A hipocrisia, a auto-ajuda e o “Efeito Adriano”Tenho acompanhado o noticiário esportivo e cotidiano que cerca o “caso Adriano” e confesso: estou decepcionado com as conclusões e insinuações dadas em muitos veículos de notícias. Dar nome aos “bois” não vem ao caso, até porque não é só na cobertura jornalística do caso que encontrei boa dose de hipocrisia. Amigos e familiares tem tido reações semelhantes, acusando o jogador de “frescura”, afirmando que ele está mal assessorado ou que agiu por impulso e de “cabeça quente”. Besteira.

Você certamente está intrigado. O que um jogador de futebol e suas decisões têm a ver com um blog de finanças pessoais[bb] e educação financeira? Não serei abusado o suficiente para tentar embasar a estreita(?) relação, mas peço sua confiança para continuar a leitura e tentar compreender como o “Efeito Adriano” pode influenciar nossas vidas. O artigo trata do sucesso e das conseqüências decorrentes de nossas decisões – o dinheiro é mais uma das importantes questões inerentes ao processo. Portanto, aviso, vou arriscar algumas palavras sobre o caso, já que gosto muito de futebol.

Nos jornais e revistas, pululam versões investigativas dos fatos, com a intenção de apurar o que de verdade fez o brasileiro tomar essa decisão. Investigam os arredores, a comunidade que o craque tanto ama e sua vida particular; entrevistam profissionais das áreas de psicologia e psiquiatria para tentar desvendar o inquieto e duvidoso raciocínio de alguém que tinha tudo e decidiu, literalmente, chutar a bola para “longe do gol”.

Por que? Por quem? Para que? Por quanto tempo? As questões sobre a polêmica criada pela atitude do Imperador levantam inúmeras possibilidades. Que tal considerar a mais simples e óbvia? Adriano decidiu colocar sua felicidade em primeiro plano. A conclusão, tirada a partir do que o próprio craque disse em sua coletiva, parece não convencer um enorme grupo de pessoas. “Não! Ele está louco!” é o que continuo escutando.

Mudando o personagem…
Esqueça um pouco o Adriano. Pense em você, suas últimas atitudes e decisões – considere sua vida pessoal, profissional, os amigos e a família. Relembre as mudanças que enfrentou, as opiniões que ouviu ao encarar os desafios impostos pela vida e como venceu estas barreiras. Imagine-se passando por algo sério, que requer muito de sua atenção. Meio dramático, eu sei, mas quero sensibilizá-lo para as seguintes perguntas:

  • Quanto você pensou em você ao se decidir por este ou aquele caminho? Ou por escolher caminho nenhum?
  • Quanto sua família representa nas decisões de seu dia-a-dia? Quanto ela deveria representar?
  • Você está em paz com as cobranças familiares ou acredita que poderia fazer mais por ela? Ou julga fazer demais?
  • Você seria capaz de abrir mão de seus simples momentos de prazer por algum dinheiro? E por muito dinheiro?
  • Já se sentiu, ou se sente culpado por alguma decisão e pelas conseqüências nada interessantes que ela lhe trouxe? Ou se sente culpado por simplesmente não ter se decidido quando isso era necessário?
  • O hábito e a rotina consomem as pessoas. Você está pronto para dar uma guinada em sua vida? Sente que isso é necessário?

Entre a auto-ajuda e a verdadeira resposta
Responder a todas estas perguntas exige, antes de mais nada, sinceridade. A hipocrisia disfarçada em nossa sociedade leva a grande maioria dos leitores a abandonar o exercício, classificando como auto-ajuda barata e sensacionalismo desnecessário. A mesma sociedade, engraçado, que decide encontrar a tão genuína razão para a atitude corajosa do craque Adriano. Não basta a resposta sincera que preza a felicidade[bb] em detrimento de tudo mais – soa como auto-ajuda. Pois é, esta é a sociedade em que vivemos.

O “Efeito Adriano”, termo carinhosamente cunhado pela minha mãe, sempre presente no espaço de comentários deste blog, levanta uma questão fundamental: o que realmente nos alegra e mantém nossa capacidade de realizar mais, pelo simples prazer de participar? O trânsito desta tese é complicado, já que não basta apontar o “eu” como solução. Felizmente, bons profissionais já alertaram que a sensação de inclusão, a alegria de viver e a necessidade de afeto familiar são fundamentais para todos, inclusive aqueles que consideram este assunto um pretexto para mais um discurso de auto-ajuda.

Escrevi em outra oportunidade, no artigo “Causa e Efeito” (em junho de 2007), que as coisas, sejam elas matemáticas, emocionais ou materiais, definitivamente não se resolvem sozinhas. Nosso futuro pessoal é determinado muito mais por nossa vontade que por nossos desejos e sonhos. No entanto, é preciso aceitar que qualquer atitude gera pelo menos uma conseqüência. É a famosa regra de causa e efeito, a graça da vida. Afinal, quanto mais energia investirmos em uma dificuldade, mais ela cresce!

O Imperador tentou driblar a dificuldade por muito tempo, como não é novidade para ninguém. Foi alvo de situações complicadas no passado, chegou a ser “afastado” e veio se recuperar no Brasil e, curiosamente, ficou bem enquanto esteve por aqui. Que curiosamente que nada. O craque finalmente encarou seu problema e parou de alimentar o grande vilão de sua alegria. Adriano deu lugar ao sorriso sincero, ao abraço dos amigos e ao amor da família. O resto, ele já tem.

O “Efeito Adriano” em cada um de nós…
Agora experimente misturar à todas estas questões e opiniões a independência financeira – ou a falta dela. Pensar em tudo isso quando a família passa por dificuldades financeiras há de ser muito mais complicado. Com dinheiro, não há como negar, tudo pode ser planejado de forma mais simples e de forma mais eficiente, afinal o conforto, o básico para viver e algum lazer ainda serão parte do dia-a-dia da família.

Experimente relembrar uma situação meramente semelhante à vivida pelo craque brasileiro dos gramados; pense nas muitas vezes em que a cobrança familiar, mesmo de forma sutil e quase invisível, fez você balançar ou mudar completamente o rumo das coisas; pense na mudança que você não fez porque simplesmente não teve coragem de assumir as conseqüências; pense nas vezes em que disse “não” pelo simples medo de que o sucesso[bb] a alcançar fosse grande demais para suas pretensões; pense no efeito paralisador diante da possibilidade de vencer e ser muito mais.

Parabéns Adriano! Você teve coragem, mas acima de tudo humildade para reconhecer que, mesmo com tanto sucesso e diante da possibilidade de ser esquecido e deixado de lado, a verdadeira realização é viver cercado de pessoas boas (muito diferente de boas pessoas) e fazer delas sua grande prioridade. Ao contrário do que se alardeia por aí, tenho certeza de que seu sucesso como pessoa ainda vai inspirar muitos cidadãos, fãs do futebol ou não. Como profissional, não há o que provar – e essa nunca foi a questão.

O “Efeito Adriano” surge como o grande e necessário soco na hipocrisia. Que ele seja tão forte quanto os certeiros chutes ao gol do eterno menino da Vila Cruzeiro. Afinal, um Imperador Feliz vale por muitos brasileiros ainda simplesmente confortados pelo “piloto automático” cotidiano. Quantos têm a coragem do astro? Assumir a alegria da vida deveria ser mais fácil. Será que não é?

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Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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