A Bolsa, os fundamentos econômicos e a criseTodos estão muito apreensivos por conta da forte queda ocorrida na Bovespa[bb] durante os últimos 12 meses. Quem apresentar uma única verdade para o atual cenário, errará. E feio. O Brasil resiste? O que acontece com o investidor? Enfim, o mercado está passando por um momento de ajuste, mas, mesmo sem saber ao certo quando passará a tempestade, já é possível tirar algumas boas lições dessa fase.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi o menosprezo à crise do subprime, ou do crédito imobiliário que se iniciou nos Estados Unidos. Podemos afirmar que essa foi a primeira grande crise com conseqüências mundiais advinda do, agora de fato, mundo globalizado.

Se está ruim lá, que garantia temos aqui?
Tudo começou com o dólar lá embaixo, bem lá embaixo. O fenômeno que começou a tomar força e a chamar a atenção mexeu com o ânimo das empresas exportadoras, que perderam competitividade e interesse em exportar, reduzindo em muito o potencial do Brasil como mercado em franco desenvolvimento.

As hipotecas podres levaram conglomerados gigantes especializados em atividades financeiras a vivenciarem tombos incríveis nos EUA e no mundo. No Japão, por exemplo, os números negativos e as perdas chegam à casa de US$ 9,1 bilhões.

Isso nos leva a uma conclusão importante: hoje, mais do que nunca, crises deste tipo são mesmo mundiais. Por mais que tentemos separar os países e seus fundamentos, a verdade é que o mercado é incrivelmente global. Fronteiras só existem no papel, já que hoje tudo é resolvido online, através de uma tecla.

Mas o Brasil não está melhor do que nunca?
Ah, sim, sempre concordamos que o Brasil está mais resiliente, que nossos fundamentos estão mais interessantes e que a chegada do investment grade significava algo positivo, mas também deixamos claro que os reflexos da crise chegariam, mesmo sem saber com que intensidade e de que forma.

Todos esses itens são resultados de ações do governo que guiam a economia. Entretanto, o mercado[bb] real, aquele que representa as decisões cotidianas e as bases financeiras de instituições e da demanda tem vontades e desejos próprios, que, às vezes, até se contradizem.

A saída dos gringos
Esse mesmo mercado, que transformara a Bovespa nos últimos anos em um verdadeiro berçário de novos milionários, agora parece seguir na contramão do lógico. Assim, o investidor[bb] internacional, acuado também pelas perdas em seus países, toma dois caminhos:

  1. Realiza os lucros e envia os ganhos daqui para cobrir rombos em seus países de origem. É o chamado flight to quality;
  2. Compra dólares como estratégia de hedge, buscando proteção na moeda em caso de agravamento da crise.

Os efeitos colaterais destas atitudes são claros: bolsa em baixa e dólar em alta. Histeria à parte, e por mais insano que possa parecer, o Brasil atravessa a crise com boas possibilidades de sair mais forte do que entrou.

Como ficam os cenários global e local?
Acredito que a demanda mundial por alimentos e commodities continua e continuará alta, algo que parece irreversível. O país continuará crescendo e o mercado interno seguirá aquecido. A inflação do começo do ano começa a perder força e talvez a seqüência de alta nos juros básicos possa acabar.

Empresas como Petrobras e Vale, nossas principais blue chips, tendem a se valorizar bastante. Seus preços atuais são mais reação do que análise de múltiplos e potencial. O petróleo em queda afeta a Petrobras, mas as descobertas de mais campos podem mudar tudo. Há também um possível aumento de 86% no preço do ferro que a Vale pode levar ao mercado chinês, como relata reportagem do jornal chinês Shanghai Daily de hoje.

O que importa é que, mesmo com a crise, as pessoas têm argumentos para continuar acreditando no país e nas suas principais empresas. Claro, temos que manter os pés no chão, mas não podemos deixar o pessimismo externo contaminar nossas reais chances de crescimento financeiro[bb].

As possibilidades ainda existem…
Acredite, temos ótimas empresas e estamos diante de algumas boas oportunidades de investimento para o longo prazo. Pois é, ao contrário do que muitos podem imaginar, mesmo com as coisas do jeito que estão é interessante pensar em investir e planejar o futuro.

Lembre-se que existem vários tipos de investimento e diversas oportunidades para manter-se longe de riscos. Leve em consideração o seu perfil e comece a buscar aqueles produtos e alternativas que façam companhia aos seus objetivos.

Quer alguns exemplos? Destinar parte de seu potencial de investimento para a renda fixa, principalmente quando os juros estão em alta como agora, pode ser uma boa. Investir em ações[bb] de empresas sólidas, como Petrobras e Vale, pensando no longo prazo (10 anos), também pode ser interessante.

Enfim, crises sempre trazem boas lições. Mesmo aquele investidor que trabalha no longo prazo não deve desprezar a diversificação dos investimentos. Momentos como os de hoje são importantes para uma reavaliação da estratégia, o que garantirá sempre tranqüilidade. Bom final de semana.

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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Ricardo Pereira
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