzzo incluindo, sem nenhum tipo de enfrentamento aqui; convite educada e genuinamente a um derbi das ideias).

Criticam-nos por ouvir apenas a oposição e ignoram que eles declinam nosso convites Рsó pode haver vozes governistas e/ou heterodoxas em nossos eventos se elas aceitarem participar, certo? Lembre-se: fizemos o convite ao competente Nelson Barbosa, que, infelizmente, não pode comparecer por incompatibilidade de agenda.

8. ‚ÄúAs contas p√ļblicas est√£o absolutamente organizadas. O super√°vit prim√°rio, embora menor do que em 2008, √© um dos maiores do mundo. Dizer que h√° uma desorganiza√ß√£o fiscal √© um absurdo‚ÄĚ

A preciosidade foi dita pelo ministro Guido Mantega em entrevista ao jornal Valor. O super√°vit prim√°rio do setor p√ļblico n√£o √© somente menor √†quele de 2008. No primeiro semestre, foi o menor da hist√≥ria, em R$ 29,4 bilh√Ķes. Agosto marcou o quarto m√™s consecutivo de d√©ficit prim√°rio, de modo que o acumulado est√° em R$ 10,2 bilh√Ķes.

O super√°vit acumulado no ano at√© agosto √© de 0,3% do PIB, enquanto a promessa do governo (para segurar o rating) √© entregar 1,9% do PIB. Essa √© a heran√ßa que a ‚Äúabsoluta organiza√ß√£o das contas p√ļblicas est√° nos deixando‚ÄĚ.

9. ‚ÄúNunca foi feito tanto pelo pobre neste pa√≠s‚ÄĚ

Intuitivamente, voc√™ j√° poderia desconfiar da afirma√ß√£o quando pensa na infla√ß√£o, que √© um fen√īmeno essencialmente ruim para as classes mais baixas. Os abastados t√™m um estoque de riqueza aplicada em ativos que remuneram acima da infla√ß√£o. Logo, est√£o em grande parte protegidos. A infla√ß√£o √© um instrumento cl√°ssico de concentra√ß√£o de riqueza.

Mas h√° de ser al√©m da simples intui√ß√£o, evidentemente. Estudos mais recentes indicam que, depois de 10 anos consecutivos em queda, a desigualdade de renda no Brasil parou de cair de forma estatisticamente significativa em 2012. Documento IPEA n√ļmero 159 √© categ√≥rico em dizer que a concentra√ß√£o de renda no Brasil cai sistematicamente at√© 2012; a partir da√≠, h√° d√ļvidas.

O índice de Gini apresenta queda marginal entre 2011 e 2012, enquanto as curvas de Lorenz dos dois anos estão sobrepostas, indicando, grosso modo, estagnação na melhora.

Ainda mais problemático, estudo encomendado pelo IPEA a partir de dados do Imposto de Renda mostra concentração de renda entre 2006 e 2012 Рem 2012, os 5% mais ricos do País detinham 44% da renda; em 2006, o percentual era de 40%.

A pol√≠tica econ√īmica heterodoxa n√£o cresce o bolo e tamb√©m n√£o o distribui de forma mais equitativa.

10. ‚ÄúA oposi√ß√£o faz terrorismo eleitoral‚ÄĚ

Se voc√™ compactua com um dos nove pontos anteriores, voc√™ √© um terrorista eleitoral, ego√≠sta e interessado apenas em si mesmo. Provavelmente, √© financiado por um dos candidatos de oposi√ß√£o. Enquanto isso, a situa√ß√£o acusa o candidato oposicionista de homof√≥bico e de semelhan√ßas com Fernando Collor. Sim, ele mesmo, parte da base de apoio da… Situa√ß√£o.

Ser√≠amos n√≥s, analistas e economistas, os terroristas? Essa √© a heran√ßa que fica para 2015. Voc√™ tem dois caminhos a adotar: o primeiro √© esperar as consequ√™ncias materiais dessa gest√£o desastrosa sobre seu patrim√īnio, e o segundo √© come√ßar a se mexer, de modo a proteger ou at√© mesmo aumentar suas economias.

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