A caderneta de poupança atraente demaisAna comenta: “Navarro, em um artigo recente sobre a caderneta de poupança você ressaltou sua rentabilidade frente a inúmeros produtos de renda fixa, fundos de investimento e afins. Pela data do artigo vi que as dicas foram publicadas antes das declarações do governo de que a rentabilidade da caderneta de poupança terá que ser revista e sua atratividade diminuída. Como pequena investidora, uso muito a poupança – e sei que milhares de brasileiros também o fazem. Qual a mensagem nas entrelinhas destes acontecimentos? Obrigada”.

A notícia era mesmo interessante e elogiei a poupança no artigo “O novo embate entre a poupança e os fundos de renda fixa”. A euforia durou pouco. A equipe econômica do governo sinalizou que a caderneta de poupança apresenta rentabilidade elevada diante das alternativas de títulos públicos/privados, balizados pela Taxa Selic – que, diante da situação recessiva da economia, deve seguir sua tendência de baixa. Parece que a poupança vai mesmo mudar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva completou a informação, dando opinião enquanto governo usando seu já habitual sarcasmo nas declarações:

“Daqui a pouco as grandes multinacionais vão querer colocar o dinheiro na poupança. Vamos discutir tudo com muita cautela. Primeiro, precisamos proteger o pequeno poupador. Segundo, nós não podemos permitir que pessoas que têm muito dinheiro utilizem o dinheiro para aplicar na poupança”

Independente das mudanças propostas – e trataremos delas ainda neste artigo -, a mensagem é clara: a caderneta de poupança terá seu atual patamar de retorno de 6,5% ao ano reduzido caso a taxa básica de juros (Selic) continue caindo – o que deve ocorrer. Outras alternativas de investimento[bb] deverão fazer parte do cotidiano do “pequeno poupador”, que logo trata de alimentar duas questões simples: 1) Que influencia tem a Taxa Selic na rentabilidade da poupança? e 2) Com as mudanças, minhas decisões cotidianas, alimentadas pela facilidade de uso da caderneta de poupança, terão de mudar? Vejamos se consigo ajudar.

1) Que influencia tem a Taxa Selic na rentabilidade da poupança?
A resposta técnica e completa para esta dúvida não é trivial, mas seu entendimento é bastante direto. Você deve se lembrar dos artigos iniciais que já publicamos sobre os fundos de renda fixa. Pois é, produtos deste tipo basicamente representam o investimento em títulos públicos (Tesouro Direto) e privados (CDB), pré ou pós-fixados. Resulta que tais produtos têm sua rentabilidade diretamente relacionada com a Taxa Selic.

Em suma, pense que ao comprar um título público (LTN, por exemplo), você está “emprestando dinheiro” ao governo, que lhe devolverá a soma corrigida por um percentual de juros. O cálculo deste percentual usa a Taxa Selic. Se você investe em um fundo de investimento de renda fixa, é o banco que compra estes e outros títulos e os inclui na carteira do produto cujas cotas você possui – e você paga aos gestores um percentual adicional na forma de taxa de administração. E ainda há o Imposto de Renda.

Enfim, na prática isso significa que se a Taxa Selic, hoje em 11,25%, cair para um valor próximo de 9%, serão muitos os produtos de renda fixa que renderão, em termos líquidos, menos que a caderneta de poupança – que tem rendimento de 6% garantido por lei mais TR (Taxa Referencial). Rendimento líquido que significa descontar taxa de administração, Imposto de Renda e outros encargos que não estão presentes na caderneta de poupança. Em suma, o retorno real de alguns produtos seria (já é) menor que o proporcionado pela poupança.

O que interessa a mudança do dinheiro do fundo X para a poupança?
Agora que você compreendeu parte do problema, que tal falarmos do dinheiro[bb] aplicado na poupança, sua finalidade e também listarmos as possíveis mudanças para o quadro? Só a partir de alguns entendimentos sobre o mérito da questão é que a segunda pergunta fará algum sentido. Diferente do que você deve estar pensando, não se pode permitir que o dinheiro simplesmente migre dos títulos e da renda fixa para a caderneta de poupança.

Isso causaria uma dificuldade de refinanciamento a dívida do governo, representada justamente pela tomada de dinheiro através da venda de títulos. No caso dos bancos, representados na renda fixa pelo CDB (título privado), haveria menos capital disponível para empréstimos – o que desestimularia o consumo e atrapalharia o momento de necessária recuperação da economia. A equação não é simples, mas fica claro que o desequilíbrio afetaria a economia nacional.

Na outra ponta está a caderneta de poupança. Os bancos precisam destinar a maior parte dos depósitos (65%) em poupança para o financiamento imobiliário – valores que compõem o Sistema Financeiro da Habitação (SFH). Tenho que admitir que não sei bem quais seriam os efeitos de um súbito e forte aumento de capital na poupança, especialmente vindo de produtos de renda fixa. Infelizmente não encontrei nenhuma opinião neste sentido.

Dentre as formas mais comentadas para mudar o cenário, estão:

  • Alterar a forma atual de cálculo do retorno da poupança. A opção de mexer no cálculo da TR não parece ser a mais interessante, pois a mudança logo teria que ser revista;
  • Taxar aplicações de maior porte com imposto de renda. A idéia seria manter os pequenos poupadores isentos e dentro do atual rendimento oferecido de 6% + TR e taxar aqueles que tiverem, em poupança, valor maior que um teto a ser estabelecido (falou-se de R$ 100 mil).

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que os “pequenos poupadores” não serão afetados:

“O governo vai continuar garantindo poupança como bom investimento, totalmente seguro, garantido. O pequeno investidor não vai ter prejuízo com isso. Pode ter migração de grandes investidores para a poupança. Mas o presidente Lula determinou que os pequenos investidores, que correspondem a 95% das cadernetas, sejam preservados”

2) Minhas decisões cotidianas, alimentadas pela facilidade de uso da caderneta de poupança, terão de mudar?
Depende. O principal aqui é levar em consideração seu objetivo para o dinheiro aplicado, o horizonte de investimentos e um pouco de matemática financeira. Uma simulação feita pelo economista José Dutra Vieira Sobrinho, a pedido do jornal Folha de S. Paulo, mostrou que, com a taxa Selic a 10,25%, somente as apliações que cobrem uma taxa de administração de 1% serão mais atraentes que a poupança.

E, vale lembrar, esta semana o Copom (Comitê de Política Monetária) fará nova reunião para anunciar o novo patamar da Selic – há expectativa de que ele seja cortado em até um ponto percentual, caindo para os 10,25% citados no parágrafo anterior. A reunião acontece nos dias 28 e 29. Logo, se você é um “pequeno poupador”, parece que as coisas não vão mudar. Parece. No entanto, se uma mudança pegá-lo de surpresa, lembre-se: a rentabilidade líquida, liquidez e o risco devem ser os fatores analisados na hora de se decidir. O melhor investimento[bb] é algo muito pessoal.

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Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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