A vitimização como falso pilar de felicidadeLeonardo comenta: “Navarro, não faz muito tempo tive uma discussão com minha esposa sobre nossa postura diante de nossos problemas financeiros, dívidas e falta de planejamento. A sensação que tenho é que não colocamos a mesma energia de outros tempos nessas questões. Preferimos jogar a culpa nos outros, no que deu errado, no que ainda não aconteceu e por ai vai. Preciso ler algumas verdades sobre isso. Obrigado”.

Certa vez ouvi em uma palestra que o ser humano é o “mestre na arte de encontrar justificativas para suas decisões”. Você já deve ter percebido essa habilidade[bb] em ação, afinal tomamos muitas decisões de forma impulsiva e logo em seguida tentamos criar as condições ideais para nos confortarmos com o que acabamos de fazer.

Boas justificativas fazem o tempo passar…
Em se tratando de pequenas decisões cotidianas, tipo “Comi aquele lanche rápido porque não ia dar tempo de almoçar”, muitas justificativas até parecem fazer sentido – e seu uso acaba sendo essencial para que seja possível seguir adiante com as responsabilidades.

É muito comum observar esse “conceito” em nossa cultura. Muito de nossa prestação de serviços baseia-se na máxima “criar complexidades para vender simplicidade”. Porque é difícil, precisamos (e esperamos) dos outros para a solução (acontece com a abertura de empresas, declaração de imposto de renda, compra e venda de imóveis etc.).

Sem perceber (ou sem aceitar), estendemos isso ao dia a dia e buscamos “no sistema” a solução para problemas pessoais. A coisa começa a tomar proporções perigosas quando as desculpas viram muleta para a falta de bom senso e planejamento[bb]. Ao contrário do que temos discutido neste espaço, olhar-se como uma vítima só reforça o quanto você prefere esperar que uma solução apareça ao invés de buscá-la de forma pró-ativa.

A culpa é do sistema?
Frases tipo “Ele fala isso porque a situação dele é melhor que a minha” ou “A liquidação de 70% era imperdível” trazem uma sensação de tranquilidade imediata porque transferem a culpa por uma decisão insensata para outra pessoa, entidade ou empresa.

A vítima prefere olhar os acontecimentos como sendo consequências de fatores alheios ao seu controle, permitindo assim que a culpa seja sempre de variáveis externas. Assim, dormir tranquilo fica mais fácil e a pose tipo “está tudo sob controle” permanece. Na prática, porém, os problemas continuam sem solução.

Quem só se justifica vira um chato!
Existe ainda um agravante. O indivíduo afetado pela necessidade de justificar tudo se torna alguém desagradável e incapaz de enxergar nos outros as oportunidades[bb] de melhorar. O convívio fica prejudicado porque quem não se sente culpado tende a cobrar demais.

Inventa-se desculpa para tudo. E se os problemas não são da vítima, ela não é capaz de agir. Logo, vai esperar e trabalhar que para os outros resolvam suas questões. Vai exigir mais dos outros, será mais inflexível, cobrará resultados cada vez mais claros e assim por diante.

Em finanças, esse comportamento também se traduz no pensamento “devo não nego, pago quando puder”. O problema existe, é sério e requer ações imediatas, mas e daí? Entram em cena as justificativas: este mês receberei hora extra, mês que vem finalmente fulano vai me pagar, o bico que eu estava procurando vai finalmente aparecer e assim por diante.

O “e se”, o “quando isso” ou o “assim que” acabam se tornando o modus operandi de muitos lares. Consegue enxergar gente assim no seu convívio pessoal? Infelizmente, isso é muito mais comum do que admitimos. Desnecessário dizer que quem prefere ser vítima dificilmente será reconhecido por fazer algo extraordinário ou será capaz de construir um legado.

Cuidado com a interpretação do texto. Achar que estou apontando o dedo para você é transferir a culpa dos seus problemas para mim – e isso não vai adiantar nada. Comente no espaço abaixo e também no Twitter se a reflexão foi útil. Siga-me em @Navarro. Até mais.

Foto de sxc.hu.

Conrado Navarro
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