Home Economia e Política A Taxa Selic e o lobby dos juros altos no Brasil

A Taxa Selic e o lobby dos juros altos no Brasil

por Ricardo Pereira
0 coment√°rio

A Taxa Selic e o lobby dos juros altos no BrasilCaro leitor do Dinheirama, o artigo de hoje ir√° tratar de um assunto bastante pol√™mico: os juros altos no Brasil e a quem eles interessam. Na √ļltima reuni√£o do Comit√™ de Pol√≠tica Monet√°ria (COPOM), para surpresa de boa parte dos analistas e m√≠dia especializada, a taxa b√°sica de juros (tamb√©m conhecida como Taxa Selic) foi reduzida em 0,50 ponto percentual, saindo de 12,5% para 12% ao ano.

A surpresa geral se deu pelo discurso tradicional de que a infla√ß√£o est√° fora do centro da meta ‚Äď a vis√£o era a de que a manuten√ß√£o dos juros mais altos seria indispens√°vel para que os pre√ßos pudessem recuar. O discurso do mercado seguiu feroz, especialmente no sentido de considerar a baixa dos juros como interfer√™ncia da equipe econ√īmica do governo na chamada independ√™ncia do Banco Central.

Hiperinflação: uma década de dificuldade
Convido voc√™ a rever um pouco da hist√≥ria dos juros e da infla√ß√£o. Todo brasileiro com pouco mais de 30 anos deve se recordar de um dos per√≠odos mais tristes de nossa hist√≥ria. A d√©cada de 80 e seus diversos planos econ√īmicos podem ser traduzidos como um per√≠odo de hiperinfla√ß√£o, desemprego e falta de esperan√ßas. O Brasil era ref√©m dos altos pre√ßos e da pouca competitividade de sua ind√ļstria.

Em 27 de fevereiro de 1994, com a publica√ß√£o no Di√°rio Oficial da medida provis√≥ria n√ļmero 434 – MP 434/94 -, teve inicio o Plano Real, um marco divisor desse triste per√≠odo e um dos alicerces mais importantes para a caminhada rumo √† estabiliza√ß√£o econ√īmica.

Metas de inflação, o poder supremo do Banco Central
Em Junho de 1999, após um período de crises financeiras, o Brasil adotou o regime de metas de inflação como forma de ancorar a subida dos preços, tendo o Banco Central a responsabilidade de conduzir todos os esforços (monetários e fiscais) para cumprir tais metas.

Os anos foram passando e a infla√ß√£o foi, na maior parte das vezes, obedecendo ora o topo da meta de infla√ß√£o definida para o per√≠odo, ora o centro da meta. De 1994 para c√°, a taxa de juros no Brasil atingiu, em seu pico, inacredit√°veis 45% ao ano. √Č verdade que, se observado o gr√°fico de todo o per√≠odo, sa√≠mos de n√ļmeros expressivos para uma queda tamb√©m significativa.

Brasil, a maior taxa de juros do mundo
A queda na Taxa Selic é importante, mas tem que sinalizar uma tendência de baixa. A grande pergunta (e o ponto principal desse artigo) que fica é: há necessidade de juros tão altos? Ou ainda: quais os reais motivos que nos fazem o país com maior taxa de juros do mundo?

Mesmo ap√≥s a conten√ß√£o da infla√ß√£o, o Brasil passou por alguns per√≠odos de pico inflacion√°rio. As commodities aumentavam de pre√ßos, os servi√ßos ficavam mais caros e a primeira a√ß√£o era o aumento das taxas de juros para conter o consumo e esfriar a economia. Parece que os juros s√£o a √ļnica arma para ‚Äúsegurar‚ÄĚ a economia. Ser√°?

Durante esse tempo, o discurso era de que esse expediente se justificava porque o pa√≠s tinha problemas de infraestrutura ‚Äď e por isso nossos produtos e servi√ßos eram caros, mesmo sem ter grande qualidade. O que dizer dos crescentes gastos com a m√°quina p√ļblica, raz√£o tamb√©m de grande influ√™ncia na economia?

Com o passar dos anos, a realidade dos juros altos presenteou muitos investidores com altas taxas de retorno sobre seus investimentos em renda fixa, especialmente nos t√≠tulos p√ļblicos. Do lado do pa√≠s, presenciamos a d√≠vida p√ļblica crescer cada vez mais, o que, aos poucos, foi se tornando um dos nossos grandes problemas.

A independência do Banco Central e os oito anos de Henrique Meirelles
Durante os dois mandatos do Presidente Lula, quando o engenheiro civil Henrique Meirelles esteve √† frente do Banco Central, a pol√≠tica econ√īmica seguiu a linha do expediente conservador, ou seja, cada solavanco inflacion√°rio vinha acompanhado de uma martelada de juros.

Mas, se os nossos juros j√° eram os maiores do mundo, por que a necessidade de aument√°-los ainda mais? Ficava claro que o rem√©dio dos juros atacava o efeito e n√£o a verdadeira causa do problema. O mais triste √© que ningu√©m parecia disposto a enfrentar, de fato, os verdadeiros problemas, mesmo sendo as solu√ß√Ķes de conhecimento geral.

O artigo “Por que taxa de juros t√£o alta e um crescimento t√£o baixo?”, do Prof. Vladimir K. Teles, √© muito interessante. Se compararmos os pa√≠ses que cresceram tanto ou mais do que o Brasil nos √ļltimos anos, vamos nos surpreender ainda mais. O discurso dos economistas (ou seriam ‚Äúmercadistas‚ÄĚ?) perde ainda mais o sentido:

  • A China, por exemplo, est√° com os juros em 4,9% ao ano e o crescimento m√©dio do PIB chin√™s nos √ļltimos anos ficou pr√≥ximo de 10%. Mas a China √© um caso a parte, dir√£o muitos;
  • Outro bom exemplo, a Cor√©ia do Sul tem taxa de juros de 3,25% ao ano;
  • Mesmo Cingapura, que possui dados pouco confi√°veis, tem taxa de juros de 6% ao ano.

O lobby dos juros altos
O que parece existir √© culto √† pol√≠tica de juros altos, quando ela n√£o garante, de forma inteligente e sustent√°vel, infla√ß√£o baixa. A necessidade de manuten√ß√£o efetiva de controle dos gastos p√ļblicos e as reformas fiscal e tribut√°ria, itens que poderiam nos colocar em outro patamar, s√£o decis√Ķes adiadas e que n√£o surgem na pauta econ√īmica do pa√≠s.

Esse discurso, ou lobby para que os juros se mantenham altos, n√£o se justifica mais. Desde 1998, o pa√≠s apresenta sucessivos super√°vits prim√°rios (atualmente conseguimos economizar 4% do PIB para pagamento dos juros da d√≠vida), mas mesmo com toda essa economia os juros (da d√≠vida) continuam sendo enormes e a d√≠vida p√ļblica chega a patamares alarmantes.

O fato √© que o governo precisa conter despesas e gastar melhor. N√≥s, cidad√£os, precisamos encarar a realidade de que os juros altos s√£o vil√Ķes t√£o danosos para o crescimento e desenvolvimento sustent√°vel da na√ß√£o quanto a infla√ß√£o. O Brasil n√£o pode mais concordar em ser o pa√≠s com maior taxa de juros do mundo.

√Č hora de mudar e encontrar o verdadeiro equil√≠brio entre o necess√°rio crescimento e a infla√ß√£o, mas com decis√Ķes duras, talvez impopulares e de longo prazo. Para usar um jarg√£o bem batido, ser√° que haver√° ‚Äúvontade pol√≠tica‚ÄĚ para fazer o que √© preciso?

Foto de sxc.hu.

O Dinheirama √© o melhor portal de conte√ļdo para voc√™ que precisa aprender finan√ßas, mas nunca teve facilidade com os n√ļmeros.

© 2024 Dinheirama. Todos os direitos reservados.

O Dinheirama preza a qualidade da informa√ß√£o e atesta a apura√ß√£o de todo o conte√ļdo produzido por sua equipe, ressaltando, no entanto, que n√£o faz qualquer tipo de recomenda√ß√£o de investimento, n√£o se responsabilizando por perdas, danos (diretos, indiretos e incidentais), custos e lucros cessantes.

O portal www.dinheirama.com é de propriedade do Grupo Primo.