A crise boi de piranha e o noticiário corporativoLidar diariamente com o noticiário econômico e com dúvidas e opiniões de clientes, amigos e leitores tem lá seu lado sombrio. Agora, por exemplo, só se fala da crise. “A crise derrubou o crédito e a venda de carros despencou” é a frase do momento, já que semana passada foram anunciadas estatísticas desanimadoras do setor. A sentença “Alguns comerciantes disseram que a crise já está afetando seus negócios e que estão perdendo clientes” sintetiza o sentimento das ruas, de quem vive do consumo e do interesse em consumir. Crise, crise e mais crise.

Contaminar-se com o pessimismo típico destes ciclos é a coisa mais fácil do mundo. Aliás, ver-se pessimista e ainda transformar-se em profeta do apocalipse parece ser a atividade de muita gente, inclusive de grandes (e inteligentes) amigos. Alguns, no entanto, relutam. Num bate-papo de final de semana, ouvi, de um grande investidor[bb], o comentário que originou este artigo: “A coisa está tão feia assim? Sinceramente, acho que muitos estão usando a crise como desculpa para justificar mudanças e decisões delicadas. Não parece justo”.

Balancei. Inúmeras reportagens, matérias técnicas e observações de empresários e executivos popularam minha cabeça enquanto o nobre colega desferia sua crítica aos “aproveitadores” – denominação que ele tratou logo de usar. Férias coletivas? É a crise. Corte de custos? Culpa da crise. Demissões? Crise, de novo. Troca de diretores? Exigência da crise. Vendas congeladas? Efeito colateral da crise. Então é assim?

Choveu demais? Alagou? É a crise!
O raciocínio por trás da interpretação desses acontecimentos não pode ser tão simplista. É fato que inúmeros desdobramentos e efeitos negativos, oriundos da grande crise financeira mundial, têm aparecido também no Brasil. Mas quanto das mudanças é possível atribuir aos reais eventos originados pela crise? Quanto é possível atribuir aos modelos operacionais e decisões estratégicas[bb] de cada setor e/ou empresa?

A discussão passa por dois caminhos, cujas reflexões nos levam a diagnosticar padrões perigosos de gestão:

  1. Fatores cíclicos capazes de prejudicar os resultados. A escassez de capital fez diminuir o número de financiamentos e empréstimos nestes últimos meses. O fato, discutível na esfera prática, existe e foi amplamente divulgado. Se determinadas empresas, com as automobilísticas, têm suas vendas atreladas à facilidade de crédito e financiamentos na ponta de consumo, é natural observar resultados piores e necessidade de novos planos. Aqui, a conjuntura certamente impacta.
  2. Fatores administrativos e estratégicos comprometendo resultados. A exposição cambial excessiva, praticada por grandes empresas nacionais (Sadia, Aracruz e Grupo Votorantim, por exemplo), transformou resultados positivos em grandes prejuízos ou diminuição drástica de caixa operacional. Uma estratégia de aposta, em níveis acima do limite acertado entre administração e acionistas, colocou empresas em estado de alerta. Aqui, a conjuntura impacta, mas em decorrência de práticas duvidosas, feitas sem a anuência dos donos da empresa (acionistas).

Não dá para culpar só a crise, não é mesmo? Claro que um terceiro caminho, dado pela combinação das possibilidades já apresentadas, também existe e está em curso. Empresários e executivos têm a difícil missão de interpretar sinais do mercado, da empresa e dos clientes e transformá-los em ações que beneficiem os acionistas. Como fazer isso em tempos tão turbulentos?

O exemplo mais recente
O jornal Folha de S. Paulo publicou, ontem, trechos de um comunicado da VCP (Votorantim Celulose e Papel), empresa do Grupo Votorantim, onde executivos alertam para o perigo da crise e enumeram diversas atividades e políticas para reforçar o caixa e os resultados. O documento começa assim: “A atual crise econômica mundial, com desdobramentos e duração ainda não previsíveis, exige ações imediatas de todos os setores e organizações, inclusive do Grupo Votorantim”.

Suspensão de reembolso de quilometragem, redução de eventos externos como reuniões e workshops que representem custos de hotelaria e viagens, manutenção de apenas uma impressora colorida para atendimento de uma das unidades da empresa, suspensão de contratação de consultoria externa, de recrutamento interno, de promoções, de novas transferências entre unidades e cancelamento do programa de estágio de nível superior são algumas das ações apontadas.

Seria irresponsabilidade demais julgar a atitude da empresa. Nada disso, não tenho esta pretensão. Cabe apenas observar que, depois de um prejuízo de R$ 586 milhões decorrente da exposição cambial, o momento é oportuno para que grandes mudanças operacionais sejam postas em prática – já que pouca ou nenhuma resistência deve ser imposta por equipes, gerentes e diretores. Diante da “crise”, impossível agir de outra forma.

Neste sentido, a crise “boi de piranha” mostra-se essencial para grandes empresas[bb], como também para grupos e companhias dispostas em dilemas estratégicos importantes. Você ainda vai ler e ouvir a desculpa “é a crise” por algum tempo, acredite. Independentemente da origem do problema – se por efeitos reais da crise ou desobediência administrativa -, o momento exige mudanças, mas também mais transparência.

Então é possível crescer na crise? Crise é oportunidade?
Claro. Ora, algumas empresas estão tratando de aproveitar a tal “oportunidade” para colocar em prática decisivas ações, tudo em prol de sua sobrevivência, de melhores resultados e maior lucratividade. Itaú compra, opa, funde-se com o Unibanco; Grupo Votorantim anuncia grande plano de contenção de gastos e geração de caixa. Nós (eu, você, ele), no lugar desses executivos, faríamos a mesma coisa. Certo? Errado? Desculpa esfarrapada? Exagero?

Sim, também é verdade que muito exagero tem sido usado para referir-se à crise como força motivadora para certas atitudes. Afinal, a crise também está claramente representada como um momento de grandes exageros. Mas, enquanto a justificativa “são os efeitos da crise” funcionar, alimentaremos a dúvida sobre sua legitimidade e propósito. Que paire a dúvida, desde que em benefício da certeza de um amanhã melhor para acionistas, cidadãos e nação.

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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